Artigos e Opinião

OPINIÃO

Gilberto Verardo: "A construção social da enfermidade"

Psicólogo

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Falar em sintoma ou patologia virou um mantra herdado da medicina, a qual criou uma cultura da doença tendo como pano de fundo a presença mítica de uma figura de jaleco branco e óculos, que, com seu semblante bondoso e suave, se coloca como única opção para os aflitos em busca de cura para seus males corporais. No plano econômico da sobrevivência falar em déficit orçamentário, poupança, receita e despesa se tornou o pão nosso de cada dia, ocupando espaço relevante da mídia, resumindo a existência humana ao desejo de um dia tornar-se um banqueiro. Não um bancário. Junte-se a isso a sensação de insegurança que vai além de alarmes, sirenes e fardas, que, nos noticiários querendo exercer controle social, termina por inibir a liberdade de cada um analisar seu próprio risco num ambiente social controlado por regras burocráticas e comportamentais emanadas de instituições com descrédito progressivo, respaldado por uma mídia replicadora com perda de sua imparcialidade critica. Se colocarmos a vida cotidiana nos meios urbanos observaremos que o automóvel e suas implicações estratégicas e orçamentárias consomem boa parte dos orçamentos públicos e privados.  O mercado de cordialidades, com seu aspecto patogênico de mediação burocrática, restringe a opção de escolher caminhos próprios para garantir a posso de seu tempo e autonomia nos deveres, com seus direitos garantidos tendo que obedecer a cordialidade dos tramites vagarosos. Querer entretenimento pela TV é ter que aceitar goela abaixo um telemarketing embutido, onde tudo que oferece sustenta uma ideologia de consumo que termina sua propaganda nos oceanos infestados por lixo plástico, onde a regra é o descarte lucrativo. Dos templos tradicionais substituído por uma tela em HD emana doutrinações metafisicas e transcendentais dizimáticas de fazer corar um albino hereditário, oferecendo soluções mágicas para problemas criados no mesmo meio social que nutre sua ganancia pecuniária. Virou, as religiões, irmãs siamesas da cultura da doença espiritual. Parece uma volta à Idade Média, onde os abastados garantiam, sob pecúnia, seu ingresso no paraíso perdido.

Muitos não gostam do termo Patologia Social, especialmente os teóricos dóceis com o sistema capitalista, mas, por ora, não nos ocorre outro termo mais adequado para querer distinguir um meio saudável de um meio que gera incertezas e inseguranças de toda ordem. Nosso modelo social está doente e precisa de novos paradigmas para velhas dificuldades individuais e coletivas. Talvez assim as pulsões de morte cedam lugar às pulsões de vida, onde o desejo, o sonho, a utopia e a liberdade voltem a compor a expectativa de vida das pessoas de todos os hemisférios terráqueos.

 Pessoas se colocam à margem da sociedade como que querendo procurar um sentido de vida que se esgota silenciosamente. Outros se dopam para não enxergar a estranha e confusa realidade. Outros ainda adoecem o corpo como última fronteira do pacto social perdido. Talvez os mais intransigentes com as mudanças culturais que ainda não nasceram, optam, sem poder criar uma expectativa de vida renovada, cometem o suicídio físico ou emociona. Quanto ao nosso sistema político, não cabe a ele todo o ônus, já que é imagem e semelhança da realidade social.

Talvez a doença de agora não seja orgânica e nem psíquica mais, mas a doença da perda do sentido da vida, que tem a ver com a plausibilidade dos valores em torno dos quais o homem organiza a si mesmo.

Artigo

O futuro a quem pertence?

Mais sintomático que o povo nas ruas em legítimo ato de cidadania, é quando as pessoas se revoltam caladas nas casas, fábricas e universidades

29/05/2026 07h45

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“Hoje, as pessoas já não respeitam nada. Antes, colocávamos em um pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei. A corrupção campeia na vida destes dias. Quando não se obedece outra lei, a corrupção é a única lei. A corrupção está minando este país. A virtude, a honra e a lei se transformaram em fumaça e desapareceram de nossas vidas”.

As palavras acima são de Alphonse Gabriel Capone, o Al Capone, contrabandista e vendedor de bebidas durante a Lei Seca, nos Estados Unidos.

Também matou muitas pessoas. Foi preso por sonegação fiscal, dias depois da entrevista à revista Liberty, publicada em 17 de outubro de 1931.

Neste momento do Brasil, a reflexão do gângster gera questionamentos: O que busca o povo brasileiro quando vai às ruas em plena democracia? Que desejam jovens, adultos e idosos com diferentes mensagens, gritando antigas e novas palavras de ordem como nos tempos da ditadura?

Os brasileiros estão cansados de problemas crônicos: saúde, educação, desemprego e, em especial, a falta de ética na política. A roubalheira ao longo de décadas teve, no caso do Banco Master, a gota d’água.

Transbordou com a crise política, econômica, social e, acima de tudo, moral. Não há mais espaço para discurso vazio, promessa não cumprida, corrupção, desmando e incompetência. Muito menos para delatores ou não, criminosos que cometeram absurdos contra o povo.

Eles roubaram dinheiro que, se investido na saúde, teria salvado muita gente da morte em alguns surreais hospitais públicos de todo o País. Como Al Capone, ao falar de si mesmos, tentam nos enganar outra vez.

Posando como “heróis da Pátria”, com falso arrependimento prometem devolver o que roubaram e entregar comparsas. Não enganam ninguém. Queremos mudanças para valer, reformas estruturais que garantam inalienáveis direitos.

Mais sintomático que o povo nas ruas em legítimo ato de cidadania, é quando as pessoas se revoltam caladas nas casas, fábricas e universidades. A desesperança é muito perigosa.

Nestes tempos em que o povo retorna às ruas para exigir honestidade, lembro-me de um cidadão brasileiro, morto há 24 anos: Carlito Maia. Publicitário brilhante, jornalista irreverente, responsável agitador e o melhor amigo de qualquer um. Suave e forte. Apaixonado convicto, solidário e bem-humorado, integrou o seleto grupo dos “seres especiais em extinção”.

Carlito veio ao mundo a passeio, não em viagem de negócios – como dizia de si mesmo.

Foi o único sonhador realista que conheci. Transbordando ternura, mas também repleto de coragem, era capaz de derrubar montanhas para que elas não fossem a Maomé, só para o profeta não se acomodar. “Uma vida não é nada. Com coragem, pode ser muito”, dizia.

Em tempos bicudos, com tantas revelações de corrupção, imagino a decepção de Carlito. Ele preconizou muitas coisas que hoje estão acontecendo.

Sinto saudade de suas frases sábias, flores e cartões escritos com canetas bicolores, configurando sua comunicação criativa, lúcida e emocionada que faz refletir, querer e transformar.

Amado Carlito, você estava certo: “Nós não precisamos de muita coisa. Só precisamos uns dos outros”. Sem perder a esperança, mantendo a determinação de lutar por nossos direitos, defender verdade e justiça, podemos, com mais educação e cultura, mudar o Brasil pelo voto consciente e responsável.

A começar de uma escolha responsável de parlamentares, porque na prática eles exercem um poder executivo mesmo sob um regime presidencialista, e chegando à opção melhor para presidente.

Não podemos cair nas mãos sujas de quem, como sabemos, já mostrou em tristes quatro anos (2019-2023) que não respeita o Brasil, o seu povo.

E segue fazendo isso, como agora veio à tona, nos desdobramentos do vergonhoso caso do Banco Master.

“Acordem e progresso!”, disse o nosso Carlito Maia. Pensem nisso, porque voto é coisa séria. Pode ser uma ferramenta, pode ser uma arma.

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Artigo

Entre o 6 e o 9: quando a política atravessa relações

Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que ao escutar o outro se perca o rumo

29/05/2026 07h30

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A polarização política no Brasil é inegável. O País se vê dividido entre esquerda e direita, e essa cisão tem atravessado relações de forma profunda. Amizades antigas acabaram, famílias se desentenderam, casais se separaram. A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam e provocam um verdadeiro “curto-circuito” nas relações. 

Do ponto de vista psicológico, a polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que ao escutar o outro se perca o rumo.

Soma-se a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, o que torna o diálogo mais árduo. Logo, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, reage; em vez de perguntar, julga. 

Ainda assim, quando falamos de pessoas de boa índole, temos algo em comum: embora as ideias divirjam, muitos dos ideais se aproximam.

Há um desejo compartilhado por justiça, dignidade, liberdade e acesso aos direitos básicos como saúde, segurança e educação. 

É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, frente a frente, podem olhar para o mesmo símbolo e enxergar coisas diferentes: uma vê um 6, a outra um 9.

Ambas estão certas dentro de seus pontos de vista. Assim também ocorre com as ideias: diferentes interpretações podem emergir a partir de um mesmo ideal. 

Quando aproximamos essas visões, surge o número 69. Nesse encontro, não há disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementar.

Ou seja, duas perspectivas coexistindo e compondo algo maior quando colocadas, lado a lado, harmoniosamente. 

Talvez seja justamente essa a habilidade que falte ao Brasil, e a todos nós: a capacidade de transformar o embate em encontro. De lembrar que discordar não significa desarmonia.

De aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho. De trocar certezas rígidas por curiosidade genuína. 

Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos complexos, com uma diversidade de sentimentos que, se não bem administrados, podem gerar disputas e desavenças.

Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, de fato, o número é 96. Longe de ser um problema, é justamente entre integração e divergência que aparecem novos caminhos. 

O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. Afinal, é isso que ainda nos mantêm em diálogo. 

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