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O Brasil que trabalha e vota: o eleitor invisível que vai decidir neste ano

Aquele que não se reconhece em nenhum dos polos e que, neste ano, terá o poder real de inclinar a balança

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A obsessão nacional com a polarização transformou a política brasileira numa caricatura: dois times em guerra permanente, como se o País estivesse dividido entre Fla e Flu, vermelho e azul.

Essa narrativa simplificadora, confortável para a mídia e funcional para lideranças extremistas, esconde o eleitor mais decisivo do próximo pleito: aquele que não se reconhece em nenhum dos polos e que, neste ano, terá o poder real de inclinar a balança.

O cenário é conhecido. De um lado, Lula busca a continuidade, pressionado pelo desgaste natural do poder e por expectativas sociais difíceis de atender. Do outro, a direita tenta se reorganizar após a ausência de Jair Bolsonaro, dividida entre o pragmatismo tecnocrático de Tarcísio de Freitas e a herança política de Flávio Bolsonaro.

A disputa será acirrada, mas o resultado não será definido nos palanques barulhentos das capitais. Ele será decidido longe dos holofotes, na rotina silenciosa de um eleitor que os analistas insistem em chamar genericamente de “moderado” ou “de centro”.

A pesquisa Mapa das Ideologias Brasileiras (Meio/Instituto Ideia) dá nome a esse grupo: o conservador societário. Ele representa 20,1% da população e 16% da base atual de Lula. Mais do que revelar sua existência, o estudo expõe um fracasso grave da comunicação política brasileira.

Apenas 21% dos eleitores de direita sentem-se respeitados pela esquerda progressista. Esse número não expressa divergência ideológica, mas uma sensação profunda de desprezo. Muitos não votaram em Bolsonaro por convicção, mas como reação a uma esquerda que, em vez de dialogar, preferiu rotular e moralizar.

A direita radical soube transformar esse ressentimento em voto defensivo.

A esquerda, presa à sua autossuficiência intelectual, tratou o fenômeno como desvio a ser combatido, não como alerta de falha de representação.

Quem é esse eleitor decisivo? Longe dos estereótipos, o conservador societário não é golpista nem fanático religioso. É o brasileiro comum que acorda cedo, trabalha, paga contas e tenta proteger a família num país instável.

Seu conservadorismo não é ideológico; é instintivo. Ele busca segurança, previsibilidade, respeito à fé e à rotina. Diante de mudanças aceleradas nos costumes, na economia e na geopolítica, sente-se ameaçado – e encontra na política mais ruído do que proteção.

Esse grupo concentra o maior contingente de indecisos. Não é cego, é órfão. Lula ainda tem uma janela de oportunidade, mas isso exige enfrentar resistências internas e validar medos reais.

Para esse eleitor, soberania nacional não é retórica dos anos 1970: é segurança pública, renda preservada, fronteiras protegidas e símbolos nacionais que não pertençam a um só campo político.

Paradoxalmente, a esquerda que se diz representante dos trabalhadores perdeu a linguagem para falar com o trabalhador conservador. A direita bolsonarista, mesmo oferecendo ódio e nostalgia, ainda é vista como quem “não olha de cima”. Trata-se de um fracasso retórico monumental.

A lição é dura: o radicalismo é minoritário, mas pauta o debate. O conservador societário é maioria silenciosa – e vota. Neste ano, vencerá quem abandonar a guerra cultural do passado e falar do futuro concreto de quem só quer viver em paz.

O risco é que, ignorado mais uma vez, esse eleitor opte novamente pelo voto de protesto. E o Brasil já conhece bem o custo dessa escolha.

EDITORIAL

Rodar MS e a lógica da cooperação

Programa evidencia colaboração entre o Estado e a União e aposta em modelo eficiente, em que a manutenção rodoviária proativa se destaca

22/04/2026 07h15

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Em tempos de disputas políticas acirradas, é comum que se busque atribuir a paternidade exclusiva de programas governamentais. No entanto, a realidade da gestão pública mostra que grandes iniciativas dificilmente são fruto de um único ator.

Em muitos casos, o esforço para tirar projetos do papel é compartilhado entre diferentes esferas de poder e instituições.

O programa Rodar MS é um exemplo claro dessa dinâmica. Voltado à manutenção proativa de mais de 700 quilômetros de rodovias nas regiões Cone-Sul e Bolsão de Mato Grosso do Sul, o projeto evidencia como a cooperação pode resultar em políticas públicas mais eficientes. Trata-se da adoção do sistema Crema, modelo financiado com recursos do Banco Mundial e já testado em outras experiências de infraestrutura.

O diferencial do Crema está em sua lógica de funcionamento. Na prática, ele é uma espécie de parceria público-privada em escala reduzida. A empresa contratada não é remunerada apenas pela execução de obras pontuais, mas pelo desempenho contínuo ao longo do contrato, que é de longo prazo.

Quanto melhor o estado de conservação da rodovia – sem buracos, com sinalização adequada e segurança garantida –, maior tende a ser sua remuneração.

Esse modelo altera incentivos. Em vez de intervenções reativas, feitas apenas quando o problema já se agravou, o sistema estimula a manutenção preventiva. Para a empresa, é mais vantajoso evitar a deterioração do que remediá-la.

Para o poder público e, sobretudo, para o usuário, o ganho é evidente: estradas em melhores condições, com mais segurança e previsibilidade.

Outro ponto que merece atenção é o financiamento do programa. O empréstimo de R$ 1,2 bilhão foi contratado pelo governo de Mato Grosso do Sul, mas conta com o aval do governo federal, condição necessária em operações internacionais.

Isso ocorre porque, do ponto de vista jurídico, a soberania para esse tipo de compromisso é da União, já que estados não têm personalidade jurídica de direito internacional.

Longe de representar conflito, essa engrenagem institucional demonstra a importância da cooperação federativa. União e governo estadual cumprem papéis complementares para viabilizar investimentos relevantes, com impacto direto na infraestrutura e no desenvolvimento regional.

O Rodar MS, portanto, vai além da discussão sobre autoria. Ele evidencia que, quando há coordenação entre diferentes níveis de governo e adoção de modelos eficientes, os resultados tendem a ser mais consistentes.

Em um país de dimensões continentais, reconhecer e valorizar esse tipo de parceria é essencial para avançar.

Artigo

O eleitor mediano sumiu da corrida presidencial deste ano?

A corrida presidencial segue a todo vapor, trazendo uma pergunta que creio valer uma quantia milionária: o teorema do eleitor mediano da ciência econômica explica a conjuntura política do Brasil?

20/04/2026 07h30

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Professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Pesquisadora do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica.

A corrida presidencial segue a todo vapor, trazendo uma pergunta que creio valer uma quantia milionária: o teorema do eleitor mediano da ciência econômica explica a conjuntura política do Brasil?

O tal teorema, enunciado inicialmente pelo economista escocês Duncan Black, na década de 1940, prevê que candidatos com chance de vitória devem mirar em campanhas voltadas para o centro do espectro ideológico.

A lógica é a seguinte: em uma democracia com regra de maioria, aquele que se distancia do meio dá votos de bandeja para o seu rival ocupar o espaço.

O matemático Harold Hotelling, em 1929, ofereceu um raciocínio rigoroso e visualmente impactante sobre o assunto. Considere dois sorveteiros em uma faixa de praia.

Cada um deles, de maneira experimental, tenta várias opções para deixar o seu carrinho ou quiosque, mas a competição acirrada faz com que os dois percebam que o ponto mais lucrativo deve ser mesmo o centro da praia.

Ainda que na política a analogia seja válida, vale o alerta de que nem a praia e nem a política real têm consumidores distribuídos de maneira uniforme.

Tampouco podemos imaginar que os mais de 155 milhões de eleitores brasileiros tenham preferências organizadas como a famosa “curva do sino.”

Todos que acompanham as pesquisas de intenção de voto percebem retratos de um eleitorado polarizado em dois grandes picos comumente chamados de esquerda e direita, mesmo que as pessoas tenham dificuldade em compreender seus fundamentos.

Nesse cenário, as candidaturas do ex-governador de Goiás e o de Minas Gerais ao Executivo Federal parecem ser balões de ensaio para examinar se há mesmo fôlego para a moderação.

Ambos investem em temas que fisgam nossa atenção como a segurança pública, o combate à corrupção e a modernização do Estado. Além disso, defendem a anistia do ex-presidente Bolsonaro.

Estão de olho no mesmo eleitor de Flávio Bolsonaro e de outros descontentes com Lula da Silva e o mais recente ex-presidente. Difícil especular se eles conseguem mesmo mirar no eleitor mediano.

O grande erro de aplicar o teorema resulta da confusão entre os conceitos de mediana e média. A mediana é uma medida que divide o eleitorado exatamente ao meio, ou seja, uma metade prefere estar mais à esquerda, enquanto a outra, à direita.

Ela só se iguala com a média aritmética quando as preferências do espectro ideológico se distribuem de forma simétrica como a famosa “curva do sino.”

Porém, hoje, temos intenções de votos que sugerem uma distribuição com dois picos e, por isso, a mediana pode estar em uma região diferente do que se espera de um eleitorado de preferência moderada, nem progressista e nem conservador.

Isso quer dizer que o teorema caducou? Não, ele apenas precisa ser melhor interpretado. Para começar, o eleitor real não tem preferências unidimensionais.

Há todo o tipo de gente: conservadores nos costumes e liberais na economia; liberais em tudo; conservadores nos costumes e intervencionistas; e combinações que desafiam o entendimento sobre o eixo esquerda-direita.

Além disso, o espectro ideológico não é estático: aumento da violência, novos escândalos de corrupção, mudanças tecnológicas e transformações econômicas variadas transformam as crenças dos eleitores.

A metáfora da praia do matemático muda a forma da faixa de areia assim como os sorveteiros candidatos deslocam-se para ganharem mais clientes ou votos.

O baixo entusiasmo com o governo de plantão pode ser um indício da mudança. O eleitor de hoje provavelmente não parece mais seduzido pelos programas de assistência; eles já são tidos como obrigação do Executivo Federal. Sendo assim, apostar todas as fichas no debate nessa pauta pode ser tão arriscado quanto a estratégia do microempreendedor tentando vender sorvete numa praia em que pessoas desejam bebidas ricas em proteína.

Se a analogia estiver correta, vale especular se o eleitor mediano busca um Estado moderno que reduza custos de transação, resolva o sério problema de segurança e combata o câncer da corrupção.

Talvez o eleitor não queira que o Estado resolva tudo para ele e tampouco deseje que a solução de todos os seus problemas venha do Estado; só anseie que o Estado limpe o jardim para que ele possa plantar o que precisar ou desejar. Afinal, não é disso que se trata o desenvolvimento humano?

Certamente, nem tudo é economia, a despeito do slogan de James Carville na campanha de Bill Clinton em 1992 “It´s the economy, stupid.” Não há como negar que a política tem muito das paixões, identidades e investidas tribais, que desafiam a lógica do cálculo racional.

Sendo assim, vale seguir o aviso do Nobel de Economia Amartya Sen, em seu “Identidade e Violência”: perigoso é acreditar em uma única identidade tribal que precisa rivalizar e destruir outras para sobreviver. Steven Pinker chama atenção para nossos dois chips mais importantes: nascemos com o do instinto de sobrevivência e o da racionalidade, é uma conquista cultural e merece ser preservada. Sem eles fica difícil neutralizar a marcha da insensatez.

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