O escândalo envolvendo o Banco Master não pode ser analisado apenas sob a ótica criminal, financeira ou regulatória. A eventual responsabilização de executivos, banqueiros, agentes públicos e demais envolvidos cabe às autoridades competentes.
O Banco Central, a Polícia Federal e a Justiça terão a missão de apurar responsabilidades e de aplicar as sanções cabíveis. Mas existe uma discussão mais ampla e talvez mais importante: o modelo de negócio que permitiu que tudo isso prosperasse.
Não basta falar sobre as investigações sem olhar para a engrenagem que movimentava parte desse sistema. Em especial, merece a atenção a estratégia de oferecer crédito consignado por meio de cartões de crédito, um produto que, na prática, muitas vezes se apresentava ao consumidor como um empréstimo convencional.
Para milhares de servidores públicos, aposentados e pensionistas, a percepção era simples: estavam contratando um consignado com parcelas definidas e prazo determinado para terminar.
A realidade, porém, era outra. O desconto em folha frequentemente quitava apenas o valor mínimo da fatura do cartão. O restante da dívida permanecia ativo, submetido aos juros do crédito rotativo.
O resultado era previsível: um compromisso financeiro que parecia administrável se transformava em uma obrigação com longo prazo, difícil de compreender e ainda mais difícil de liquidar. É justamente nesse ponto em que a discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser ética.
A legalidade de determinados contratos pode ser objeto de disputa nos tribunais. Mas é legítimo questionar se um produto dessa natureza deveria ser oferecido a públicos frequentemente vulneráveis, com pouca familiaridade com conceitos financeiros complexos e confiantes na segurança que a palavra “consignado” tradicionalmente transmite.
Ao mesmo tempo em que essa máquina de crédito produzia receitas bilionárias, vieram à tona relatos de uma rotina marcada pelo luxo e pela ostentação. Viagens internacionais, festas extravagantes e gastos milionários passaram a ocupar espaço no noticiário envolvendo Daniel Vorcaro.
Ainda que cada despesa possa ter uma justificativa formal, o contraste é inevitável. De um lado, consumidores presos a dívidas que pareciam não diminuir. Do outro, ele e seus apaniguados da política desfrutando dos benefícios produzidos por esse sistema.
A imagem remete a uma reflexão antiga sobre os excessos do poder e do dinheiro. Quando o lucro se transforma no único parâmetro relevante, o risco é perder de vista os efeitos humanos das decisões econômicas.
O crédito deixa de ser um instrumento de inclusão financeira para se tornar apenas uma ferramenta de extração de renda.
Esse talvez seja um dos principais defeitos da financeirização desregulada da economia. Tudo passa a ser transformado em ativo, contrato, operação ou produto financeiro.
O resultado, muitas vezes, se aproxima perigosamente da lógica da agiotagem: ganhos elevados para poucos e riscos concentrados sobre quem tem menos informação e menor capacidade de defesa.
O caso do Banco Master deve servir como alerta. Mais do que investigar pessoas, é necessário revisar práticas. Mais do que punir responsáveis, é preciso impedir que modelos semelhantes continuem prosperando.

