Artigos e Opinião

Editorial

Diesel caro e concorrência travada

Se três grupos dominam parcela relevante do mercado e influenciam a dinâmica de preços, há um sinal de alerta para autoridades regulatórias

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Nesta edição, mostramos uma realidade que pesa no bolso do consumidor e pressiona toda a economia: o preço do diesel, apesar dos esforços anunciados pelos governos federal e estadual, ainda não caiu como se esperava.

A promessa de uma subvenção de até R$ 1,20 por litro tinha como objetivo aliviar custos e conter repasses em cadeia, mas esse desconto, ao menos até agora, não chegou de forma perceptível às bombas para os proprietários de veículos movidos a diesel.

O problema não se resume ao motorista que abastece caminhonetes, utilitários ou veículos de trabalho. O diesel ocupa posição central na estrutura logística brasileira. É ele que move caminhões, máquinas agrícolas, ônibus e parte relevante do transporte de mercadorias.

Quando sobe, encarece o frete. Quando o frete sobe, alimentos, remédios, materiais de construção e praticamente todos os produtos sentem o impacto. Por isso, trata-se do combustível que mais exerce pressão inflacionária sobre a economia nacional.

No centro desse tabuleiro convivem interesses distintos. Há, de um lado, estratégias políticas e eleitorais que buscam apresentar respostas rápidas ao consumidor.

De outro, existe uma preocupação legítima do poder público em reduzir a inflação e preservar a atividade econômica. Medidas emergenciais podem ter valor conjuntural, sobretudo em momentos de forte pressão de preços.

Mas, sem atacar causas estruturais, seus efeitos tendem a ser limitados.

É nesse ponto que a discussão sobre concorrência ganha relevância. A livre iniciativa e o livre mercado devem existir sempre, pois estimulam eficiência, inovação e melhores preços ao consumidor.

O que não pode persistir é a desconfiança recorrente sobre o papel das distribuidoras no processo de formação dos preços.

Quando reduções tributárias ou subsídios não aparecem integralmente na ponta final, a sociedade naturalmente questiona onde, afinal, o desconto ficou retido.

A percepção de que poucas grandes distribuidoras concentram poder excessivo nesse setor também merece atenção. Se três grupos dominam parcela relevante do mercado e influenciam a dinâmica de preços, há um sinal de alerta para autoridades regulatórias e órgãos de defesa da concorrência.

Monopolizar ou oligopolizar a formação de preços está longe do ideal de livre mercado, tantas vezes invocado em discursos econômicos.

Não se trata de condenar empresas por seu tamanho ou eficiência. Empresas grandes podem ser competitivas e benéficas ao País.

O problema surge quando a concentração reduz transparência, dificulta a entrada de novos agentes e enfraquece a competição real. Nesse cenário, o consumidor perde e a economia paga a conta.

Por isso, cabe aos órgãos estatais reforçar a fiscalização e a cobrança sobre a formação de preços, garantindo regras claras e ambiente competitivo. Subsídios podem aliviar o presente, mas só a concorrência efetiva corrige distorções de forma duradoura.

No caso do diesel, a solução não está apenas em prometer desconto, mas em assegurar que ele chegue, de fato, ao tanque e ao bolso da população.

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Editorial

A oportunidade de mudar o transporte

Ao falar em intervenção, mas na prática não intervir efetivamente, o Município corre o risco de desperdiçar uma oportunidade importante de reorganizar o sistema

12/06/2026 07h15

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Nesta semana tratamos, neste espaço, da possibilidade de intervenção da Prefeitura Municipal de Campo Grande no Consórcio Guaicurus, concessionário responsável pelo transporte coletivo urbano da Capital. O tema voltou ao debate após a comissão especial criada para discutir o assunto defender uma intervenção no sistema.

O problema é que, ao menos pelo que foi apresentado até aqui, a chamada intervenção parece muito mais uma ampliação da fiscalização do que propriamente uma intervenção administrativa no serviço.

Na prática, a proposta tem caráter orientativo e fiscalizatório.

A ideia seria acompanhar indicadores, cobrar resultados e exigir mais transparência operacional do consórcio. Mas, isso já deveria ocorrer normalmente.

Fiscalizar contratos, acompanhar metas e cobrar eficiência são atribuições básicas das agências reguladoras e dos órgãos municipais responsáveis pelo transporte coletivo.

Aliás, mais do que atribuição, trata-se de obrigação do poder concedente diante de um serviço essencial e altamente subsidiado.

Quando se fala em intervenção, espera-se algo mais profundo. O instituto jurídico existe justamente para permitir ao Município assumir temporariamente o controle administrativo da concessão em situações críticas.

Isso significa nomear um interventor com poder efetivo de participar da tomada de decisões do concessionário, interferindo diretamente em questões como frequência de ônibus, definição de linhas, manutenção da frota e qualidade operacional.

Mais do que isso, uma intervenção séria exige acompanhamento rigoroso do fluxo financeiro do sistema. O transporte coletivo de Campo Grande opera há anos em meio a sucessivos aumentos de subsídios públicos, queda no número de passageiros e constantes reclamações dos usuários.

Não há como discutir eficiência sem compreender quanto custa o serviço e de que maneira os recursos públicos estão sendo utilizados.

Ao falar em intervenção, mas na prática não intervir efetivamente, o Município corre o risco de desperdiçar uma oportunidade importante de reorganizar o sistema. Uma das discussões que poderiam surgir é justamente a formação da tarifa.

Campo Grande convive há anos com um modelo desequilibrado, no qual o subsídio cresce continuamente enquanto o serviço segue alvo de críticas.

Uma revisão transparente poderia estabelecer um preço mais justo, capaz de refletir a realidade do sistema e reduzir gradualmente a dependência de recursos públicos.

Também seria uma oportunidade para melhorar efetivamente o serviço na ponta. O usuário quer menos tempo de espera, ônibus conservados, linhas eficientes e previsibilidade.

Quer voltar a enxergar o transporte coletivo como alternativa viável de mobilidade urbana.

Campo Grande precisa dar sinais concretos de que existe um projeto de recuperação do transporte coletivo. Se houver intervenção, que ela seja real, com poder de decisão, transparência e metas claras.

Apenas fiscalizar aquilo que já deveria ser fiscalizado dificilmente mudará a realidade do transporte urbano da Capital.

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Artigo

Morrer de rir?

Luis Fernando Verissimo já brincava com isso: "Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca"

11/06/2026 07h45

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Desde muito cedo as pessoas recebem a informação de que vão morrer um dia. Mas a grande maioria vive como se a morte fosse apenas uma possibilidade.

E bem distante. Luis Fernando Verissimo já brincava com isso: “Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca”.

Para muita gente, velhas são as pessoas com 20 anos a mais do que elas.

Mas, com o passar do tempo, é inexorável que as rodas de conversa ganhem novos assuntos.

Futebol, maquiagem, política, trabalho, filhos, vinhos e viagens continuam em cena.

Mas ganham a companhia de colesterol, glicemia, nomes de remédios, dores pelo corpo, esquecimentos, indicações de médicos e de farmácias.

De repente, percebe-se que levantar do sofá virou um movimento complexo e que já não é raro procurar os óculos que estão no topo da própria cabeça.

O relógio inteligente informa os batimentos cardíacos. Mas o joelho passa a dar a opinião mais sincera. A impressão é que o corpo abriu franquias e que cada articulação administra sua própria crise.

É quando a pessoa entra num cômodo e precisa consultar a memória como quem consulta o arquivo morto.

Tem gente que lida com o envelhecimento de forma azeda. Mas há quem consiga rir de si mesmo. Talvez façamos piadas porque sabemos que somos mortais. É como se o humor ajudasse a admitir fragilidades sem solenidade.

Em vez de dizer “estou envelhecendo”, alguém pode preferir dizer: “meu joelho prevê chuva melhor do que qualquer aplicativo”. É a autoironia funcionando como amortecedor emocional, como um idioma comum, um convite à conversa.

O envelhecimento escancara a noção de finitude, submersa por longo tempo. Ela aparece sorrateira, quando se comentam aposentadorias, perdas, limitações, afastamento de parentes.

E bate firme quando se percebe a quantidade de contemporâneos que estão morrendo. Conversar sobre isso democratiza a vulnerabilidade.

Talvez por isso haja tantos risos em hospitais e em velórios, piadas sobre idade, ironia sobre os próprios limites. O humor não elimina a morte. Mas impede que ela monopolize a conversa.

No fim das contas, envelhecer talvez seja perceber que o corpo perde vigor ao passo que o repertório ganha profundidade.

Enquanto for possível transformar tudo isso em conversa – e, de preferência, em boas risadas – quem sabe a finitude mereça um entendimento equilibrado: inevitável, sim; proibida, não.

Porque há assuntos pesados demais para serem carregados sem uma generosa dose de bom humor.

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