Dados divulgados no mês passado revelam que o endividamento dos brasileiros atingiu níveis recorde em março, com 80,4% das famílias relatando dívidas, porcentual nunca visto na história do País.
Além disso, dados do Banco Central relativos a fevereiro mostram que 49,9% das famílias estão com quase um terço da renda (29,7%) comprometida com o pagamento de dívidas.
A princípio, o principal problema em contrair dívidas em exagero é o provável comprometimento de importante parcela da renda com o pagamento de juros, por mais que estes pareçam ser vantajosos e por maior que seja a necessidade de contrair determinados empréstimos ou fazer determinadas compras.
Se o endividamento exagerado é problema para o cidadão comum, isso também vale para o poder público. Um exemplo claro no que se refere à contratação de empréstimos é a administração estadual de Mato Grosso do Sul.
Somente desde setembro de 2024 foram tomados quase R$ 4,5 bilhões em empréstimos, praticamente todos para conseguir “mostrar serviço” em diferentes cantos do Estado em período pré-eleitoral.
Inicialmente, em setembro de 2024, o governo do Estado pegou R$ 2,3 bilhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
As obras, pelo menos 15 delas, estão a todo vapor. Depois, já em fevereiro deste ano, foram mais R$ 950 milhões liberados pelo Banco do Brasil. O
destino do dinheiro é praticamente o mesmo, investimentos em infraestrutura. Nesta semana, foi batido o martelo para mais US$ 200 milhões.
Embora o destino seja o mesmo dos dois anteriores, investimento em rodovias, desta vez, o resultado prático deve aparecer aos eleitores somente a partir do próximo ano.
As promessas, porém, já estão a todo vapor.
Nada mais natural que buscar financiamento para grandes projetos, como a compra de uma casa ou de um carro, por exemplo.
Porém, quando esses são feitos para bancar as despesas do dia a dia, algo está estranho. O mesmo vale para a administração pública.
Faz quase três décadas que Mato Grosso do Sul tem o chamado Fundersul, criado para bancar a manutenção de rodovias. No ano passado, ele rendeu quase R$ 1,1 bilhão aos cofres estaduais.
Mesmo assim, este último empréstimo, que terá valor praticamente igual, será totalmente destinado à manutenção de rodovias.
Além de pegar dinheiro a juros para conseguir “mostrar serviço”, a administração estadual está privatizando rodovias para se ver livre do encargo da manutenção.
Ao fazer a concessão, quem paga a conta é o usuário das rodovias, que continua pagando os impostos de antes, inclusive o Fundersul.
Logo no começo da atual administração, em março de 2023, foram concedidos 412 quilômetros de rodovias na região leste do Estado e, no começo deste ano, foram mais 870 km, boa parte composta por estradas federais, que anteriormente foram estadualizadas.
Independentemente de as obras serem bancadas com recursos próprios ou de empréstimos, o fato é que a conta sempre é paga pelo contribuinte.
A diferença é que um pai de família ou um administrador público minimamente cuidadoso se recusa a pagar juros desnecessários somente para poder mostrar aos vizinhos, ou aos eleitores, que segue surfando na crista da onda.


