Artigos e Opinião

OPINIÃO

Maira Caleffi: "Ao lidar com o câncer, precisamos de mais do que sorte"

Presidente voluntária da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama

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A sorte é uma palavra que designa uma força invencível a que se atribuem diversos acontecimentos da vida; um fenômeno inexplicável, fruto do acaso ou destino. Por vezes, ela é nossa companheira e nos leva a rumos afortunados; por outras, perde-se no caminho e nos desvia para uma rota completamente inesperada. 

O câncer é uma dessas adversidades da vida que nos fazem acreditar que a sorte, naquele momento, não esteve ao nosso lado. Receber o diagnóstico nunca é fácil – o enfrentamento da doença é uma estrada repleta de desafios, que podem gerar insegurança e angústia. 

Uma busca por maneiras de fortalecer e amparar os pacientes com câncer e garantir a eles seus direitos fundamentais foi o que motivou a criação da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), em julho de 2006. Faz exatamente 13 anos desde que a Femama deu seu primeiro suspiro, pautada na esperança de influenciar a formulação de políticas públicas que visem gerar a garantia da universalidade, integralidade e equidade na atenção à saúde da mama. 

Em muitas culturas, o 13 é um número atribuído ao infortúnio e azar, que causa até mesmo medo. Para nós e para tantos brasileiros, porém, estes foram 13 anos de muita sorte. A comemoração não é apenas por mais um ano de vida, mas, sim, pelo fato de que em todos esses anos de atuação fomos responsáveis por valorizar e oferecer novas possibilidades a milhares de outras vidas. 

A nossa sorte, na verdade, fomos nós quem criamos, junto às mais de 70 ONGs associadas à Femama. Nesses 13 anos, a articulação da Femama foi imprescindível para a aprovação de leis importantes para pacientes com câncer, como a Lei 11.664/08, que regulamenta a mamografia a partir dos 40 anos pelo SUS, a Lei 12.732/12, que determina o início do tratamento de pacientes oncológicos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em até 60 dias, a Lei 12.880/13, que inclui tratamentos orais para o câncer na cobertura mínima dos planos de saúde, e a Lei 13.685/2018, que fala da notificação e registro compulsório do câncer, além de tantas outras ações que garantem mais qualidade de vida àqueles que vivem com a doença. 

Entretanto, a nossa batalha não para por aqui. Apesar de ser a segunda principal causa de óbitos no mundo, o câncer ainda não é considerado uma verdadeira prioridade – são inúmeros os desafios enfrentados pelos pacientes no Brasil, que vão desde a demora no diagnóstico, que diminui substancialmente a chance de sobrevida, até a dificuldade de acesso a medicamentos essenciais para o tratamento.

O câncer precisa ser encarado como um problema de atenção básica. Nos postos de saúde, os sinais dificilmente são analisados sob a hipótese de uma possível neoplasia – apenas em casos com sintomas óbvios. O câncer, porém, não é óbvio. Quando ignoramos sua possibilidade, perdemos tempo: tempo para curar e tempo para viver. 

Os pacientes com câncer não podem contar única e exclusivamente com a sorte – eles precisam de qualidade de vida, direitos garantidos e tratamentos efetivos. É por isso que a Femama vem lutando por 13 anos, e é para isso que nossa rede de apoio continuará lutando. A estrada é longa, mas escolhemos ser agentes de mudança deste cenário e não desistiremos até que salvar essas vidas seja efetivamente uma prioridade para todos. 

EDITORIAL

Saúde e a falta de atendimento digno

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, falha com seus pacientes e toda a sociedade

24/06/2026 07h15

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Há algo profundamente errado quando um paciente consegue ser esquecido dentro de um hospital. Não se trata apenas de uma falha administrativa, de um problema de gestão ou de uma dificuldade financeira. Trata-se de uma afronta à dignidade humana.

E é exatamente isso que reportagem publicada nesta edição do Correio do Estado revela ao apresentar o conteúdo de um relatório da Defensoria Pública sobre a situação da Santa Casa de Campo Grande.

O documento descreve um cenário que deveria causar indignação em qualquer cidadão. Pacientes aguardam vagas e procedimentos por períodos incompatíveis com a urgência de seus quadros clínicos.

Há relatos de tratamentos inadequados, falhas no acompanhamento médico e situações em que pessoas permanecem à espera de cuidados básicos. O que se vê é um sistema que, em muitos casos, parece incapaz de oferecer aquilo que deveria ser sua missão principal: cuidar.

É preciso dizer com clareza que não estamos falando apenas de números, estatísticas ou relatórios. Estamos falando de pessoas. Homens, mulheres, idosos e crianças que chegam ao hospital em busca de ajuda e encontram uma estrutura que, frequentemente, não consegue responder às suas necessidades.

São cidadãos que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) e que, justamente por isso, tornam-se ainda mais vulneráveis.

A situação se torna mais grave porque o paciente que depende do SUS não tem alternativa. Quem tem recursos financeiros pode recorrer a hospitais particulares, buscar uma segunda opinião ou contratar um plano de saúde.

Já o cidadão pobre, quando entra em uma unidade pública ou conveniada ao SUS, entrega seu destino à capacidade do sistema de funcionar. E, conforme demonstram os relatos reunidos pela Defensoria Pública, essa confiança nem sempre é correspondida.

Existe uma ironia difícil de ignorar. Boa parte dos profissionais que atuam no sistema público de saúde e dos gestores responsáveis por hospitais conveniados ao SUS não utiliza a rede pública quando precisa de atendimento médico, recorre aos planos de saúde e aos hospitais privados.

Não há ilegalidade nisso, mas o fato expõe uma realidade desconfortável: muitos conhecem de perto as limitações do serviço que administram ou ajudam a prestar.

Outro argumento frequentemente utilizado para justificar os problemas da saúde pública é a falta de recursos. No caso de Campo Grande, porém, essa explicação não parece suficiente.

Todos os anos, mais de R$ 1 bilhão são transferidos pela União ao Município para custear ações e serviços do SUS. Trata-se de um volume expressivo de dinheiro público.

O que os fatos indicam é a necessidade urgente de melhorar a gestão dos recursos já disponíveis. Cada paciente esquecido, cada tratamento inadequado e cada demora injustificável representa não apenas sofrimento humano, mas também o fracasso na aplicação eficiente de recursos que pertencem à sociedade.

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos, independentemente da renda. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, não falha apenas com seus pacientes, falha com toda a sociedade.

Artigo

Crise de realidade e o novo papel da ficção

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si

23/06/2026 07h45

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Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano.

Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que atravessado pelo fantástico.

Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria realidade?

Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro.

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e emoções.

Nesse cenário, criar histórias fantásticas deixa de ser apenas um exercício de imaginação ou uma fuga baseada no “e se?” A ficção passa a funcionar também como um espaço de investigação. Um convite para recuperar o espanto, a dúvida e a curiosidade diante do mundo.

Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, imaginar talvez seja uma das últimas formas de observar com profundidade.

Para mentes bombardeadas por versões conflitantes da verdade, a ficção precisa assumir um novo papel social.

Se já não conseguimos concordar sobre o que acontece no noticiário, se a desconfiança atravessa instituições, discursos e imagens, talvez sejam as histórias que nos ajudam a reconstruir alguma experiência de identificação coletiva.

Afinal, ainda conseguimos reconhecer a injustiça, a perda, o medo e a esperança quando eles aparecem diante de nós em forma de narrativa. Contar histórias, hoje, talvez seja menos sobre escapar da realidade e mais sobre reaprender a enxergá-la.

Num mundo em que cada pessoa parece confinada à própria versão dos fatos, a ficção ainda pode abrir janelas, criar pontes e provocar perguntas difíceis.

A fantasia, quando nasce da observação honesta do mundo, não nos afasta do real. Pelo contrário: ela funciona como um espelho. E nos enxergar talvez seja exatamente o que precisamos nestes tempos.
 

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