Artigos e Opinião

EDITORIAL

Educação que faz a diferença

Os prefeitos, responsáveis pelo Ensino Fundamental, deveriam olhar para esses números com atenção. Mais do que rankings, eles representam o futuro das crianças

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Os números do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgados e detalhados nesta edição, oferecem mais do que um retrato da qualidade do ensino em Mato Grosso do Sul. Eles revelam, sobretudo, que bons resultados não acontecem por acaso.

São consequência de planejamento, continuidade administrativa, gestão profissional e compromisso com uma política pública que produz efeitos apenas em médio e longo prazo. A educação talvez seja a área em que mais se colhe exatamente aquilo que foi semeado anos antes.

No caso do Estado, os dados chamam a atenção por um contraste evidente.

Enquanto o Ensino Médio, cuja responsabilidade é majoritariamente do governo do Estado, apresenta evolução nos indicadores, o Ensino Fundamental, administrado principalmente pelos municípios, continua registrando desempenho entre os piores do País.

A diferença sugere que o problema não está na capacidade dos estudantes nem na realidade socioeconômica do Estado, mas na forma como a educação vem sendo conduzida em cada esfera de governo.

É claro que cada município possui os seus desafios e diferentes capacidades financeiras. Ainda assim, o Ideb demonstra que gestão faz a diferença. O Estado tem investido em metas, acompanhamento de resultados, valorização da rede e planejamento.

Não significa que tudo esteja resolvido, mas evidencia que profissionalismo na administração pública produz avanços concretos. O mesmo compromisso precisa chegar às redes municipais, responsáveis justamente pela etapa mais decisiva da formação de crianças e adolescentes.

Investir em educação nunca deve ser encarado como despesa. Se trata do investimento de maior retorno social e econômico que um governo pode realizar.

Uma população mais escolarizada reúne melhores condições para inovar, aumentar a produtividade, atrair empresas, gerar empregos qualificados e fortalecer a economia. Cidades que oferecem educação de qualidade se tornam mais competitivas e ampliam suas oportunidades de desenvolvimento.

Os benefícios, entretanto, vão muito além da economia. A educação transforma vidas individuais ao ampliar horizontes e criar oportunidades, mas também modifica o ambiente coletivo.

Pessoas mais instruídas tendem a cuidar melhor da própria saúde, adotar hábitos mais saudáveis, compreender a importância da prevenção de doenças, buscar informações em fontes confiáveis e participar de forma mais consciente da vida pública.

Por isso, não há política pública mais estratégica do que garantir uma educação básica de qualidade. Os resultados não aparecem de um mandato para outro, mas são permanentes quando construídos com seriedade.

Os prefeitos, responsáveis pela maior parte do Ensino Fundamental, deveriam olhar para esses números com atenção. Mais do que rankings, eles representam o futuro de milhares de crianças.

Investir em gestão, estabelecer metas, acompanhar indicadores e cobrar resultados não é uma opção, mas uma obrigação de quem administra recursos públicos. Mato Grosso do Sul já demonstra, no Ensino Médio, que é possível avançar.

Agora é preciso fazer com que essa evolução comece também nas salas de aula administradas pelos municípios. Afinal, nenhum projeto de desenvolvimento será duradouro se não tiver a educação como seu principal alicerce.

Editorial

Buracos nas ruas: solução à vista?

Ruas deterioradas não são um inconveniente inevitável. Trata-se de uma falha na prestação de um serviço público essencial, que afeta milhares de pessoas

17/10/2026 07h10

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A abertura, na segunda-feira, da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de Campo Grande para investigar a operação tapa-buraco é uma oportunidade para esclarecer responsabilidades e cobrar soluções.

Não é admissível que uma cidade com a capacidade econômica da Capital conviva com ruas tomadas por buracos, que comprometem a segurança, elevam os custos de manutenção dos veículos e prejudicam a mobilidade.

A situação é ainda mais grave porque, há poucos meses, o proprietário da empresa responsável pela manutenção das vias foi preso sob suspeita de corrupção, assim como o ex-titular da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos.

O caso exige explicações sobre os contratos, a fiscalização dos serviços e o destino dos recursos públicos destinados à conservação viária.

Cabe aos vereadores investigar possíveis irregularidades e identificar responsabilidades, respeitando o devido processo legal. O dinheiro público precisa ser aplicado com eficiência, e os contratos firmados pela administração devem produzir resultados compatíveis com os valores pagos.

Seria um erro, porém, limitar o trabalho da comissão à identificação de culpados. A apuração é indispensável, mas a população não pode continuar esperando por ruas em condições adequadas.

Mesmo que os agentes públicos e os empresários venham a ser responsabilizados, isso não tapa os buracos nem resolve os problemas acumulados nos bairros.

Também preocupa a passividade com que parte da sociedade parece aceitar a precariedade do serviço. Ruas deterioradas não são um inconveniente inevitável. Trata-se de uma falha na prestação de um serviço público essencial, que afeta milhares de pessoas e exige fiscalização permanente.

Não basta anunciar operações tapa-buraco ou realizar intervenções pontuais que perdem eficácia com as primeiras chuvas. A manutenção viária precisa seguir critérios técnicos, priorizar as regiões mais prejudicadas e apresentar resultados que possam ser medidos e fiscalizados.

Espera-se que a CPI não termine apenas com um relatório de responsabilidades, mas ajude a mudar essa realidade. A Prefeitura de Campo Grande precisa apresentar um plano estruturado de recuperação das vias, com prioridades definidas, cronograma, recursos previstos e mecanismos de acompanhamento.

Investigar irregularidades é uma obrigação. Evitar que se repitam e garantir um serviço de qualidade também. O sucesso da CPI não deve ser medido apenas pelo número de culpados identificados, mas pela capacidade de transformar as suas conclusões em providências concretas. Campo Grande precisa de respostas e, sobretudo, de ruas em condições dignas de uma capital.

Artigo

Maioridade penal: a pergunta errada

No Brasil, o adolescente responde por seus atos a partir dos 12 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), prevê medidas que vão da advertência à internação

16/10/2026 07h20

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A redução da maioridade penal voltou ao centro da política neste ano. Em junho, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou, por 44 a 18 votos, a proposta que baixa de 18 anos para 16 anos a idade a partir da qual alguém responde como adulto. Em agosto, foi instalada a comissão especial que analisa o texto. Para valer, a mudança ainda precisa de três quintos dos votos, em dois turnos, na Câmara e no Senado.

A indignação que move esse debate é legítima. Ninguém aceita ver uma família destruída e ouvir que o autor “não vai pagar por nada”. Só que essa frase não corresponde à lei.

No Brasil, o adolescente responde por seus atos a partir dos 12 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), prevê medidas que vão da advertência à internação, que é a perda da liberdade em unidade para jovens, por até três anos, com liberação obrigatória aos 21 anos. O que a Constituição impede é que ele seja julgado como adulto e mandado ao presídio comum.

A comparação com outros países costuma ser feita pela metade. Alemanha e Espanha começam a responsabilizar adolescentes aos 14 anos (mais tarde que o Brasil) e sempre numa justiça juvenil especializada. Na Alemanha, o juiz pode aplicar a lei juvenil para jovens de até 20 anos, conforme a maturidade.

A Argentina baixou a idade de 16 anos para 14 anos em fevereiro, mas criou um sistema separado para essa faixa etária, com a prisão como último recurso. Nenhum desses modelos coloca um garoto de 16 anos na cela de um adulto.

Esse é o centro da minha preocupação. Das cerca de 960 mil pessoas que cumprem pena no Brasil, mais de 720 mil estão atrás das grades, em unidades superlotadas onde as facções recrutam com facilidade, oferecendo proteção em troca de lealdade.

O jovem que entra por um roubo pode sair como soldado do crime organizado, com a vida inteira pela frente.

Isso não quer dizer que o sistema atual funcione bem. Muitas unidades de internação estão lotadas, sem escola de verdade e sem acompanhamento depois da saída.

Há casos de crueldade extrema em que três anos parecem pouco, e esse ponto merece debate sério, inclusive sobre prazos maiores para crimes gravíssimos.

O caminho, porém, passa por fazer o ECA funcionar: internação que eduque, oficina que prepare para o trabalho, família por perto.

A pergunta que deveria nos ocupar é outra: o que fazer para que um menino de 16 anos não chegue aos 25 anos com uma ficha criminal extensa? A resposta está mais perto da escola e da família do que do presídio.

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