Artigos e Opinião

Editorial

Eficiência para salvar a Santa Casa

A Santa Casa precisa fazer as duas coisas, sem sacrificar quem trabalha na ponta e sem tolerar quem busca dinheiro fácil em cima da saúde dos outros

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Nesta edição, mostramos que um dos primeiros passos para sanear a gestão da Santa Casa de Campo Grande é reduzir a folha de pagamento do hospital. A medida faz sentido: uma folha elevada nem sempre significa maior produtividade. Esse foi um grande gargalo da instituição.

O ponto central, porém, é definir onde essa redução deve ocorrer. Não é razoável que o ajuste recaia sobre técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos da linha de frente. O mesmo vale para limpeza e manutenção, fundamentais ao funcionamento do hospital.

Cortar justamente desses setores seria produzir uma economia aparente, com potencial para comprometer a qualidade do atendimento. Um hospital não funciona sem ter quem cuide dos doentes, higienize ambientes, conserte equipamentos e mantenha a estrutura em condições de uso. São atividades indispensáveis.

A revisão da folha precisa mirar, portanto, estruturas administrativas pouco produtivas ou dispensáveis. Consultorias e determinados serviços de assessoria, por exemplo, precisam demonstrar resultado e necessidade. Em uma instituição com dificuldades financeiras, toda despesa deve ser justificada.

O mesmo rigor deve ser aplicado aos contratos de prestação de serviços. É necessário fazer um pente-fino em valores que estejam acima da média de mercado, verificar a qualidade do que é entregue e de eventuais conflitos de interesse. Cada real gasto pela Santa Casa é um recurso que poderia ser destinado ao atendimento de pacientes.

Essa necessidade de controle não é apenas contábil. No mês passado, integrantes da diretoria do hospital foram presos sob a suspeita de envolvimento em corrupção. As investigações devem seguir seu curso, com direito de defesa e devido processo legal, mas o episódio reforça a necessidade de fiscalização.

A Santa Casa precisa de moralidade e eficiência. Precisa também de coragem para enfrentar estruturas que consomem recursos sem entregar resultados. Em saúde, não há espaço para privilégios.

Sanear a Santa Casa não significa simplesmente gastar menos. Significa gastar melhor. Reduzir custos onde eles são necessários pode enfraquecer o hospital; eliminar desperdícios, contratos desvantajosos e estruturas pouco produtivas pode fortalecê-lo.

A direção precisa de respaldo para esse enfrentamento, mas deve prestar contas. A sociedade tem o direito de saber onde são aplicados os recursos do hospital.

Eficiência não pode ser medida apenas pela economia na folha, mas pela capacidade de transformar recursos em atendimento e resultados.

E moralidade significa garantir que o dinheiro destinado à saúde cumpra sua finalidade. A Santa Casa precisa fazer as duas coisas, sem sacrificar quem trabalha na ponta e sem tolerar quem busca dinheiro fácil em cima da saúde dos outros.

Artigo

É preciso devolver tempo à leitura

Entre 35 países da organização com resultados comparáveis, a média de leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) caiu 25 pontos entre 2018 e 2025: de 486 para 461 pontos

08/10/2026 08h15

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Nunca tivemos tanto acesso a textos e informações. Ainda assim, os resultados de proficiência em leitura vêm piorando consistentemente.

Os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) são um alerta. Entre 35 países da organização com resultados comparáveis, a média de leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) caiu 25 pontos entre 2018 e 2025: de 486 para 461 pontos.

No Brasil, o desempenho ficou praticamente estável em relação a 2022 e próximo do patamar observado desde 2015. Mas estabilidade está longe de ser motivo para conforto: em 2025, os estudantes brasileiros alcançaram 408 pontos, 53 abaixo da média da OCDE.

Nossa mente tende a buscar explicações simples. O problema seriam as telas? A pandemia? A escola? A família? A inteligência artificial? Provavelmente há vários fenômenos sobrepostos. Identificar causas plausíveis é importante, mas isso, por si só, não resolve o problema.

Há uma pergunta mais incômoda: quanto tempo estamos reservando para que crianças e jovens leiam? E nós mesmos, adultos?

Não tempo para estudar para uma prova, ler o livro obrigatório do bimestre ou produzir um resumo. Tempo para curtir uma boa história, descobrir um autor, escolher o que ler. Formar um leitor exige prática. E prática exige tempo.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, ajuda a dimensionar a questão. Dos entrevistados, 53% não haviam lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores. Entre os leitores que gostariam de ter lido mais, 46% citaram a falta de tempo.

Esses dados não permitem concluir que a falta de tempo explique, isoladamente, a baixa leitura no Brasil. Mostram, porém, que tempo não é uma questão abstrata.

Devemos discutir também a relação da escola com os livros. Frequentemente, lê-se para responder, resumir ou ser avaliado. Tudo isso tem importância pedagógica. Mas, se toda leitura termina em uma tarefa, o livro corre o risco de virar apenas obrigação.

Nos colégios do Grupo Positivo, reservamos 20 minutos diários para leitura por prazer no Ensino Fundamental. O estudante tem tempo, estímulo e liberdade para escolher: pode começar por quadrinhos, descobrir um autor, interessar-se por um romance ou abandonar um livro que não o conquistou.

Não partimos da premissa de que 20 minutos produzirão, isoladamente, melhora nos indicadores acadêmicos. Esse efeito precisa ser medido. A ideia é simples: é inviável criar o hábito de fazer algo para o qual nunca reservamos tempo.

Esse trabalho também passa pela família. Pais e mães não precisam transformar a casa em sala de aula. Podem tornar a leitura visível. Ver os adultos lendo e ouvir conversas sobre livros mostra à criança que ler faz parte da vida. A responsabilidade não é apenas das famílias; escolas e bibliotecas continuam fundamentais.

Ler um texto longo também exige atenção: acompanhar um argumento, recuperar algo lido páginas atrás e continuar mesmo quando compreender exige esforço. Ler um livro é também aprender a não trocar de assunto a cada poucos segundos.

A inteligência artificial reforça essa necessidade. Quanto mais fácil se torna produzir respostas, mais importante é avaliá-las criticamente, comparar fontes e distinguir uma resposta convincente de uma informação confiável.

Vinte minutos não resolverão a queda da proficiência leitora. Não é essa a proposta. Antes de exigir que uma criança ou jovem leia melhor, precisamos garantir condições para que ela se torne leitora: livros ao alcance das mãos, estímulo para ler, alguma liberdade de escolha, adultos que tornem a leitura visível e tempo para abri-los.

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Como a história de um homem comum transformou a moda no Brasil

A trajetória do alfaiate Vittorio Ficara ilustra essa determinação. Italiano nascido no Egito, ele atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil, estabelecendo-se no Rio de Janeiro

08/10/2026 07h20

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Progredir em uma profissão exige foco, empenho e conhecimento. No entanto, não é preciso ser famoso para conquistar reconhecimento. Quando exercido com propósito e dedicação, o trabalho vai além da geração de renda e torna-se uma ferramenta essencial para transformar realidades.

A trajetória do alfaiate Vittorio Ficara ilustra essa determinação. Italiano nascido no Egito, ele atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. É a história de um homem comum que revela como essa profissão pode contribuir para a construção de uma vida digna e para a definição de um lugar na sociedade. É uma história de vida, marcada por guerra, imigração, reconstrução e amor.

Sua caminhada teve como força principal a persistência, aliada à capacidade de enfrentar e superar situações das mais adversas, com uma habilidade laboral e inventiva extraordinária, movida por seu espírito otimista e resiliente, que o levou a enfrentar situações adversas e transformou dificuldades em possibilidade de recomeço.

Alfaiate exclusivamente masculino, Vittorio chegou ao Brasil sem referências, construiu sua trajetória até ingressar na então renomada Casa Canadá de Luxe, um estabelecimento de moda feminina, que ele ainda não conhecia.

Seu preparo técnico, aprendido e praticado no Egito, foi decisivo para esta conquista e lhe permitiu não só ingressar no estabelecimento, onde atuou na modelagem feminina, como também compartilhou seu conhecimento com a equipe, formando novos profissionais.

Com certeza, seu perfeccionismo e sua dedicação contribuíram para o desenvolvimento técnico e profissional da costura.

A trajetória de Vittorio não é apenas uma narrativa. Vai além de uma história pessoal. Ela preserva um legado, marcado por passagens históricas, sociais e emocionais do século 20, que transformam a sua caminhada em testemunho e memória a serem transmitidos.

Mas, principalmente, a sua experiência mostra a importância da profissão no Brasil e deixa uma mensagem para quem enfrenta períodos de incertezas: é preciso continuar em frente, mesmo diante das dificuldades.

Como ele dizia: “Um dos segredos para sobreviver é ter a habilidade de continuar e não de se sentir um náufrago. Sempre há uma saída”.

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