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CORREIO DO ESTADO

Editorial desta segunda: "Dificuldade na fronteira"

Editorial desta segunda: "Dificuldade na fronteira"

Redação

28/09/2015 - 00h00
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A queda no movimento do outro lado da fronteira, em outros momentos da história, geraria ânimo nos comerciantes brasileiros, o que, desta vez, não é o caso.

A disparada na cotação do dólar, que, na semana passada, pela primeira vez na história do Brasil, desde a implantação do Plano Real, superou a marca de R$ 4 preocupa não somente o lado paraguaio da fronteira, onde comerciantes constatam, desde o início do ano, queda brusca no movimento de turistas e consumidor, mas também do lado de cá, onde a geração de empregos e a circulação de dinheiro ameaça a economia das cidades fronteiriças.    

Com o dólar a mais de R$ 4, comprar no país vizinho, hábito de muitos sul-mato-grossenses, torna-se menos interessante. Primeiro, porque os produtos importados - muito deles sem assistência técnica ou garantia em terreitório brasileiro - ficam muito mais caros que os mesmos produtos vendidos do lado de cá, e em segundo lugar, porque o comércio brasileiro oferece algumas facilidades de pagamento que as lojas paraguaias tradicionalmente não oferecem, como por exemplo, o parcelamento das compras, um diferencial para pegar o consumidor em uma época de dinheiro curto.

O problema principal, contudo, não é somente o preço das mercadorias vendidas no país vizinho. A falta de liquidez da economia brasileira é a grande causa de preocupação de quem depende das vendas no comércio da fronteira. Há pouco dinheiro em circulação no Brasil e uma inflação que só aumenta, fatos que diminuem o poder de compra dos brasileiros. 

A queda no movimento do outro lado da fronteira, em outros momentos da história, geraria ânimo nos comerciantes brasileiros, o que, desta vez, não é o caso. Sem dinheiro no bolso, o brasileiro não gasta em quase lugar nenhum, e o agravante é que o desemprego gerado nas cidades vizinhas (2 mil demissões em Pedro Juan Caballero e 10 mil em Salto del Guairá) prejudica o comércio de municípios como Mundo Novo e Ponta Porã, pois boa parte dos trabalhadores empregados nas lojas paraguaias tem nacionalidade brasileira, e gasta o que recebe nas lojas destas cidades sul-mato-grossenses.

Para os comerciantes, muitos deles nascidos no Brasil, que investiram no Paraguai, recentemente, a expectativa de retorno do bom movimento de vendas virá somente no longo prazo. Os relatórios do governo federal e das instituições bancárias indicam recuo da economia neste ano e no ano que vem. Também não há perspectiva de redução na cotação do dólar, o que faz com que o empresário da fronteira torça para a recuperação do poder de compra dos brasileiros, algo que depende do crescimento da economia e de inflação menor do lado de cá da fronteira, o que não deve ocorrer tão cedo.

Sem o dinheiro dos consumidores brasileiros, a economia da fronteira sofre um duro golpe. A não ser o agronegócio, que tem sido beneficiado com o aumento da cotação do dólar, não há muitas saídas para os milhares de desempregados com a queda nas vendas do lado de lá.

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O futuro a quem pertence?

Mais sintomático que o povo nas ruas em legítimo ato de cidadania, é quando as pessoas se revoltam caladas nas casas, fábricas e universidades

29/05/2026 07h45

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“Hoje, as pessoas já não respeitam nada. Antes, colocávamos em um pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei. A corrupção campeia na vida destes dias. Quando não se obedece outra lei, a corrupção é a única lei. A corrupção está minando este país. A virtude, a honra e a lei se transformaram em fumaça e desapareceram de nossas vidas”.

As palavras acima são de Alphonse Gabriel Capone, o Al Capone, contrabandista e vendedor de bebidas durante a Lei Seca, nos Estados Unidos.

Também matou muitas pessoas. Foi preso por sonegação fiscal, dias depois da entrevista à revista Liberty, publicada em 17 de outubro de 1931.

Neste momento do Brasil, a reflexão do gângster gera questionamentos: O que busca o povo brasileiro quando vai às ruas em plena democracia? Que desejam jovens, adultos e idosos com diferentes mensagens, gritando antigas e novas palavras de ordem como nos tempos da ditadura?

Os brasileiros estão cansados de problemas crônicos: saúde, educação, desemprego e, em especial, a falta de ética na política. A roubalheira ao longo de décadas teve, no caso do Banco Master, a gota d’água.

Transbordou com a crise política, econômica, social e, acima de tudo, moral. Não há mais espaço para discurso vazio, promessa não cumprida, corrupção, desmando e incompetência. Muito menos para delatores ou não, criminosos que cometeram absurdos contra o povo.

Eles roubaram dinheiro que, se investido na saúde, teria salvado muita gente da morte em alguns surreais hospitais públicos de todo o País. Como Al Capone, ao falar de si mesmos, tentam nos enganar outra vez.

Posando como “heróis da Pátria”, com falso arrependimento prometem devolver o que roubaram e entregar comparsas. Não enganam ninguém. Queremos mudanças para valer, reformas estruturais que garantam inalienáveis direitos.

Mais sintomático que o povo nas ruas em legítimo ato de cidadania, é quando as pessoas se revoltam caladas nas casas, fábricas e universidades. A desesperança é muito perigosa.

Nestes tempos em que o povo retorna às ruas para exigir honestidade, lembro-me de um cidadão brasileiro, morto há 24 anos: Carlito Maia. Publicitário brilhante, jornalista irreverente, responsável agitador e o melhor amigo de qualquer um. Suave e forte. Apaixonado convicto, solidário e bem-humorado, integrou o seleto grupo dos “seres especiais em extinção”.

Carlito veio ao mundo a passeio, não em viagem de negócios – como dizia de si mesmo.

Foi o único sonhador realista que conheci. Transbordando ternura, mas também repleto de coragem, era capaz de derrubar montanhas para que elas não fossem a Maomé, só para o profeta não se acomodar. “Uma vida não é nada. Com coragem, pode ser muito”, dizia.

Em tempos bicudos, com tantas revelações de corrupção, imagino a decepção de Carlito. Ele preconizou muitas coisas que hoje estão acontecendo.

Sinto saudade de suas frases sábias, flores e cartões escritos com canetas bicolores, configurando sua comunicação criativa, lúcida e emocionada que faz refletir, querer e transformar.

Amado Carlito, você estava certo: “Nós não precisamos de muita coisa. Só precisamos uns dos outros”. Sem perder a esperança, mantendo a determinação de lutar por nossos direitos, defender verdade e justiça, podemos, com mais educação e cultura, mudar o Brasil pelo voto consciente e responsável.

A começar de uma escolha responsável de parlamentares, porque na prática eles exercem um poder executivo mesmo sob um regime presidencialista, e chegando à opção melhor para presidente.

Não podemos cair nas mãos sujas de quem, como sabemos, já mostrou em tristes quatro anos (2019-2023) que não respeita o Brasil, o seu povo.

E segue fazendo isso, como agora veio à tona, nos desdobramentos do vergonhoso caso do Banco Master.

“Acordem e progresso!”, disse o nosso Carlito Maia. Pensem nisso, porque voto é coisa séria. Pode ser uma ferramenta, pode ser uma arma.

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Entre o 6 e o 9: quando a política atravessa relações

Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que ao escutar o outro se perca o rumo

29/05/2026 07h30

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A polarização política no Brasil é inegável. O País se vê dividido entre esquerda e direita, e essa cisão tem atravessado relações de forma profunda. Amizades antigas acabaram, famílias se desentenderam, casais se separaram. A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam e provocam um verdadeiro “curto-circuito” nas relações. 

Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que ao escutar o outro se perca o rumo.

Soma-se a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, o que torna o diálogo mais árduo. Logo, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, reage; em vez de perguntar, julga. 

Ainda assim, quando falamos de pessoas de boa índole, temos algo em comum: embora as ideias divirjam, muitos dos ideais se aproximam.

Há um desejo compartilhado por justiça, dignidade, liberdade e acesso aos direitos básicos como saúde, segurança e educação. 

É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, frente a frente, podem olhar para o mesmo símbolo e enxergar coisas diferentes: uma vê um 6, a outra um 9.

Ambas estão certas dentro de seus pontos de vista. Assim também ocorre com as ideias: diferentes interpretações podem emergir a partir de um mesmo ideal. 

Quando aproximamos essas visões, surge o número 69. Nesse encontro, não há disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementar.

Ou seja, duas perspectivas coexistindo e compondo algo maior quando colocadas, lado a lado, harmoniosamente. 

Talvez seja justamente essa a habilidade que falte ao Brasil, e a todos nós: a capacidade de transformar o embate em encontro. De lembrar que discordar não significa desarmonia.

De aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho. De trocar certezas rígidas por curiosidade genuína. 

Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos complexos, com uma diversidade de sentimentos que, se não bem administrados, podem gerar disputas e desavenças.

Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, de fato, o número é 96. Longe de ser um problema, é justamente entre integração e divergência que aparecem novos caminhos. 

O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. Afinal, é isso que ainda nos mantêm em diálogo. 

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