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Nossos inimigos não são quem imaginamos

O momento atual da humanidade realmente não é dos melhores e às vezes temos a sensação de que estamos em um caos

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Eu acredito na humanidade. Com todo egoísmo e materialismo em que a consciência humana ainda está presa, precisamos admitir que estamos evoluindo.

Já tivemos várias engenhocas de torturas, já queimamos pessoas em fogueiras, já nos escravizamos, dizimamos populações nativas. Ainda somos cruéis, mas o nível de crueldade vem diminuindo. Já não toleramos mais discriminações.

A quantidade de organizações humanitárias aumentou consideravelmente nas últimas décadas. Não admitimos maus-tratos a animais e uma agenda verde é consolidada globalmente.

Apesar de tantas crescentes, o momento atual da humanidade realmente não é dos melhores e às vezes temos a sensação de que estamos em um caos. Em meio a uma transição de um mundo analógico para um digital, as gerações não conseguem se entender. Pais não estão sabendo lidar com os filhos.

Falamos mal das gerações novas, mas esquecemos que são frutos da anterior. A saúde mental vai de mal a pior, com níveis de depressão, síndrome do pânico e burnout aumentando a cada ano. Colocamos a culpa no estresse do trabalho. Mas por que crianças estão tendo os mesmos sintomas, sem trabalhar?

A economia também não vai bem. Crises mundiais têm sido cada vez mais frequentes. O socialismo fracassou e o capitalismo se transformou de um sistema de produção em um de consumo. O desafio agora é criar no inconsciente coletivo a necessidade de consumir.

Ou você tem tudo que o seu entorno tem ou vai se sentir inferior. Como consumir mais se o aumento de produção para atender à demanda esbarra em uma agenda verde? Estudos dizem que se o planeta todo tivesse um nível de consumo do americano, precisaria de uma área equivalente a quatro Terras para produzir o necessário. A conta não fecha.

A visão pode parecer um caos, mas é somente mais um ciclo que precisamos atravessar para a evolução. Que as coisas vão se ajeitar é fato, mas, como não estaremos aqui para olhar da plateia, só nos resta refletir sobre soluções para começar a melhorar.

A meu ver, o primeiro ponto é parar e fazer uma avaliação da consciência humana nesse momento do mundo.

Os inimigos nós já elegemos, o carbono, os bilionários e as pessoas de esquerda ou de direita, sempre quem pensa diferente de nós. Será que eles são realmente inimigos ou somente fruto da nossa própria forma de enxergar a vida?

Temos a necessidade de apontar culpados para o que não queremos ver em nós. Queremos diminuir a emissão de carbono, mas não aceitamos reavaliar o nosso consumo pessoal. Compramos o que desejamos, e não o que precisamos.

Falamos mal dos bilionários, mas esperamos que a economia do nosso país cresça e ofereça melhores oportunidades, esquecendo que são eles que têm talento para fazer negócios prosperarem.

Reclamamos da intolerância de pessoas de partidos contrários, mas não enxergamos que estamos, assim, nos dividindo em grupos políticos e ideológicos. Se o momento que vivemos é desafiador, precisamos nos unir, e não nos dividir.

Estamos olhando para o lugar errado. O inimigo não é externo, ele está dentro de nós. Se queremos mudar o mundo em que vivemos, o primeiro passo é mudar a nós mesmos.

Editorial

O peso do voto para o Legislativo

Na hora de votar, portanto, não basta avaliar se o candidato é simpático ou acessível. O mais importante é perguntar como ele votará nas pautas que interessam à comunidade

30/03/2026 07h15

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A recente divulgação de estimativas sobre os coeficientes eleitorais necessários para eleger deputados estaduais e federais cumpre um papel importante: lembrar ao eleitor que a escolha de um parlamentar está longe de ser simples.

Mais do que um cálculo matemático, esses números evidenciam como o voto individual, muitas vezes tratado com menor atenção, tem impacto direto na formação das casas legislativas e, consequentemente, nos rumos da sociedade.

Não é raro que o eleitor decida seu voto para deputado com base em critérios superficiais. A proximidade pessoal, a indicação de um amigo, o pedido de um líder religioso ou mesmo a simpatia por alguém “boa praça” acabam pesando mais do que a análise do histórico e das propostas do candidato.

Essa prática, embora comum, enfraquece a representação política e contribui para a eleição de parlamentares que nem sempre refletem os interesses e valores de quem os escolheu.

O voto para deputado deve estar alinhado com a visão de mundo do eleitor. Isso significa avaliar posições sobre temas relevantes, observar a coerência das ideias, conhecer a trajetória política e profissional e entender como o candidato pretende atuar no exercício do mandato.

Afinal, são os parlamentares que discutem e aprovam leis que interferem diretamente no cotidiano da população, desde políticas públicas essenciais até regras econômicas e sociais que moldam o futuro do País e dos estados.

Muitos eleitores não percebem, mas o voto para o Legislativo é tão ou mais importante do que o destinado ao Executivo. Governadores e presidentes executam políticas, mas dependem do Congresso Nacional e das assembleias legislativas para viabilizar projetos, aprovar orçamentos e alterar leis.

Sem o respaldo parlamentar, propostas não avançam, reformas não se concretizam e decisões estratégicas ficam travadas. É no Legislativo que se pautam debates fundamentais que impactam a vida diária da população.

Por isso, a escolha de um deputado deve levar em conta convicções, formação e expectativas não apenas individuais, mas também coletivas. O eleitor precisa refletir sobre quais ideias deseja ver defendidas, quais prioridades considera urgentes e qual modelo de sociedade pretende construir.

Esse alinhamento entre representado e representante fortalece a democracia e melhora a qualidade das decisões públicas.

Na hora de votar, portanto, não basta avaliar se o candidato é simpático ou acessível. O mais importante é perguntar como ele votará nas pautas que interessam à comunidade, qual será sua postura diante de temas sensíveis e como pretende contribuir para o desenvolvimento social e econômico.

O voto consciente para deputado não é apenas um direito; é uma responsabilidade que define, em grande medida, os caminhos do País.

Artigo

Extradição de Carla Zambelli testa limites entre Direito e política

Cabe ressaltar que a Justiça da Itália aceitou a extradição porque, em tese, não estão presentes as causas de recusa previstas no tratado

28/03/2026 07h45

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A decisão da Justiça italiana de autorizar a extradição da ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP) ao Brasil, para cumprimento de pena decorrente de duas condenações, projeta o caso para além do embate político doméstico e o insere em um terreno mais técnico e, por isso mesmo, mais revelador do Direito Penal Internacional.

Ao chancelar o pedido brasileiro, a Corte de Apelação de Roma sinalizou que não identificou, ao menos em juízo preliminar, nenhum dos obstáculos clássicos à extradição previstos no tratado bilateral firmado entre Brasil e Itália em 1989. Trata-se de um ponto central: a cooperação internacional em matéria penal não se orienta por simpatias ideológicas, mas por critérios jurídicos objetivos.

Cabe ressaltar que a Justiça da Itália aceitou a extradição porque, em tese, não estão presentes as causas de recusa previstas no tratado, como a natureza política do crime, o risco de pena de morte ou a prescrição da pena. Em outras palavras, o caso não se sustenta, sob o olhar técnico, como uma perseguição política, ao menos não nos termos exigidos pelo Direito Internacional para barrar uma extradição.

Esse ponto é particularmente sensível. A invocação de “crime político” como escudo contra a extradição exige requisitos rigorosos, sob pena de banalização do instituto.

No caso, os delitos atribuídos, invasão de dispositivo informático e falsidade ideológica, dificilmente se encaixam nessa categoria, o que esvazia um dos principais argumentos da defesa no plano jurídico internacional.

Isso não significa, contudo, que o desfecho esteja próximo. A defesa ainda poderá recorrer à Corte de Cassação e, eventualmente, ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos.

Ambos os caminhos têm efeito suspensivo, o que pode postergar a entrega da ex-deputada ao Brasil por meses ou até anos.

Mais relevante do que o tempo do processo, porém, são os argumentos que tendem a emergir nas próximas etapas. A estratégia defensiva deve migrar do terreno político para o campo das garantias fundamentais, com foco em dois eixos: as condições do sistema prisional brasileiro e o princípio da dupla incriminação.

No primeiro caso, sustenta-se que o Brasil não ofereceria condições dignas de cumprimento de pena , tese recorrente em tribunais europeus, ainda que de acolhimento restrito.

No segundo, questiona-se se as condutas imputadas encontram correspondência típica no ordenamento italiano, requisito indispensável para a extradição.

O episódio, portanto, ultrapassa a figura de Zambelli. Ele expõe, com nitidez, o funcionamento das engrenagens da cooperação jurídica internacional e evidencia que, fora do calor das disputas políticas nacionais, prevalece uma lógica menos retórica e mais normativa.

Se confirmada ao fim do processo, a extradição representará uma vitória jurídica do Estado brasileiro e também um recado claro: a internacionalização de disputas políticas não é, por si só, suficiente para afastar a aplicação de regras consolidadas do

Direito Internacional. Por outro lado, se a extradição for barrada em instâncias superiores, o caso poderá reacender o debate sobre os limites do sistema prisional brasileiro à luz dos padrões europeus de direitos humanos.

Entre técnica e narrativa, o destino de Carla Zambelli será decidido menos pelos discursos e mais pela consistência jurídica de cada argumento apresentado. E isso, em tempos de polarização, não deixa de ser um sinal de maturidade institucional.

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