Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Editorial desta terça-feira: "Tragédia anunciada"

Editorial desta terça-feira: "Tragédia anunciada"

Redação

25/08/2015 - 00h00
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Apesar do grave dano ambiental, nenhuma intervenção prática foi executada nas últimas décadas para conter o assoreamento no Rio Taquari.

Desde a década de 1970, com expansão da produção agrícola na Bacia do Rio Taquari,o alerta foi ligado. Como em outros exemplos de descaso do homem com os avisos da Natureza, a ação de remoção de matas e implantação de pastagens foi feita à revelia, sem qualquer cuidado com o entorno. O rio perdeu seu curso em decorrência do assoreamento do leito, que aumentou dez vezes com a destruição das matas ciliares do planalto, no norte de Mato Grosso do Sul.

Recentemente, mais um capítulo da tragédia anunciada: o arrombamento da margem esquerda, no Corixão, um dos quatro veios de vazantes da localidade. As águas do Taquari invadiram dezenas de fazenda de gado na região de Nhecolândia, no Pantanal. O cenário é ainda mais assustador ao avaliar que isso ocorreu em período de poucas chuvas e persiste mesmo passado o pico das águas.

Não é de hoje que o Correio do Estado alerta para as consequências dos danos na região do Rio Taquari. Permanentemente, foram perdidos 1,5 milhão de hectares na sub-região do Paiaguás (nordeste de Corumbá) nos últimos 40 anos.  Mais recentemente, no dia 2 de agosto, reportagem especial evidenciava o arrombamento da margem na margem esquerda. Pesquisadores da Embrapa Pantanal dizem que o rio avança para região da Nhecolândia e a destruição será inevitável.

O isolamento já chega às áreas e, atualmente, só é possível vislumbrar o que aconteceu em sobrevoos. As águas engoliram propriedades rurais e bancos de areia  em trechos  impedem a passagem de embarcações,  utilizadas no envio de mantimentos. Produtores, assustados, pediram a intervenção do governo estadual e do Ministério Público Federal para minimizar os danos, como drenagem do leito, recuperação e reflorestamento das margens. No último fim de semana, fazendeiros aproveitaram a presença do governador Reinaldo Azambuja em Corumbá para discutir o assunto e novo debate está sendo agendado com MPF.

Apesar do grave dano ambiental e dos vários debates, nenhuma intervenção prática foi executada nas últimas décadas para conter o assoreamento no Rio Taquari. As ações judiciais arrastam-se sem que medida efetiva seja tomada. Em 2006, o governo federal chegou a criar comissão interministerial para elaborar projeto de recuperação do Rio Taquari. Seriam 31 ações, orçadas em R$ 50 milhões, mas a proposta foi engavetada e nada foi feito. Em 2013, a Justiça Federal de Coxim condenou Estado e União e determinou o bloqueio de R$ 6 milhões dos governos federal e estadual até que medidas sejam tomadas. A ação protocolada pelo MPF foi fundamentada pela “inércia do poder público diante dos gravíssimos danos ambientais”. Por enquanto, nada de concreto.

Enquanto isso, sem vazão adequada, as águas tomam conta das áreas da Nhecolândia. Parte da economia no setor agropecuário está comprometida com a perda de centenas de cabeça de gado. Produtores viram suas propriedades submergirem  e anos de trabalho e investimentos se perderem. O alerta não é somente para o governo sul-mato-grossense, mas para o País: o sistemático avanço do homem, sem planejamento comprometeu, para sempre, uma dos mais importantes ecossistemas do mundo. E não foi por falta de aviso.

EDITORIAL

Uma âncora em tempos de incerteza

O acordo entre Mercosul e União Europeia aponta uma direção: mesmo em um mundo mais instável, a cooperação econômica ainda pode ser um caminho

06/03/2026 07h15

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O mundo atravessa um momento de inflexão. A globalização que marcou as últimas décadas, baseada em cadeias produtivas integradas e relativa estabilidade geopolítica, já não parece tão sólida quanto antes.

Conflitos armados voltam a ganhar espaço Fna cena internacional e rivalidades estratégicas entre grandes potências passam a influenciar diretamente a economia global.

O confronto recente envolvendo os Estados Unidos e o Irã no Oriente Médio é apenas um dos sinais dessa nova realidade. Somam-se a ele as tensões comerciais persistentes entre os Estados Unidos e a China, que vêm reorganizando fluxos de comércio e investimentos ao redor do planeta.

Nesse cenário, cresce a percepção de que o mundo caminha para uma fase mais fragmentada, em que interesses nacionais e disputas estratégicas tendem a se sobrepor às dinâmicas de cooperação econômica que prevaleceram por décadas.

É justamente em períodos como este que os acordos comerciais amplos e estruturantes se tornam ainda mais relevantes. Eles funcionam como âncoras de previsibilidade em um ambiente internacional cada vez mais volátil.

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia se insere exatamente nessa lógica. Mais do que um instrumento para ampliar trocas comerciais, ele representa um compromisso de longo prazo entre dois grandes blocos econômicos.

Ao estabelecer regras claras, reduzir barreiras e criar um ambiente mais estável para o comércio, o tratado fortalece laços que podem passar por períodos de turbulência global.

Não se trata apenas de abrir mercados. Trata-se de consolidar uma relação econômica estratégica entre regiões que compartilham valores institucionais importantes, como a previsibilidade jurídica e o respeito às normas internacionais. Em tempos de instabilidade, esse tipo de parceria ganha peso ainda maior.

Para o Brasil, e particularmente para os estados com forte vocação exportadora, o acordo surge como uma oportunidade relevante de expansão econômica. Mato Grosso do Sul é um exemplo claro dessa perspectiva.

Com uma base produtiva consolidada no agronegócio e uma indústria em processo de fortalecimento, o Estado reúne condições para ampliar sua presença em mercados exigentes e de alto valor agregado.

Ao mesmo tempo, a aproximação econômica com a Europa também pode favorecer investimentos, transferência de tecnologia e modernização industrial – fatores essenciais para sustentar ciclos de crescimento mais duradouros.

Nada disso elimina os desafios que ainda cercam o cenário internacional. A volatilidade nos preços de energia, as incertezas em cadeias de suprimento e os riscos geopolíticos continuam presentes.

No entanto, justamente por causa dessas incertezas, iniciativas que ampliem parcerias econômicas e reforcem a integração entre mercados tornam-se ainda mais valiosas.

O acordo entre Mercosul e União Europeia não resolve todos os dilemas do comércio global contemporâneo. Mas aponta uma direção importante: mesmo em um mundo mais instável, a cooperação econômica ainda pode ser um caminho para gerar prosperidade.

E, diante das turbulências que se desenham no horizonte internacional, essa pode ser uma das decisões mais acertadas para o futuro econômico da região.

ARTIGOS

O efeito colateral do mercado paralelo na guerra contra a obesidade

Anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados inéditos

05/03/2026 07h45

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Depois de décadas de inércia, a medicina finalmente começa a oferecer respostas mais consistentes para uma das doenças crônicas mais prevalentes do planeta: a obesidade.

Foram anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados inéditos. Hoje, fala-se em perdas de 15% até 25% do peso corporal com fármacos aprovados.

A expectativa agora se volta para a retatrutida, triplo agonista ainda em estudo que, em fases clínicas, mostrou perdas de até 30% do peso corporal, superiores às da tirzepatida, comercializada como mounjaro. Mas há um detalhe essencial: a retatrutida ainda não foi aprovada em nenhum país.

Ainda assim, surgiu a notícia de que a empresa Éticos, conhecida por já ter produzido medicamentos proibidos no Brasil, anunciou o lançamento de uma suposta retatrutida com o nome comercial ReduFast.

Pouco depois, a Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria informou que não concedeu aprovação oficial para o produto nem mesmo no Paraguai.

É aqui que mora o verdadeiro perigo.

Já conhecemos os danos do mercado paralelo das chamadas “canetas emagrecedoras”: produtos sem rastreabilidade, sem garantia de armazenamento adequado e sem comprovação da composição. Há relatos de efeitos adversos graves, contaminações e substâncias diferentes das prometidas, um risco sanitário evidente.

Mas existe um efeito colateral ainda mais perverso: a difamação do tratamento da obesidade.

Quando alguém usa um produto clandestino, sofre um efeito adverso e associa o problema à “caneta para emagrecer”, não é apenas aquele produto que perde credibilidade. É toda a classe terapêutica. É a ciência. É o tratamento desenvolvido dentro das regras. É o paciente que passa a ouvir: “Viu? Essas injeções fazem mal”.

A obesidade já carrega estigma suficiente e ainda é tratada como falha moral ou falta de força de vontade.

Trata-se, porém, de uma doença crônica, complexa e multifatorial, associada a maior risco de infarto, acidente vascular cerebral e diversos tipos de câncer. Negar tratamento adequado é perpetuar sofrimento e custos humanos e econômicos.

Se permitirmos que o mercado paralelo avance antes da eventual aprovação oficial da retatrutida, o cenário é previsível: produtos de origem duvidosa, eventos adversos graves, manchetes alarmistas e uma população cada vez mais desconfiada. O medo se espalha. O preconceito se reforça. E quem realmente precisa do tratamento fica sem acesso, seja por receio, seja por restrição futura mais rígida.

É urgente conscientizar a população sobre a importância de respeitar os trâmites oficiais e reforçar a vigilância sanitária e o controle de fronteiras para evitar a entrada de produtos não aprovados que exploram a esperança de quem luta contra a obesidade.

Quando o atalho vira regra, a conta chega, não apenas em efeitos colaterais físicos, mas em descrédito social. O risco maior não é a molécula em si, e sim transformar uma das maiores conquistas recentes da medicina em mais um capítulo de desinformação e medo.

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