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2026, um dos anos mais desafiadores para o varejo

O Brasil vai proteger quem produz lá fora e desproteger quem produz e emprega aqui

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O varejo sempre foi desafiador, em todos os setores de atuação, em todas as épocas. Em especial, neste ano está ainda mais desafiador, porque vários fatores que vão além de uma boa administração empresarial, de estratégias criativas de marketing, de campanhas de preços atrativos, etc., estão interferindo no ambiente de negócios.

Entramos neste ano com o ritmo de vendas morno, haja vista o lento crescimento de 2,4% nas vendas no primeiro trimestre, segundo dados setoriais e os indicadores econômicos, que previam um crescimento do PIB de 2,0%, mas que, agora, foi recalculado para 1,85% (Relatório Focus), e uma inflação de 3,91%, que também foi recalculada para 4,91%.

Caminhamos às sombras de um provável crescimento da inflação, potencializado pelos efeitos da guerra entre EUA e Irã, uma taxa de juros Selic inaceitável de 14,50% a.a., que consome todo o resultado das empresas e reduz sobremaneira a oferta de crédito e, consequentemente, o consumo e dois fatores ainda mais contundentes: a recente retirada do Imposto de Importação de 20% nas vendas cross border e a eventual redução da jornada e escala de trabalho.

Com relação à retirada, pelo governo, do Imposto de Importação de 20% nas vendas cross border feitas pelas plataformas eletrônicas estrangeiras, conhecido como “taxa das blusinhas”, mas que de fato alcança centenas de outros produtos além do têxtil, é preciso considerar que este imposto sequer conseguia equilibrar as condições de competitividade necessária aos produtos fabricados e vendidos no País, que pagam carga tributária de cerca de 92%.

A disparidade de taxação entre o produto importado e o fabricado e vendido no Brasil já era enorme, agora é gigantesca. O Brasil vai proteger quem produz lá fora e desproteger quem produz e emprega aqui.

Sobre este tema, é bom ressaltar que o varejo nacional nunca quis privilégios, mas sim isonomia tributária, se houve zero de Imposto de Importação na venda cross border, é preciso ter zero de imposto também para o produto nacional com preço até US$ 50.

Praticamente todas as associações e institutos empresariais têm estudado e anunciado as prováveis consequências da eliminação do Imposto de Importação.

Muito provavelmente haverá queda significativa nas vendas dos produtos nacionais no mercado interno, prejudicando negócios de todos os portes, mas, principalmente, o pequeno e o médio varejos, que não conseguirão competir com os produtos importados, em boa parte subfaturados e ainda com imposto zero, consequentemente, o varejo brasileiro venderá menos ao consumidor e comprará menos para os estoques.

O impacto poderá ser sentido nas indústrias, provocando desemprego, seu fechamento ou a transferência de produção para países fronteiriços.

Quando da introdução do Imposto de Importação, o benefício foi marcante. No primeiro ano da sua implantação foram criados, só no varejo, 107 mil empregos e houve melhoria nas vendas e nos investimentos.

Em toda a cadeia de fornecimento até a ponta no varejo também se aumentou a produtividade e não ocorreu, na média, crescimento de preços acima da inflação, beneficiando o consumidor, que optou por comprar o produto nacional.

Logo, estavam progredindo as empresas, a geração de empregos e os consumidores, que estavam comprando produtos nacionais com preços atrativos, de qualidade, certificados e garantidos, mas nada disso foi considerado por quem desejou zerar novamente o Imposto de Importação.

Outro ponto é a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas (obviamente não considerando qualquer chance para 36 horas), sem redução do salário, e a eliminação da escala de trabalho 6x1, passando para 5x2.

Essa discussão é um ponto de forte resistência no setor de comércio e serviços pelo impacto direto no custo da folha e na escala de atendimento.

Um olhar calculado sobre este tema mostra de forma inquestionável que a redução da jornada de trabalho sem redução do salário vai gerar um aumento aproximado de custo na mão de obra de 10%, e a mudança da escala de trabalho de 6x1 para 5x2 também, na média, dependendo do setor, acarretará um aumento de 13% no custo da folha de pagamento.

Não vamos entrar aqui na discussão de que todo trabalhador merece descansar o máximo possível. É claro que sim, e se está mudança acontecer, teremos um país onde se descansará, aproximadamente, um terço do período anual e se trabalhará dois terços do tempo. A economia do País suportará esta transformação?

Conjugando-se os efeitos de redução de jornada para 40 horas sem redução do salário e da escala para 5x2, os diversos estudos técnicos que circulam pelo País falam de aumento de despesas, com a folha de pagamentos aumentando na ordem de 20% a 23%.

O impacto combinado da isenção de Imposto de Importação no cross border somado à redução da jornada e da escala de trabalho criará um cenário de pressão sem precedentes sobre a operação e a sobrevivência das empresas.

Com este cenário impulsionado pelo calendário eleitoral, como ficarão o ambiente de negócios e a confiança do empreendedor?

Embora diga-se que em economia tudo com o tempo ajusta-se, mas a que custo?

O fim do Imposto de Importação e a eventual redução da jornada e da escala de trabalho acarretarão riscos para a economia, cujas consequências poderão comprometer a viabilidade das empresas e o emprego de milhares de trabalhadores, não apenas no presente, mas também num futuro muito próximo.

ARTIGOS

A disputa do petróleo e o direito de Mato Grosso do Sul

A discussão, parada há mais de 13 anos por uma decisão liminar, envolve bilhões de reais e pode redefinir a forma como o Brasil divide uma das maiores riquezas nacionais

16/05/2026 07h30

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O Supremo Tribunal Federal (STF) finalmente começou a julgar as ações que discutem a validade da Lei 12.734/2012, que mudou as regras de distribuição dos royalties do petróleo entre estados e municípios produtores e não produtores.

A discussão, parada há mais de 13 anos por uma decisão liminar, envolve bilhões de reais e pode redefinir a forma como o Brasil divide uma das maiores riquezas nacionais.

Os estados produtores, como Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, defendem que os royalties devem permanecer concentrados, porque funcionam como uma compensação pelos impactos ambientais, urbanos e sociais causados pela exploração do petróleo.

Alegam ainda que a mudança nas regras prejudicaria a segurança jurídica e afetaria receitas que já estavam incorporadas aos seus orçamentos.

Do outro lado, estados como Mato Grosso do Sul sustentam que o petróleo pertence à União e, portanto, é patrimônio de todos os brasileiros.

Dessa forma, a riqueza gerada por sua exploração não deveria beneficiar apenas os entes produtores, mas contribuir para reduzir desigualdades regionais e fortalecer o desenvolvimento nacional.

Nesse ponto, teve destaque a atuação da procuradora-geral do Estado de Mato Grosso do Sul, Ana Carolina Ali Garcia, durante sustentação oral no STF. De maneira clara e técnica, ela ressaltou que os royalties não decorrem diretamente dos danos causados pela exploração do petróleo, mas da receita obtida com essa atividade econômica.

Em outras palavras, não se trata apenas de indenização aos estados produtores, mas também da divisão de uma riqueza nacional. Esse entendimento fortalece a tese defendida por Mato Grosso do Sul e outros estados não produtores: se o petróleo é um bem da União, seus resultados econômicos devem alcançar toda a Federação.

Para um estado sem litoral e distante da produção marítima, como Mato Grosso do Sul, uma distribuição mais equilibrada dos royalties representa a possibilidade de ampliar investimentos em áreas essenciais, reduzir desigualdades históricas e fortalecer o desenvolvimento regional.

Há ainda um aspecto institucional importante. A manutenção, por mais de uma década, de uma liminar suspendendo uma lei aprovada pelo Congresso Nacional evidencia um problema recorrente no sistema brasileiro: decisões provisórias acabam produzindo efeitos permanentes antes mesmo do julgamento definitivo pelo plenário do STF.

Isso gera insegurança jurídica e prolonga disputas federativas de enorme impacto financeiro.

O julgamento, portanto, vai muito além da divisão de recursos do petróleo. O STF terá de decidir qual modelo de federação pretende fortalecer: um sistema concentrador, em que poucos estados ficam com a maior parte das receitas, ou um federalismo cooperativo, baseado na ideia de que riquezas nacionais devem beneficiar todo o País.

Para Mato Grosso do Sul, a vitória nessa disputa representa mais do que recursos financeiros. Representa o reconhecimento de que o desenvolvimento nacional precisa ser compartilhado de forma mais equilibrada entre todos os estados brasileiros.

EDITORIAL

O abandono bilionário da Malha Oeste

Rumo acumula dívida bilionária com a União, enquanto a principal ferrovia de MS segue sucateada, sem investimentos e cercada de dúvidas sobre o futuro da concessão

16/05/2026 07h15

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Mais uma vez, Mato Grosso do Sul acompanha uma novela ferroviária cujo fim parece previsível. Enquanto os capítulos seguem se arrastando em Brasília, os prejuízos continuam acumulados ao longo dos trilhos enferrujados da Malha Oeste.

Nesta edição, mostramos que a Rumo Malha Oeste acumula dívida de R$ 1,1 bilhão com a União por atrasos em parcelas da concessão e também no arrendamento dos 1,9 mil quilômetros da ferrovia.

O valor impressiona, mas talvez mais preocupante seja a sensação de que, no fim, a concessionária encontrará um caminho para escapar da conta, enquanto a população continuará convivendo com uma ferrovia sucateada, lenta e incapaz de cumprir o papel estratégico que já teve no desenvolvimento regional.

É difícil imaginar outro desfecho. O histórico recente das concessões ferroviárias brasileiras mostra que grandes grupos econômicos frequentemente conseguem renegociar contratos, alongar prazos e reduzir obrigações. Já os prejuízos ficam para os municípios, para o setor produtivo e para a população.

Independentemente do que venha a ocorrer com a multa aplicada à Rumo, ela parece plenamente justificável. Afinal, a deterioração da Malha Oeste não aconteceu da noite para o dia. Foram décadas de baixa utilização, poucos investimentos, fechamento gradual de trechos e perda de competitividade logística.

Em muitos pontos, a ferrovia se transformou praticamente em uma estrutura abandonada atravessando cidades e áreas produtivas.

E isso não é pouca coisa. Foi justamente a Malha Oeste que ajudou a construir boa parte da economia sul-mato-grossense durante o século 20. Os trilhos tiveram papel decisivo no transporte de cargas, no escoamento da produção agropecuária e no desenvolvimento de diversas cidades do Estado.

Hoje, o contraste é evidente. Enquanto outras regiões modernizam suas ferrovias, Mato Grosso do Sul vê sua principal linha férrea perder relevância ano após ano. Isso encarece a logística, aumenta a dependência das rodovias e reduz a competitividade econômica do Estado.

O governo federal prevê uma nova licitação da Malha Oeste ainda neste ano. E a própria Rumo deve participar do processo.

Surge então uma pergunta inevitável: se vencer novamente, a empresa fará os investimentos necessários para recuperar a ferrovia ou apenas buscará manter a concessão para escapar de multas e impedir o avanço de concorrentes?

A dúvida faz sentido. A poucos quilômetros da Malha Oeste opera a Malha Norte, também controlada pela Rumo Logística. Em um setor estratégico como o ferroviário, concentração excessiva pode significar menos investimentos e menos interesse na recuperação de trechos considerados pouco rentáveis.

Mato Grosso do Sul não pode aceitar passivamente o abandono de sua principal ferrovia. A discussão sobre a Malha Oeste não envolve apenas contratos bilionários, trata-se do futuro logístico do Estado e da capacidade de retomarmos um modal que foi essencial para o nosso desenvolvimento.

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