Artigos e Opinião

EDITORIAL

Fraude fiscal também exige reação local

A fraude tributária deixou de ser apenas um problema arrecadatório para se transformar em instrumento de financiamento e fortalecimento de organizações criminosas

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Nesta edição, o Correio do Estado revela que duas distribuidoras de combustíveis sediadas em Mato Grosso do Sul acumulam quase R$ 5 bilhões em dívidas com o Fisco federal. Mais do que o tamanho do passivo tributário, chama atenção o contexto em que uma dessas empresas aparece.

Ela é investigada pela Polícia Federal no âmbito da Operação Carbono Oculto, uma das mais relevantes investigações dos últimos anos sobre fraude tributária, lavagem de dinheiro e supostos vínculos com o crime organizado.

Os fatos expõem um problema que ultrapassa a esfera da arrecadação e alcança a segurança pública e a defesa da economia formal.

O combate a esquemas dessa natureza é, evidentemente, atribuição das autoridades federais. Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público têm conduzido investigações complexas, que apontam para uma sofisticada estrutura destinada a fraudar tributos, ocultar patrimônio e movimentar bilhões de reais.

O alcance dessas apurações demonstra que o enfrentamento ao crime econômico exige cooperação entre diversas instituições.

Mas isso não significa que os órgãos estaduais possam assumir uma posição meramente contemplativa. Ao contrário. Se empresas investigadas por integrar esquemas dessa dimensão escolheram Mato Grosso do Sul para instalar suas sedes, ainda que apenas formalmente, é razoável perguntar por quê.

O que tornou o Estado um endereço atrativo para essas operações? Houve falhas de fiscalização? Existiram brechas administrativas exploradas por organizações criminosas? Essas perguntas precisam ser respondidas.

O caso de Iguatemi é emblemático. Um município de pequeno porte abriga empresas que acumulam dívidas bilionárias com a União e que, segundo as investigações, teriam movimentado operações incompatíveis com a realidade econômica local.

É difícil acreditar que um fenômeno dessa magnitude não mereça também um olhar atento das instituições estaduais responsáveis pela inteligência fiscal e pelo combate ao crime organizado.

A Secretaria de Estado de Fazenda dispõe de mecanismos de fiscalização e análise de movimentações tributárias. As forças policiais estaduais contam com estruturas de inteligência voltadas justamente para identificar organizações criminosas e rastrear atividades econômicas suspeitas.

A Operação Carbono Oculto revela uma realidade preocupante. A fraude tributária deixou de ser apenas um problema arrecadatório para se transformar em instrumento de financiamento e fortalecimento de organizações criminosas.

Empresas de fachada, emissão de documentos fiscais, lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial compõem um modelo sofisticado que prejudica os cofres públicos, desequilibra a concorrência e fortalece redes criminosas.

Mato Grosso do Sul não pode se limitar a assistir às investigações federais. Se parte dessa engrenagem passou por seu território, cabe às autoridades locais colaborar ativamente para identificar responsabilidades, fechar eventuais brechas e impedir que novas estruturas semelhantes se instalem.

O combate à fraude fiscal não é apenas uma questão de arrecadação. É uma política de proteção à economia, às empresas que cumprem a lei e à própria segurança pública.

ARTIGOS

Como o El Niño e as barreiras protecionistas interferem na pecuária moderna

Intensificar a expansão sem o suporte de uma gestão financeira cirúrgica é o caminho mais rápido para o prejuízo na pecuária

09/09/2026 07h25

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Estamos prestes a iniciar uma das estações de monta mais desafiadoras da nossa história. O pecuarista que encarar esse momento apenas como mais um ciclo reprodutivo corre o risco de ver sua margem operacional evaporar nos próximos dois anos.

Em Mato Grosso do Sul, a pecuária tem sofrido forte pressão de outras culturas: a rápida expansão da soja, das florestas plantadas e da citricultura reduz as áreas de pastagens disponíveis, forçando-nos a intensificar cada vez mais a produção.

Porém, intensificar sem o suporte de uma gestão financeira cirúrgica é o caminho mais rápido para o prejuízo.

Para enfrentar esse cenário complexo, agravado pelas previsões de calor severo e chuvas irregulares ocasionados pelo El Niño, apresentamos três quebras de paradigma imprescindíveis para o sucesso da safra 2026/2027:

Primeiramente, a matriz vazia não é necessariamente apenas um indicativo de falha reprodutiva, lembre-se que ela é uma importante fonte de receita para o criador de bezerros.

Tradicionalmente, o produtor hesita em descartar fêmeas falhas, carregando-as na esperança de um resultado tardio. Mas a matemática é implacável, matrizes vazias inflam a taxa de lotação da fazenda, porém não ajudam a pagar as contas.

Diante de pastagens castigadas pelo estresse térmico e pela degradação hídrica do El Niño, manter essa “máquina” improdutiva consumindo recursos é insustentável.

O descarte  dessas fêmeas vazias ao fim da estação de monta deve ser inegociável, trata-se de uma estratégia para gerar receita e aliviar os pastos na seca para priorizar os animais produtivos.

Em segundo vem a “guerra silenciosa” por áreas e a armadilha inflacionária do milho.  Disputamos por áreas produtivas diretamente com a agricultura e a silvicultura. Com menos espaço para a pecuária, a resposta óbvia tem sido a transição para sistemas que adotam semiconfinamento e confinamento.

Mas surge aí uma nova competição por outro recurso: o milho. A consolidação de gigantes usinas de etanol de milho no Estado estabeleceu uma demanda contínua que inflaciona o grão. Antes de confinar, o produtor deve priorizar a produção de arrobas em pastagem.

A arroba mais barata continua sendo aquela produzida a pasto.

E em terceiro, a estação de monta como uma “máquina do tempo” para o mercado de 2028. O cerco internacional se fechou. A União Europeia barrou as importações de animais que tenham consumido antimicrobianos (promotores de crescimento químicos).

Paralelamente, as cotas da China para a carne brasileira foram atingidas e o excedente será taxado em mais 55%. No bolso do produtor, a suspensão do bônus Hilton representa uma perda direta de aproximadamente R$ 6,00 por arroba do animal abatido.

Como o MS tem seu foco na produção de animais precoces e superprecoces, abatidos entre 18 meses e 24 meses, as decisões sobre o protocolo sanitário e nutricional do bezerro concebido hoje definirão a liquidez dessa safra em 2028.

Planejar o fluxo de caixa, determinar o custo real de cada arroba produzida e antecipar-se às barreiras comerciais não são mais opcionais: são condições imprescindíveis para maximizar o resultado da operação pecuária.

EDITORIAL

Caos que não pode ser normalizado

É lamentável que um hospital tão importante para Campo Grande e Mato Grosso do Sul esteja permanentemente envolvido em problemas financeiros

09/09/2026 07h15

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Nesta edição, mais uma vez, mostramos o caos financeiro da Santa Casa de Campo Grande e suas implicações. E elas têm se agravado somadas à má gestão financeira do hospital.

Não há mais como aceitar a justificativa de que a Santa Casa é um hospital de “portas abertas” e que, por isso, os recursos públicos repassados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nunca são suficientes para equilibrar as contas.

É evidente que pode haver insuficiência de recursos para manter uma estrutura desse porte, mas a falta de dinheiro não pode servir como explicação permanente para um cenário de desorganização financeira. Talvez faltem recursos, mas não ao ponto de justificar o caos atual.

Quando uma instituição recebe recursos públicos em valores expressivos, a sociedade tem o direito de saber como esse dinheiro é utilizado. E é justamente aí que está um dos maiores problemas da Santa Casa: falta transparência.

As contas e os contratos de terceirização não permitem compreender com clareza onde estão os custos. É preciso saber se não há situações injustas, com muita gente produzindo pouco enquanto recebe muito dinheiro.

Não se trata de acusar ninguém sem provas, mas de exigir que os números permitam afastar dúvidas. A falta de transparência abre espaço para questionamentos sobre a eficiência dos contratos e da estrutura administrativa da Santa Casa de Campo Grande. Uma gestão responsável deveria esclarecer essas questões.

Também chama atenção o peso dos juros pagos mensalmente pela instituição. São milhões de reais que deixam de ser destinados à atividade hospitalar para remunerar dívidas acumuladas. Em algum momento, é preciso atacar as causas do problema.

A Santa Casa também poderia ter mais capacidade de gerar caixa e depender menos dos repasses do SUS. Isso exigiria planejamento e revisão de despesas, processos e contratos. Aparentemente, não há um trabalho consistente nessa direção.

É lamentável que um hospital tão importante para Campo Grande e Mato Grosso do Sul esteja permanentemente envolvido em problemas financeiros. Parte dessas dificuldades pode decorrer não apenas da falta de recursos, mas também de uma gestão que não demonstra eficiência e transparência.

A Santa Casa de Campo Grande precisa de recursos, mas precisa também de gestão. Precisa do Sistema Único de Saúde, mas deve buscar reduzir sua dependência.

E precisa, principalmente, abrir suas contas para distinguir aquilo que é efetivamente falta de dinheiro daquilo que pode ser consequência de decisões administrativas equivocadas. Sem isso, o problema continuará sendo empurrado para o futuro, enquanto a conta ficará para a sociedade.

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