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Envelhecer não é fracassar

Diferenças de classe, gênero, raça e orientação sexual atravessam a maneira como cada pessoa vivencia o tempo e projeta o futuro

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É paradoxal falar sobre o medo de envelhecer entre os jovens, porque a juventude é um período da vida associado às possibilidades, às descobertas e aos novos caminhos.

Entretanto, não é um período livre de inseguranças e ansiedades, porque nele o tempo também está passando e, diante da finitude cada vez mais evidente, surge a pergunta sobre se ainda haverá tempo para cumprir tudo aquilo que se esperava.

Bom, é preciso deixar claro que não é possível falar de todos os jovens como se eles compartilhassem a mesma experiência.

Diferenças de classe, gênero, raça e orientação sexual atravessam a maneira como cada pessoa vivencia o tempo e projeta o futuro.

Ainda assim, existe um elemento que parece atravessar muitas dessas experiências: a ansiedade diante da sensação de estar atrasado em relação à própria vida. 

Aos 30 anos, essa cobrança pode ganhar uma dimensão ainda maior. A idade se tornou um marco simbólico em uma sociedade que parece estabelecer um cronograma para a vida.

Há a ideia de que, aos 30 anos, é preciso ter concluído a graduação, consolidado uma carreira, conquistado independência financeira, construído um relacionamento estável, adquirido uma casa, viajado e, de preferência, mantido um corpo saudável e uma aparência jovem.

As redes sociais intensificam essa fantasia ao apresentar vidas aparentemente bem-sucedidas e sempre interessantes. O problema é que esse roteiro não considera as condições concretas em que a vida acontece.

Nos últimos anos, o custo da moradia aumentou e as relações de trabalho foram precarizadas, tornando a estabilidade financeira um objetivo difícil para muitas pessoas. Mesmo assim, questões estruturais são frequentemente apresentadas como falhas individuais.

O jovem que continua morando com os pais pode se sentir incapaz, quando essa escolha ou necessidade também pode estar relacionada às condições econômicas.

A pessoa que não alcançou estabilidade profissional pode acreditar que não se esforçou o suficiente, ainda que esteja inserida em um mercado cada vez mais inseguro.

É nesse ponto que precisamos questionar a ideia de sucesso que construímos. Em uma sociedade orientada pela produtividade, somos incentivados – ou forçados – a trabalhar mais, consumir mais, desenvolver novas habilidades, cuidar do corpo, melhorar nossa aparência e transformar cada experiência em uma espécie de conquista.

Até o descanso foi incorporado à lógica do produtivismo e do desempenho, porque costumamos descansar para produzir melhor.

A juventude, nesse contexto, deixa de ser apenas uma etapa importante da vida e passa a funcionar como um tipo de capital. Energia, disposição, beleza e disponibilidade de tempo ganham valor de mercado. Envelhecer, então, passa a ser associado à perda de valor.

Mas é necessário questionar a quem interessa essa desvalorização e o que ela revela sobre a sociedade contemporânea.

Editorial

Campo Grande e as soluções simples

No aniversário de Campo Grande, o Correio do Estado escolheu presentear a cidade e sua população com algo que não ocupa espaço no orçamento público: ideias

26/08/2026 07h10

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Campo Grande chega aos 127 anos diante de um desafio que não é exclusivo da Capital, mas que se manifesta de maneira cada vez mais evidente no cotidiano de seus moradores: o orçamento público está engessado. A constatação não é nova e se repete Brasil afora. Há demandas demais e recursos de menos, enquanto uma parcela significativa do dinheiro disponível já nasce comprometida com despesas obrigatórias.

Quando se pensa em soluções para os problemas urbanos, a primeira reação costuma ser imaginar grandes obras, intervenções complexas, projetos sofisticados e investimentos milionários. Em muitos casos, tudo isso é, de fato, necessário. Uma cidade que cresce precisa de infraestrutura compatível com seu desenvolvimento.

Mas também é preciso reconhecer que não há recursos suficientes para resolver todos os problemas dessa maneira – e esperar por grandes obras para tudo significa, muitas vezes, esperar indefinidamente.

É justamente diante dessa realidade que boas ideias ganham valor. Uma solução simples, quando bem pensada e corretamente aplicada, pode produzir efeitos muito maiores do que seu custo faria imaginar. 

É com esse espírito que o Correio do Estado preparou, no aniversário de Campo Grande, um especial dedicado a pensar a cidade a partir de alternativas possíveis. Consultamos urbanistas do naipe de Ângelo

Arruda e Fernando Madeira para identificar soluções simples e mais em conta para problemas complexos do cotidiano. São propostas que não dependem necessariamente de grandes volumes de dinheiro e que, justamente por isso, podem ser colocadas em prática com mais rapidez.

A ideia não é vender a ilusão de que soluções baratas podem substituir investimentos estruturais. Não podem. Campo Grande continuará precisando de obras de infraestrutura, mobilidade, drenagem, saneamento e outras intervenções de maior porte.

O que o especial procura mostrar é que existe um espaço importante entre não fazer nada e gastar milhões: o espaço da inteligência, do planejamento e da criatividade.
Também mostramos mudanças de comportamento e bons exemplos que já estão ao alcance da cidade.

Mobilidade, saneamento e tecnologia são áreas nas quais pequenas transformações podem produzir impactos significativos.

Uma cidade melhor não depende apenas do poder público. Depende também de cidadãos dispostos a rever hábitos, empresas capazes de inovar e iniciativas que demonstrem, na prática, que é possível fazer diferente.

E há ainda uma Campo Grande que surpreende até quem vive aqui. O especial revela, por exemplo, a existência de fábricas sofisticadas, capazes de produzir aparelhos de radioterapia.

É um retrato de uma cidade que, além de enfrentar problemas cotidianos, também desenvolve conhecimento, tecnologia e soluções de alta complexidade. Muitas vezes, falta apenas conhecermos melhor aquilo que já somos capazes de fazer.

No aniversário de Campo Grande, o Correio do Estado escolheu presentear a cidade e sua população com algo que não ocupa espaço no orçamento público: ideias. Porque, diante de recursos limitados e necessidades crescentes, pensar melhor talvez seja uma das formas mais eficientes de transformar a cidade.

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A sala escura e o ritual da presença: por que a infância precisa do cinema como destino

Em um tempo em que quase tudo é entregue de forma imediata e passiva no vidro frio das pequenas telas

24/08/2026 07h20

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Existe algo profundamente transformador no ato deliberado de sair de casa para ver um filme. Não se trata apenas de apertar um botão no controle remoto no intervalo entre uma tarefa e outra, mas de um movimento intencional. Escolher a sessão, fazer o trajeto, atravessar a cidade e atravessar, também, o portal daquela sala.

Em um tempo em que quase tudo é entregue de forma imediata e passiva no vidro frio das pequenas telas, ir ao cinema exige o esforço bonito do deslocamento. E é justamente nesse gesto de sair do lugar que o valor verdadeiro da experiência se consolida. 

Sair de casa para ir ao cinema ensina a infância sobre intenção e presença. O trajeto até lá cria um compasso de espera que prepara o olhar, uma transição necessária entre a rotina e o encanto. Ao cruzar o limiar da sala escura, a criança desacelera por completo.

Ela deixa do lado de fora as distrações do ambiente doméstico, os estímulos simultâneos e o consumo fragmentado de vídeos rápidos.

A penumbra da sala e o silêncio compartilhado antes da projeção não são meras convenções sociais, mas, sim, uma moldura poética que dignifica a imagem.

Ali, a narrativa deixa de ser um ruído de fundo no sofá e ganha corpo de acontecimento, pedindo a atenção inteira. 

Para além do impacto individual, o cinema físico proporciona uma das primeiras e mais bonitas experiências de comunidade na vida de uma criança.

Sentar na escuridão ao lado de dezenas de estranhos e sentir o mesmo baque no peito, rir da mesma piada ou prender a respiração no mesmo segundo ensina uma lição silenciosa e potente: a de que nossos afetos, medos e descobertas não acontecem no isolamento.

O cinema de rua ou de shopping tira a arte da bolha individual e a devolve para o território vivo do encontro, em que a emoção se multiplica ao ser compartilhada com o outro. 

A grande tela também opera como um catálogo de alteridade. Ao habitar histórias que ultrapassam o seu horizonte geográfico e cultural imediato, a criança aprende a enxergar por meio de olhos que não são os seus.

Esse exercício constante de imaginação expande os limites do mundo interno dos pequenos, ensinando que a vida pode ser contada e vivida de infinitas formas.

O cinema ensina que todo conflito traz consigo a possibilidade de uma narrativa, oferecendo contornos visíveis para sentimentos abstratos que as crianças, muitas vezes, ainda não sabem nomear. 

Cultivar o afeto pela arte desde os primeiros anos de vida não é sobre acumular repertório acadêmico ou técnico, mas sobre ensinar a criança a se encantar com o mundo. O hábito de se mover até a grande tela forma olhares mais atentos, sensíveis e capazes de sustentar o tempo da contemplação.

Ensinar uma criança a amar o cinema é, em última análise, lembrá-la de que as coisas mais bonitas da existência exigem movimento, presença e a coragem de sentar no escuro para ver o mundo acender de novo. 

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