Artigos e Opinião

EDITORIAL

É preciso "luz" sobre a iluminação pública

Quando o cidadão aceita pagar uma taxa específica vinculada a um serviço essencial, o mínimo que se exige do poder público é transparência absoluta

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O que se pode esperar de uma cidade como Campo Grande, que arrecada R$ 196,8 milhões por ano com a Contribuição Social para o Custeio da Iluminação Pública (Cosip)? A pergunta é quase retórica, mas nem por isso menos necessária.

Quando o cidadão aceita pagar uma taxa específica vinculada a um serviço essencial, o mínimo que se exige do poder público é transparência absoluta: quanto se arrecada, como se gasta, com quem se contrata e quais resultados são entregues à população.

É justamente aí que o discurso começa a falhar. A sensação crescente é de que a gestão da iluminação pública na Capital ocorre em uma zona cinzenta, distante do escrutínio público que cifras dessa magnitude exigem.

Não por acaso, uma das evidências mais contundentes dessa falta de transparência veio no mês passado, com a operação deflagrada pelo Grupo Especializado de Combate à Corrupção (Gecoc) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que colocou sob investigação contratos ligados ao setor.

Nesta edição, seguimos tratando do tema porque ele é central para a boa governança da cidade. Os valores dos contratos sob investigação impressionam e reforçam a necessidade de respostas claras.

Há empresas na mira do MPMS que, além de serem remuneradas com recursos da Cosip, também mantêm contratos paralelos e igualmente rentáveis de locação de máquinas para o Município.

A sobreposição de interesses e fontes de receita levanta questionamentos que vão além da legalidade formal e alcançam o campo da moralidade administrativa.

Talvez alugar bens ao poder público seja, de fato, um dos negócios mais seguros e lucrativos que existem. Prefeituras raramente investem em patrimônio próprio, e a locação surge como solução rápida, prática e aparentemente eficiente.

Mas a experiência brasileira mostra que, em muitos casos, alugar também se tornou um caminho fácil para distorções, sobrepreços e esquemas que alimentam caixas paralelos. Não é um juízo definitivo, mas é um alerta que a história recente recomenda não ignorar.

No caso específico da iluminação pública, a pergunta que ecoa é simples e incômoda: o que Campo Grande faz com tanto dinheiro? Os quase R$ 197 milhões arrecadados superam os R$ 154 milhões de Curitiba, cidade com o dobro da população, e representam cerca de três vezes o montante arrecadado por Porto Alegre.

A discrepância, por si só, não prova irregularidade, mas exige explicações técnicas, detalhadas e acessíveis ao cidadão comum.

Até agora, essas explicações não vieram com a clareza necessária. Diante desse silêncio, é o MPMS que parece buscar as respostas que a administração ainda não ofereceu. Transparência não é favor, é obrigação. E quando ela falta, a desconfiança ocupa o espaço.

Em um tema tão sensível quanto a gestão de quase R$ 200 milhões anuais, Campo Grande deve mais do que iluminação nas ruas: deve luz sobre seus próprios contratos.

EDITORIAL

Loterias: arrecadar com responsabilidade

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão que aumenta a arrecadação. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública

14/02/2026 07h15

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O governo de Mato Grosso do Sul decidiu relicitar o serviço de loterias estaduais. Trata-se de uma medida que, à primeira vista, pode causar desconfiança em parte da sociedade, especialmente em um momento em que o debate sobre apostas e jogos eletrônicos ganha contornos preocupantes no País.

Ainda assim, é preciso reconhecer: do ponto de vista fiscal, a iniciativa é positiva.

Ao assumir oficialmente a exploração da atividade, o Estado transforma em receita pública um fluxo financeiro que, gostemos ou não, já existe. As apostas digitais se disseminaram de forma acelerada no Brasil, muitas delas operadas por empresas sediadas fora do território nacional ou sob marcos regulatórios frágeis.

Quando o poder público organiza e regula esse mercado, cria condições para arrecadar recursos que podem – e devem – ser revertidos em políticas públicas.

Mato Grosso do Sul, aliás, é um dos últimos Estados a entrar formalmente nesse jogo das loterias estaduais. E fez certo ao não agir por impulso. Enquanto outras unidades da Federação correram para estruturar seus sistemas, o governo sul-mato-grossense observou, avaliou riscos e amadureceu o modelo. A cautela, nesse caso, foi virtude.

Mas justamente por chegar depois, o Estado tem a obrigação de fazer melhor. As novas loterias são essencialmente digitais, operadas por meios eletrônicos que ampliam o acesso e, ao mesmo tempo, potencializam riscos.

A facilidade de apostar pelo celular, a qualquer hora, é também a porta de entrada para a dependência. Os relatos de endividamento, conflitos familiares e adoecimento psíquico associados ao vício em jogos não podem ser ignorados.

Se a arrecadação é bem-vinda, a redução de danos deve ser prioridade. É fundamental que o edital e o contrato prevejam mecanismos claros de proteção ao consumidor: limites de apostas, ferramentas de autoexclusão, monitoramento de comportamento compulsivo e transparência nos dados.

Mais do que isso, é indispensável que parte dos recursos arrecadados seja destinada a campanhas permanentes de conscientização sobre os riscos da dependência em jogos.

Essas campanhas não podem ser meramente protocolares. Devem ser constantes, amplas e financiadas também pela empresa operadora do sistema. Afinal, quem lucra com a atividade precisa compartilhar a responsabilidade social pelos seus efeitos colaterais.

Outro ponto inegociável é a transparência. A operação das loterias deve estar submetida a rígido controle, com divulgação periódica de arrecadação, destinação dos recursos e auditorias independentes. Só assim a sociedade poderá confiar que o dinheiro movimentado pelo jogo retorna, de fato, em benefícios coletivos.

Entrar no mercado das loterias pode ser uma decisão pragmática e fiscalmente inteligente. Mas, em tempos de apostas on-line desenfreadas, é também um teste de responsabilidade pública. Que Mato Grosso do Sul mostre que é possível arrecadar sem fechar os olhos para os riscos.

ARTIGOS

O Carnaval como ensaio geral de uma vida mais inteira

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois

13/02/2026 07h45

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Ah, o Carnaval no Brasil. Por aqui, o Carnaval é só calor, suor que cola na pele, fantasia que mais revela do que esconde, samba que nasce no pé antes de chegar ao ouvido, o batuque dos tambores chamando o corpo para existir sem tradução.

É desejo circulando livre no ar, risos fáceis, beijos sem história e histórias sem amanhã, com a sensação rara de poder fazer tudo sem consequência, como se o mundo tivesse suspendido por alguns dias a memória, o julgamento e o depois.

É no Carnaval que as mulheres experimentam versões de si que passam o resto do ano sob vigilância. Saem com mais de uma pessoa, usam aplicativos sem culpa, flertam sem promessa, colecionam encontros, histórias e possibilidades. Não porque estão sozinhas, mas porque estão vivas.

Durante alguns dias, “ser mulher” não precisa ser explicado, não vira caráter, não vira diagnóstico, nem sentença. O Carnaval mostra desejos que não cabem na rotina, no crachá, no currículo ou no roteiro de “boa mulher, profissional de sucesso, cuidadora dedicada”.

A pergunta incômoda, que vem depois da Quarta-feira de Cinzas, é: por que essa liberdade só é tolerada como exceção?

Na carreira, acontece algo parecido. Mulheres que investigam novos caminhos, testam áreas, mudam de direção ou recusam trajetórias lineares (moldadas por uma forma masculina) ainda são vistas como instáveis, sem talento, pouco profissionais.

Como se maturidade fosse sinônimo de engessamento e enquadramento, e não de escolha consciente.

E se o Carnaval fosse só um ensaio do que a vida plena pode ser? Um espaço seguro para experimentar versões possíveis de si, encontrar seu propósito, o que te traz brilho nos olhos e autonomia para escolher nem leque amplo de opções profissionais que um dia foram ocupadas apenas por homens?

Fica aqui a proposição (ou provocação): aproveite o embalo do Carnaval e teste as suas versões possíveis. Com planejamento, estrutura e um pouquinho de coragem, talvez o ano inteiro possa ser assim.

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