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O eleitor mediano sumiu da corrida presidencial deste ano?

A corrida presidencial segue a todo vapor, trazendo uma pergunta que creio valer uma quantia milionária: o teorema do eleitor mediano da ciência econômica explica a conjuntura política do Brasil?

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Professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Pesquisadora do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica.

A corrida presidencial segue a todo vapor, trazendo uma pergunta que creio valer uma quantia milionária: o teorema do eleitor mediano da ciência econômica explica a conjuntura política do Brasil?

O tal teorema, enunciado inicialmente pelo economista escocês Duncan Black, na década de 1940, prevê que candidatos com chance de vitória devem mirar em campanhas voltadas para o centro do espectro ideológico.

A lógica é a seguinte: em uma democracia com regra de maioria, aquele que se distancia do meio dá votos de bandeja para o seu rival ocupar o espaço.

O matemático Harold Hotelling, em 1929, ofereceu um raciocínio rigoroso e visualmente impactante sobre o assunto. Considere dois sorveteiros em uma faixa de praia.

Cada um deles, de maneira experimental, tenta várias opções para deixar o seu carrinho ou quiosque, mas a competição acirrada faz com que os dois percebam que o ponto mais lucrativo deve ser mesmo o centro da praia.

Ainda que na política a analogia seja válida, vale o alerta de que nem a praia e nem a política real têm consumidores distribuídos de maneira uniforme.

Tampouco podemos imaginar que os mais de 155 milhões de eleitores brasileiros tenham preferências organizadas como a famosa “curva do sino.”

Todos que acompanham as pesquisas de intenção de voto percebem retratos de um eleitorado polarizado em dois grandes picos comumente chamados de esquerda e direita, mesmo que as pessoas tenham dificuldade em compreender seus fundamentos.

Nesse cenário, as candidaturas do ex-governador de Goiás e o de Minas Gerais ao Executivo Federal parecem ser balões de ensaio para examinar se há mesmo fôlego para a moderação.

Ambos investem em temas que fisgam nossa atenção como a segurança pública, o combate à corrupção e a modernização do Estado. Além disso, defendem a anistia do ex-presidente Bolsonaro.

Estão de olho no mesmo eleitor de Flávio Bolsonaro e de outros descontentes com Lula da Silva e o mais recente ex-presidente. Difícil especular se eles conseguem mesmo mirar no eleitor mediano.

O grande erro de aplicar o teorema resulta da confusão entre os conceitos de mediana e média. A mediana é uma medida que divide o eleitorado exatamente ao meio, ou seja, uma metade prefere estar mais à esquerda, enquanto a outra, à direita.

Ela só se iguala com a média aritmética quando as preferências do espectro ideológico se distribuem de forma simétrica como a famosa “curva do sino.”

Porém, hoje, temos intenções de votos que sugerem uma distribuição com dois picos e, por isso, a mediana pode estar em uma região diferente do que se espera de um eleitorado de preferência moderada, nem progressista e nem conservador.

Isso quer dizer que o teorema caducou? Não, ele apenas precisa ser melhor interpretado. Para começar, o eleitor real não tem preferências unidimensionais.

Há todo o tipo de gente: conservadores nos costumes e liberais na economia; liberais em tudo; conservadores nos costumes e intervencionistas; e combinações que desafiam o entendimento sobre o eixo esquerda-direita.

Além disso, o espectro ideológico não é estático: aumento da violência, novos escândalos de corrupção, mudanças tecnológicas e transformações econômicas variadas transformam as crenças dos eleitores.

A metáfora da praia do matemático muda a forma da faixa de areia assim como os sorveteiros candidatos deslocam-se para ganharem mais clientes ou votos.

O baixo entusiasmo com o governo de plantão pode ser um indício da mudança. O eleitor de hoje provavelmente não parece mais seduzido pelos programas de assistência; eles já são tidos como obrigação do Executivo Federal. Sendo assim, apostar todas as fichas no debate nessa pauta pode ser tão arriscado quanto a estratégia do microempreendedor tentando vender sorvete numa praia em que pessoas desejam bebidas ricas em proteína.

Se a analogia estiver correta, vale especular se o eleitor mediano busca um Estado moderno que reduza custos de transação, resolva o sério problema de segurança e combata o câncer da corrupção.

Talvez o eleitor não queira que o Estado resolva tudo para ele e tampouco deseje que a solução de todos os seus problemas venha do Estado; só anseie que o Estado limpe o jardim para que ele possa plantar o que precisar ou desejar. Afinal, não é disso que se trata o desenvolvimento humano?

Certamente, nem tudo é economia, a despeito do slogan de James Carville na campanha de Bill Clinton em 1992 “It´s the economy, stupid.” Não há como negar que a política tem muito das paixões, identidades e investidas tribais, que desafiam a lógica do cálculo racional.

Sendo assim, vale seguir o aviso do Nobel de Economia Amartya Sen, em seu “Identidade e Violência”: perigoso é acreditar em uma única identidade tribal que precisa rivalizar e destruir outras para sobreviver. Steven Pinker chama atenção para nossos dois chips mais importantes: nascemos com o do instinto de sobrevivência e o da racionalidade, é uma conquista cultural e merece ser preservada. Sem eles fica difícil neutralizar a marcha da insensatez.

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Editorial

É preciso maturidade acima da disputa

O cidadão comum, que não participa diretamente do conflito, acaba sendo arrastado para uma polarização que pouco contribui para a construção de soluções

19/06/2026 07h15

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A poucos meses das eleições, Mato Grosso do Sul volta a conviver com conflitos fundiários envolvendo indígenas e proprietários rurais. Nesta edição, o leitor acompanha novos episódios de ocupações de fazendas em Sidrolândia e Amambai, municípios que há décadas convivem com disputas relacionadas à posse da terra e à demarcação de territórios indígenas.

O retorno dessas tensões justamente em período eleitoral é motivo de preocupação. Não apenas pelos riscos de confrontos, insegurança e prejuízos materiais, mas também porque conflitos dessa natureza costumam ser absorvidos pelo debate político de forma simplificada, emocional e muitas vezes irresponsável.

É lamentável que ações como essas ocorram em um momento em que a sociedade deveria estar concentrada na discussão de propostas para o futuro do Estado e do País. Em vez disso, temas complexos acabam transformados em instrumentos de mobilização eleitoral.

De um lado, ocupações de propriedades rurais alimentam discursos de intolerância e radicalização frequentemente explorados por setores políticos que rejeitam qualquer discussão sobre a necessidade de ampliar ou regularizar áreas destinadas às comunidades indígenas.

De outro, também não se pode ignorar que ações dessa natureza acabam ampliando a pressão política em um período de grande visibilidade pública, gerando repercussão muito além dos limites do conflito.

O problema é que, quando isso acontece, o debate perde qualidade. Questões que exigem análise jurídica, histórica, antropológica e social passam a ser tratadas sob a lógica da disputa eleitoral.

O espaço para a razão diminui. Crescem os discursos inflamados, as narrativas simplificadas e as posições extremadas.

Quem mais perde com esse cenário é justamente a sociedade. O cidadão comum, que não participa diretamente do conflito, acaba sendo arrastado para uma polarização que pouco contribui para a construção de soluções.

Em vez de compreender a complexidade do problema, passa a receber mensagens destinadas a provocar indignação ou reforçar posicionamentos políticos já estabelecidos.

Também é preciso reconhecer que a solução dessas disputas não será encontrada em ocupações, confrontos ou discursos de campanha.

A questão fundiária envolvendo comunidades indígenas é antiga e depende da atuação coordenada dos governos, do Poder Judiciário, dos proprietários rurais e das próprias comunidades.

Demarcações de terras, indenizações, reassentamentos e regularizações fundiárias exigem tempo, segurança jurídica e diálogo permanente.

São processos complexos que não avançam pela força da pressão política momentânea nem pela exploração eleitoral dos conflitos.

Mato Grosso do Sul já acumulou experiências suficientes para compreender que a radicalização não produz vencedores duradouros. Ao contrário, aprofunda divisões e dificulta entendimentos futuros.

O que se espera é responsabilidade. Os conflitos precisam ser tratados com serenidade pelas autoridades e com maturidade pelos diversos atores envolvidos. 

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A geração Z é menos inteligente ou apenas desafia conceitos ultrapassados?

Durante mais de 120 anos, a principal ferramenta utilizada para medir inteligência foi o teste de quociente de inteligência, o famoso QI

18/06/2026 07h30

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Pela primeira vez em mais de um século de medições, estudos internacionais apontam uma desaceleração nos índices médios de QI entre os mais jovens.

O fenômeno, observado em levantamentos realizados na Europa, nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas, levou parte da imprensa a uma conclusão apressada: a geração Z estaria se tornando menos inteligente do que as gerações anteriores.

A interpretação, porém, ignora uma transformação profunda que vem ocorrendo na forma como a inteligência é compreendida pela ciência, pela educação e pelo mercado de trabalho.

Durante mais de 120 anos, a principal ferramenta utilizada para medir inteligência foi o teste de quociente de inteligência, o famoso QI.

Criado em 1905 pelo psicólogo francês Alfred Binet, o instrumento foi desenvolvido para avaliar habilidades relacionadas principalmente ao raciocínio lógico-matemático e à linguagem.

Ao longo do século 20, tornou-se a principal referência para medir capacidades cognitivas e influenciou sistemas educacionais, processos seletivos e até políticas públicas em diversos países.

O problema é que o teste nunca pretendeu medir toda a complexidade da inteligência humana.

Ele avalia apenas determinadas competências cognitivas e não contempla inúmeras habilidades que influenciam o desempenho acadêmico, profissional e social dos indivíduos.

Essa limitação começou a ser questionada de forma mais contundente em 1983, quando o psicólogo Howard Gardner, da Universidade Harvard, publicou a obra “Frames of Mind”. Resultado de anos de pesquisa, a teoria das inteligências múltiplas propôs uma ruptura com o modelo tradicional ao defender que os seres humanos têm, pelo menos, oito formas distintas de inteligência: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, naturalista, interpessoal e intrapessoal.

A tese foi posteriormente reforçada pelos avanços da neurociência. Se no início do século 20 predominava a crença de que a inteligência era praticamente imutável, hoje a ciência reconhece a capacidade de adaptação do cérebro humano por meio da neuroplasticidade, permitindo o desenvolvimento de habilidades ao longo de toda a vida.

Nesse contexto, surgiram ferramentas capazes de avaliar competências além daquelas tradicionalmente mensuradas pelos testes de QI. Uma das mais conhecidas é o Multiple Intelligences Developmental Assessment Scales (Midas), desenvolvido pelo pesquisador norte-americano Branton Shearer, da Universidade de Ohio e colaborador dos estudos de Gardner.

O instrumento avalia oito inteligências e 25 habilidades associadas, oferecendo um retrato mais amplo das potencialidades individuais.

No Brasil, a metodologia foi adaptada pelo professor Roberto Corazza sob o nome Avaliação das Múltiplas Inteligências (AMI).

Após quase uma década de estudos, validações e aplicações em instituições educacionais, a ferramenta passou a ser utilizada para auxiliar escolas na identificação de talentos e competências frequentemente invisíveis aos modelos tradicionais de avaliação.

Os resultados desse novo olhar sobre a inteligência encontram respaldo também no mercado de trabalho.

Uma pesquisa realizada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), em parceria com a consultoria McKinsey, identificou que aproximadamente 70% das maiores empresas globais já incorporaram critérios relacionados a habilidades socioemocionais nos seus processos de contratação e promoção profissional.

Empresas como Itaú, Nubank, Google, Amazon, Microsoft, Meta, Santander e Coca-Cola figuram entre as organizações que passaram a valorizar competências como comunicação, colaboração, adaptabilidade, criatividade, liderança e inteligência emocional em níveis equivalentes ou superiores aos conhecimentos técnicos específicos.

O levantamento aponta ainda que profissionais capazes de trabalhar em equipe, resolver problemas complexos, comunicar ideias com clareza e lidar com mudanças constantes apresentam desempenho superior em ambientes organizacionais cada vez mais impactados pela automação e pela inteligência artificial.

Os números ajudam a compreender uma aparente contradição. Se os jovens da geração Z apresentam desempenho inferior em alguns indicadores tradicionais de QI, como explicar o crescente número de empreendedores, criadores de conteúdo, desenvolvedores de tecnologia e fundadores de startups que alcançam sucesso antes dos 30 anos?

A resposta pode estar justamente nas competências que os testes convencionais não conseguem medir adequadamente.

Trata-se de uma geração que cresceu conectada. Antes mesmo de concluir o ensino médio, muitos jovens já haviam interagido com pessoas de diferentes países, aprendido a produzir conteúdo para audiências globais, administrado comunidades digitais e desenvolvido repertórios de comunicação em ambientes altamente competitivos.

Essas experiências contribuem para o fortalecimento de inteligências interpessoais, intrapessoais e espaciais, áreas cada vez mais valorizadas por organizações que precisam inovar em ritmo acelerado.

Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial altera profundamente o valor relativo das competências humanas. Conhecimentos técnicos podem ser pesquisados em segundos.

Cálculos complexos são realizados instantaneamente por sistemas automatizados. Informações estão disponíveis em abundância.

O diferencial competitivo passa a residir em capacidades que as máquinas ainda não reproduzem plenamente: empatia, criatividade, liderança, julgamento ético, negociação, visão estratégica e compreensão das relações humanas.

Diante desse cenário, talvez a pergunta correta não seja se a geração Z é mais ou menos inteligente do que as gerações anteriores.

A questão central é se continuamos utilizando instrumentos concebidos para uma realidade de 1905 para avaliar jovens que vivem em um mundo radicalmente diferente.

A educação enfrenta um desafio semelhante. Persistir exclusivamente em métricas construídas para medir desempenho acadêmico tradicional pode significar ignorar talentos essenciais para a economia do século 21.

O mercado já percebeu essa mudança. Grandes empresas já adaptaram seus processos. Muitas escolas começam a fazer o mesmo.

O verdadeiro debate não está na suposta perda de inteligência da nova geração. Está na necessidade de reconhecer que a inteligência humana é muito mais ampla, diversa e dinâmica do que qualquer número isolado pode representar.

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