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Natal chega com a multiplicação das dívidas

o País inteiro acorda no primeiro dia do mês como se tivesse recebido uma ordem divina, uma epifania do comércio, uma convocação para salvar o varejo com o próprio suor

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Há algo de profundamente comovente – para não dizer tragicômico – nesse balé anual do consumo brasileiro em dezembro. A cena se repete com a disciplina de um feriado nacional não decretado: o País inteiro acorda no primeiro dia do mês como se tivesse recebido uma ordem divina, uma epifania do comércio, uma convocação para salvar o varejo com o próprio suor…

E com o próprio limite do cartão. A cada ano, estudiosos e pesquisas anunciam, com a solenidade de quem revela o PIB, que agora vai: só neste Natal, estima-se movimentar quase R$ 85 bilhões. Bilhões! Uma cifra que, se convertida em bom senso, resolveria a vida emocional de metade da população.

É sempre impressionante como a simples visão de um panetone na prateleira ativa algum gene ancestral que sussurra: “Gaste”.

Não basta gastar – é preciso gastar mais do que no ano passado, porque 41% dos brasileiros decidiram que este é o ano de dar presentes melhores, maiores, mais caros, talvez capazes de compensar, com etiqueta e embrulho, o afeto corrido do resto do calendário.

Já os que vão gastar menos, coitados, justificam com pudor: “São as incertezas da economia”. Como se fosse preciso inventar desculpas para a própria prudência num país que a considera quase uma vergonha.

O brasileiro planeja comprar quatro presentes – cinco, se tiver mais dinheiro que juízo – e pagar tudo em quase cinco parcelas, o que empurra a última prestação para abril ou maio. Aprenda com esse povo: o futuro é sempre um problema da próxima estação.

E enquanto a ciência avança, o clima muda, a política desanda, a única constante é que o pagamento do presente de Natal do filho cairá exatamente no mês em que alguém da casa resolve ficar doente, o carro quebra ou o aluguel aumenta.

Nas lojas físicas, as multidões se acotovelam, aquele espetáculo humano de sacolas, calor e crianças que já desistiram de acreditar no bom velhinho por motivos logísticos.

A internet, por sua vez, vira território de caça: 82% vão pesquisar preços, como se esse ritual trouxesse algum alívio moral, uma absolvição dos pecados financeiros que virão.

E, numa síntese perfeita do espírito nacional, os sites internacionais ganham preferência. Por quê? Talvez porque comprar lá fora dá a sensação de que se está fazendo um bom negócio. A crença coletiva de que dezembro é o último suspiro da felicidade possível opera com a precisão de um relógio suíço.

Há quem substitua presentes por experiências – jantares, viagens, passeios –, mas tudo continua orbitando o mesmo mantra: “É Natal, é preciso fazer alguma coisa”. Como se o afeto tivesse preço e prazo, e ambos expirassem no dia 26.

E então, claro, há o crédito. Nosso herói trágico. Ele influencia 79% das compras natalinas e permite que 39% adquiram coisas que jamais comprariam se dependessem do próprio bolso à vista.

Não é exagero dizer que o Brasil acredita mais no parcelamento sem juros do que em muitas instituições republicanas. Pix, cartão, débito, dinheiro – tudo vale para manter acesa essa fantasia anual de fartura.

No fundo, dezembro é o carnaval do capitalismo doméstico. Um mês em que todos fingem que o bolso é um pouco mais fundo, o saldo bancário um pouco mais generoso e o futuro um pouco mais distante.

Depois, janeiro chega – sempre chega – trazendo boletos, lucidez e a ressaca moral de quem sabe, há anos, que caiu de novo no mesmo truque. Mas, até lá, o brasileiro segue firme, embalado pelo cheiro de rabanada e pela promessa encantada de que, neste ano, agora sim, vai dar tudo certo.

Ou pelo menos até a fatura fechar.

Editorial

Hidrovia exige equilíbrio e fiscalização

Não se pode desconsiderar a necessidade de desenvolvimento econômico do Pantanal, que enfrenta desafios históricos de infraestrutura, logística e de oportunidades

25/03/2026 07h15

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O debate sobre a hidrovia do Rio Paraguai expõe, mais uma vez, um dilema recorrente no Brasil: como conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.

No caso específico da região Pantaneira, essa equação é ainda mais sensível. O avanço de um projeto dessa magnitude exige cautela, planejamento e, sobretudo, transparência.

Mas é preciso deixar claro: desenvolvimento e proteção ambiental não são objetivos incompatíveis. Com regras bem definidas e fiscalização efetiva, é possível avançar de forma responsável.

Nesta edição, mostramos que a COP15 tem sido utilizada como palco para questionamentos à concessão da hidrovia à iniciativa privada. Trata-se de uma manifestação pública legítima e pertinente.

Grandes projetos de infraestrutura, especialmente em áreas ambientalmente sensíveis, precisam ser amplamente discutidos.

O escrutínio da sociedade civil, da comunidade científica e de organizações ambientais é parte essencial de qualquer processo democrático.

Esse debate é, inclusive, saudável. Em uma concessão desse porte, é fundamental que o edital de licitação não deixe brechas que possam comprometer o meio ambiente ou a segurança da operação. Da mesma forma, a fiscalização precisa ocorrer de fato, e não apenas no papel.

Sem mecanismos rigorosos de controle, qualquer promessa de equilíbrio entre crescimento e preservação perde credibilidade. A transparência, nesse contexto, é tão importante quanto o projeto.

Os ambientalistas têm razão ao demonstrar preocupação. O Pantanal é um dos biomas mais frágeis e valiosos do planeta, e qualquer intervenção deve considerar seus limites naturais.

Ignorar esses alertas seria irresponsável. No entanto, também não se pode desconsiderar a necessidade de desenvolvimento econômico da região, que enfrenta desafios históricos de infraestrutura, de logística e de oportunidades.

A população pantaneira merece crescer com qualidade de vida, geração de emprego e melhores condições de integração econômica. Esse desenvolvimento, porém, precisa ocorrer de forma responsável, planejada e sustentável.

O caminho não está na paralisação de projetos nem na sua execução apressada, mas no equilíbrio. Conciliar progresso e preservação não é apenas possível – é uma obrigação. Essa é a nossa posição.

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Artigo

Quebrar criptografia não é mágica: o papel da tecnologia forense em investigações

É essa combinação que permite transformar informações aparentemente inacessíveis em dados passíveis de análise

24/03/2026 07h45

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A CNN Brasil noticiou recentemente que a Polícia Federal conseguiu quebrar a criptografia e acessar os dados de um celular pertencente a Daniel Vorcaro, no contexto do caso do Master. Segundo a reportagem, o conteúdo do aparelho já foi acessado e os dados serão compartilhados com a investigação.

Notícias como essa chamam atenção porque reforçam uma percepção comum, e muitas vezes equivocada, de que dados protegidos por criptografia são, por definição, inacessíveis.

Na prática, o acesso a informações criptografadas não é simples nem trivial. Trata-se de um trabalho altamente técnico, que só se torna viável com o uso de tecnologia forense avançada, combinada a método, conhecimento especializado e procedimentos rigorosamente definidos.

É essa combinação que permite transformar informações aparentemente inacessíveis em dados passíveis de análise, preservando integridade, contexto e valor probatório.

No caso citado pela reportagem, há um ponto tecnicamente relevante: mesmo sem a colaboração do investigado no fornecimento da senha do dispositivo, a Polícia Federal conseguiu acessar os dados armazenados no aparelho e superar uma camada adicional de proteção criptográfica.

Esse cenário ilustra o nível de sofisticação das ferramentas forenses disponíveis atualmente quando aplicadas de forma adequada, com base em conhecimento técnico aprofundado e processos bem estruturados.

Ferramentas forenses especializadas, como as desenvolvidas pela empresa israelense Cellebrite, ou soluções como o Verakey, da Magnet Forensics, existem justamente para lidar com cenários complexos: dispositivos protegidos por senha, criptografia ativa, dados excluídos intencionalmente e situações em que não há cooperação do usuário para acesso ao conteúdo.

Diferentemente do imaginário popular, esse acesso não ocorre por tentativa e erro, mas por meio de técnicas avançadas de extração e análise, capazes de identificar registros internos, artefatos digitais e informações residuais que permanecem no dispositivo.

Todo esse processo precisa ser conduzido de forma documentada e tecnicamente defensável. Princípios como integridade da evidência, rastreabilidade e cadeia de custódia são fundamentais para garantir que os dados recuperados possam ser corretamente analisados, contextualizados e, quando necessário, utilizados em processos administrativos ou judiciais. Sem esse rigor, a informação perde valor técnico e jurídico.

Há, naturalmente, diferenças entre o uso dessas tecnologias no setor público e no setor privado, mas essas diferenças não estão na tecnologia em si. No âmbito público, órgãos de investigação utilizam essas ferramentas com base em autorizações judiciais e dentro de procedimentos legais específicos.

Algumas funcionalidades mais sensíveis são restritas às forças de lei, por envolverem prerrogativas próprias da atividade policial.

No setor privado, por sua vez, a tecnologia forense é amplamente utilizada em investigações internas, apurações de fraude, incidentes de segurança da informação, disputas corporativas, atividades de compliance e auditoria.

Na Protiviti, por exemplo, contamos com plataformas forenses amplamente reconhecidas e utilizadas globalmente, operadas por profissionais qualificados, para apoiar empresas na apuração de fatos, identificação de irregularidades e tomada de decisões baseadas em evidências técnicas, sempre em conformidade com os limites legais e as melhores práticas de governança.

Casos amplamente divulgados pela imprensa, como o de Vorcaro, reforçam uma realidade cada vez mais presente no ambiente corporativo: dados digitais deixam rastros. Saber lidar com esses rastros de forma responsável, técnica e estruturada é um diferencial estratégico.

A tecnologia forense digital cumpre justamente esse papel, trazer clareza, confiabilidade e sustentação técnica para decisões críticas, fortalecendo a integridade dos processos investigativos e a confiança das organizações em suas próprias respostas.

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