O imbróglio envolvendo o condomínio de luxo Soul Corpal Living Resort expõe, mais uma vez, um problema que há anos acompanha o crescimento urbano de Campo Grande: a dificuldade de se estabelecer limites claros entre desenvolvimento imobiliário, preservação ambiental e planejamento urbano responsável.
O caso ganhou repercussão justamente por reunir elementos que, isoladamente, já seriam suficientes para despertar preocupação. Juntos, tornam a situação ainda mais alarmante.
Trata-se de um empreendimento erguido sobre área federal ainda não regularizada e cercado por questionamentos ambientais relevantes, apontados tanto pelo Ministério Público Federal quanto pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul.
É inevitável o espanto diante da constatação de que um projeto marcado por tantas incertezas tenha conseguido avançar, sair do papel e chegar ao ponto de comercializar lotes de alto padrão.
A discussão jurídica certamente seguirá seu curso. É possível que, futuramente, a empresa responsável consiga regularizar a situação fundiária ou até demonstrar que parte das premissas levantadas pelos órgãos de controle não se sustenta integralmente.
Entretanto, independentemente do desfecho judicial, há um dano que já está posto: a insegurança. Em um mercado imobiliário que depende diretamente de confiança, previsibilidade e estabilidade, qualquer sombra de dúvida afeta vendas, reduz a atratividade e compromete a valorização dos imóveis.
O episódio também traz à tona uma reflexão ainda mais profunda sobre o modelo de crescimento adotado por Campo Grande. A Capital sul-mato-grossense já é reconhecida por seu perfil horizontalizado, espalhado e pouco adensado.
Em vez de estimular a ocupação inteligente dos espaços urbanos já existentes, com melhor aproveitamento da infraestrutura instalada, o município segue permitindo a expansão de condomínios cada vez mais distantes da malha consolidada, avançando sobre áreas rurais e ampliando os vazios urbanos.
Essa lógica cobra um preço alto da coletividade. Quanto mais distante estiverem os empreendimentos, maior será o custo para levar asfalto, iluminação pública, saneamento, transporte coletivo, rede elétrica e demais serviços essenciais.
É uma conta que, cedo ou tarde, acaba recaindo sobre toda a população. O crescimento desordenado não representa apenas um desafio urbanístico; é também um problema econômico, ambiental e social.
Campo Grande precisa decidir qual cidade deseja construir para as próximas décadas. Uma cidade compacta, eficiente e sustentável ou uma cidade cada vez mais dispersa, cara e difícil de administrar. O caso do Soul Corpal Living Resort deveria servir como ponto de inflexão para esse debate.
Mais do que discutir um empreendimento específico, é hora de refletir sobre os critérios que vêm orientando a expansão urbana da Capital e sobre os limites que precisam ser respeitados para que o crescimento não ocorra à custa da legalidade, do meio ambiente e do interesse público.

