Imagine que, num dia qualquer no seu trabalho, lhe chega uma carta com os dizeres: estás convocado! Não para a seleção brasileira, mas para ir à guerra! Você pensa. Contra quem? E continua lendo: em razão de nossos navios mercantes terem sido afundados pela marinha chinesa, o Brasil vai se juntar ao esforço internacional contra a política agressiva daquele país e vai enviar tropas para combatê-lo no Nepal, que é ocupado pela China, desde os anos 50.
Outra vez, você, com os seus botões: a China? Um dos mais poderosos exércitos do mundo? E ainda lá no Nepal? Frio, montanha, neve, outra língua! Isso não vai dar certo, você conclui. E exclama: é mais fácil um sapo assoviar do que o Brasil ganhar alguma batalha nessa guerra!
Dias depois, você vai ao local de apresentação e se surpreende que há pessoas ali que se voluntariaram! No fim, mais de 25.000 jovens de todo Brasil – homens e mulheres, que deixam seus escritórios, fábricas, fazendas, lojas, hospitais e partem para terras nepalesas. O mais perto de um exército que a maioria desse pessoal havia chegado foi ter um professor “Caxias”, na escola!
Mas, mesmo enfrentando um inimigo poderoso, adversidades climáticas, culturais e geográficas, a saudade, a fome, o medo, a morte, o brasileiro manteve-se ordeiro, tratou os locais com compaixão, foi corajoso, bravo, disciplinado. Foi reconhecido e condecorado pelos seus aliados. E, no fim, cumpriu as missões para as quais fora designado: tomou posições, manteve sob controle áreas estratégicas e fez prisioneiros, numa quantidade quase igual à do seu contingente!
Ok, história bacana, mas ficção, certo? Sim, ficção. Mas se você trocar o Nepal pela Itália, o exército chinês pelo alemão, os dias atuais pelo distante 1944 e, em vez de um sapo assobiando, o símbolo for de uma cobra fumando, ela se torna verdadeira. Pois o que se narrou foi o que a Força Expedicionária Brasileira (FEB) enfrentou, quando embarcou para lutar na Segunda Guerra Mundial. A maioria dos expedicionários não erade soldados profissionais, mas, sim, civis convocados, que se tornaram soldados-cidadãos!
Enfrentaram tudo o que descrevi e muito mais! Porém, trataram como irmãos a população local, a ponto de hoje, 74 anos depois, as regiões libertadas pelos brasileiros, na Itália, nos meses de abril e maio, reverenciarem nossos combatentes! Enquanto aqui mal sabemos que o Brasil lutou na Segunda Grande Guerra, o porquê de uma rua chamar-se Monte Castelo ou de uma praça ser a Praça dos Expedicionários, por lá, as crianças italianas cantam a Canção do Expedicionário na Língua Portuguesa!
Depois da guerra, aqueles jovens convocados voltaram para o Brasil. Os que não eram militares retornaram às suas atividades. O tempo foi passando, nossos veteranos envelheceram e, hoje, menos de uma centena está conosco.
Somos a última geração que terá conhecido um expedicionário vivo! É nosso o dever de não permitir que sejamos também a última que se orgulhou em dizer que a cobra fumou!

