Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Editorial desta sexta-feira: "Triste sina de 2012"

Editorial desta sexta-feira: "Triste sina de 2012"

Redação

14/08/2015 - 00h00
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A mudança de perfil de candidato é um exercício saudável e que pode, sim, dar bons frutos; mas, infelizmente, não foi o caso em Campo Grande 

Um ano e cinco meses depois da cassação de Alcides Bernal, a população de Campo Grande vive novamente a incerteza em relação à prefeitura da cidade. Ontem, em sessão tensa, a Câmara de Vereadores aprovou Comissão Processante que pode cassar o mandato de Gilmar Olarte. O ocorrido ontem é mais um desdobramento do resultado das eleições de 2012, quando  os eleitores apostaram na renovação política, mas presenciaram sucessão de medidas que se mostraram equivocadas e comprometeram a permanência de Bernal no cargo. Também foi atingida a administração da cidade, com reclamações de falta de limpeza urbana, da continuidade de obras e suspensão do pagamento de prestadores de serviços. 

Quando Gilmar Olarte assumiu a função, em março de 2014, esperava-se que o furacão tivesse passado e a cidade pudesse voltar, ao menos, à mínima normalidade. Afinal, o novo prefeito teria apoio na Câmara de Vereadores e a governabilidade – comprometida no embate entre Bernal e os parlamentares – poderia tornar-se viável. Porém, não foi o que aconteceu. A crise econômica atropelou as gestões públicas, fruto de medidas equivocadas do governo do PT. Os administradores deveriam, então, tomar medidas de redução de gastos, para não comprometer os projetos em andamento. Em vez disso, o que se viu na gestão de Olarte foi o inchaço da folha de pagamento, com a contratação de 1.044 comissionados, que, até onde se sabe, não estão no topo da lista de cortes feitos até agora. Desde que a retração tomou grandes proporções, os cortes feitos no Executivo parecem não ter surtido grande efeito. O pagamento aos servidores, depois de duas décadas sendo feito até o quinto dia útil, passou a ser escalonado, com servidores de maiores ganhos recebendo no fim do mês. A mesma medida pode ser adotada em setembro, já que as dificuldades permanecem, e a meta de economia fica no limiar do necessário.

Agora, Olarte é réu em processo de corrupção e lavagem de dinheiro, bem como alvo de comissão processante na Câmara de Vereadores. Se o grupo realmente irá afastar o prefeito do cargo, é uma dúvida que toda a população tem, uma vez que os vereadores que compõem o grupo fazem parte da base aliada – até o relator, que tem papel fundamental nos rumos dos trabalhos. Independentemente do desfecho, o que permanece é o clima de instabilidade na cidade. Desde que houve tentativa de experimentar e renovar, todos estão pagando por isso. A mudança de perfil de candidato é um exercício saudável e que pode, sim, dar bons frutos; mas, infelizmente, não foi o caso em Campo Grande. Olarte, permanecendo no cargo ou não, representa o equívoco que começou a ser criado a partir da eleição de Alcides Bernal. No mês do aniversário de 116 anos de uma capital tão promissora, o que fica é sentimento de tristeza e decepção pelo que ainda pode acontecer.

E, como se não bastasse a situação no cenário da Capital ser ruim, ainda há a preocupação com a política econômica nacional, trêmula das pernas e sem rumo. Resta ao eleitor pensar uma, duas, dez vezes na escolha do candidato. Cada vez mais, é importante selecionar com cuidado, não por amizade ou por quanto o seu voto “vale”. O critério tem que passar por competência, lisura e preparo para assumir funções no Executivo e Legislativo.

EDITORIAL

O outro lado do agro "próspero"

É a velha mentalidade de pessoa física com fachada de pessoa jurídica. Enquanto o patrimônio cresce, a saúde financeira do negócio nem sempre acompanha

10/03/2026 07h15

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Nesta edição, mostramos que as recuperações judiciais no agronegócio de Mato Grosso do Sul dispararam. O crescimento, de 2023 para cá, é exponencial e acende um alerta que vai além da situação conjuntural do campo.

O aumento acelerado de pedidos de RJ indica que algo não vai bem não apenas na rentabilidade das atividades rurais, mas também na forma como muitos empreendimentos agrícolas têm conduzido sua gestão financeira.

É evidente que fatores de mercado pesam sobre o setor. Oscilações de preços, custos elevados de insumos, juros mais altos e riscos climáticos fazem parte da realidade de quem produz no campo.

No entanto, atribuir apenas ao preço baixo das commodities a enxurrada de recuperações judiciais seria simplificar demais um problema que parece mais estrutural. O que se vê, em muitos casos, é a fragilidade de modelos de gestão que ainda não acompanharam o grau de complexidade e de volume financeiro que hoje envolve o agronegócio.

A comparação com outros setores da economia ajuda a dimensionar essa questão. Indústria e comércio, por exemplo, enfrentam desafios semelhantes de mercado, mas contam com menos facilidades para acessar crédito.

O agronegócio, por sua vez, dispõe de instrumentos robustos de financiamento, que vão desde o Plano Safra e linhas do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) até mecanismos privados cada vez mais sofisticados, como letras de crédito do agronegócio e fundos de investimento nas cadeias produtivas, os chamados Fiagros.

Esse amplo acesso a recursos tem sido um dos pilares do crescimento do setor nas últimas décadas. Porém, ele também impõe responsabilidades. Um aumento expressivo de calotes bancários e de inadimplência em contratos não afeta apenas credores privados.

Parte relevante desses financiamentos conta com subsídios ou mecanismos públicos de apoio. Quando há desequilíbrio generalizado, uma parcela desse custo acaba sendo socializada – direta ou indiretamente – entre os cidadãos que financiam essas políticas por meio de impostos.

Outro ponto que precisa entrar no debate é a forma como muitos empreendimentos rurais ainda estruturam suas finanças.

Tradicionalmente, o agro brasileiro sempre foi muito focado na formação de patrimônio – terra, máquinas, estrutura produtiva. Isso ajudou a consolidar o setor. Mas, em muitos casos, faltou a mesma atenção à preservação de caixa, à capitalização e à gestão profissional do fluxo financeiro.

É, em certa medida, a velha mentalidade de pessoa física com fachada de pessoa jurídica. Enquanto o patrimônio cresce, a saúde financeira do negócio nem sempre acompanha.

Em períodos favoráveis, o modelo funciona. Mas, quando surgem turbulências de mercado, a fragilidade aparece – e o resultado, muitas vezes, é a recuperação judicial.

O agronegócio é um dos pilares da economia brasileira e da sul-mato-grossense. Justamente por isso, precisa avançar também em governança, planejamento e gestão. A profissionalização administrativa é um passo essencial para que o setor continue crescendo com solidez.

Espera-se que o aumento recente de recuperações judiciais sirva como sinal de alerta. Mais do que um fenômeno pontual, ele deve estimular uma reflexão necessária dentro do próprio campo: produzir bem é fundamental, mas gerir bem o negócio é igualmente indispensável. Só assim será possível evitar que a atual onda de RJs se transforme em um problema estrutural para o setor.

ARTIGOS

IA: quem controla os controladores?

Algoritmos determinam o que vemos nas redes sociais, quais notícias chegam até nós, que músicas ouvimos e até mesmo quando alguém solicita um carro por aplicativo

09/03/2026 07h45

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Durante décadas, o conceito de inteligência artificial (IA) foi tratado como ficção e permeava nossa sociedade sob o prisma do imaginário. Hoje, em um salto de 4 anos, ela está silenciosamente incorporada ao cotidiano de toda a humanidade.

Algoritmos determinam o que vemos nas redes sociais, quais notícias chegam até nós, que músicas ouvimos e até mesmo quando alguém solicita um carro por aplicativo; o algoritmo decide com base em probabilidade de aceitação, tempo estimado e histórico de desempenho.

Eles não possuem consciência, mas possuem algo igualmente útil e poderoso: a capacidade analítica de prever o nosso comportamento.

Quando abrimos as redes sociais, não estamos navegando em um espaço neutro, estamos atravessando um filtro algorítmico que prioriza conteúdos com maior probabilidade de manter nossa atenção na tela. O que é apresentado como uma grande vantagem, carrega um efeito social mais complexo do que parece.

O algoritmo aprende nossas preferências, muitas das quais estão relacionadas ao nosso perfil psicológico e biológico. Nesse campo estão as nossas inclinações políticas, nossos problemas de saúde e fragilidades emocionais. Toda essa espiral de informações passa a reforçar padrões.

No mercado global, sistemas de IA já participam de decisões financeiras. Plataformas como a Amazon ajustam preços dinamicamente conforme demanda, localização e perfil de consumo.

Em 2018, no campo político, veio à tona o caso da Cambridge Analytica, que utilizou dados do Facebook para influenciar campanhas políticas, evidenciando como informações coletadas por meio das redes sociais podem ser usadas para segmentar mensagens eleitorais. O dado se tornou insumo de estratégia e micro direcionamento de massas.

Outro exemplo são as chamadas Big Techs, que concentram a capacidade de processamento e armazenamento de dados. Empresas como Meta, Google, Amazon e Microsoft monopolizam a controladoria de serviços essenciais: busca, nuvem, comunicação, armazenamento e publicidade.

A inteligência artificial é absoluta no gerenciamento em larga escala: quanto mais preciso, maior a vantagem competitiva. A discussão atual não é sobre máquinas conscientes dominando o mundo. É sobre sistemas automatizados influenciando decisões humanas globalmente.

E a grande reflexão que fica é: quem faz a regulação desses sistemas? Como proteger a privacidade e a autonomia individual? As leis referentes à IA que já vemos implementadas na União Europeia são suficientes?

O futuro aponta para sistemas cada vez mais integrados à estrutura social e eficientes, porém, invisíveis e difíceis de auditar. A tecnologia seguirá evoluindo e essa vigilância velada se enraizando cada vez mais nos dispositivos do dia a dia.

Vivemos um momento histórico em que a inteligência artificial não é mais hipótese distante e aqueles que detêm os dados, detêm capacidade de influenciar, modelar e definir o comportamento coletivo. A pergunta não é se a IA controla. A pergunta é: quem controla a IA? E, sobretudo, quem controla os controladores?

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