Artigos e Opinião

ARTIGOS

O crescimento do populismo no mundo

Embora assuma formas diferentes consoante os contextos políticos e culturais, há características comuns que o definem, como a retórica da divisão entre "o povo puro" e "a elite corrupta"

Continue lendo...

O populismo, outrora um fenômeno esporádico e localizado, tornou-se, nas últimas décadas, uma força global. De Donald Trump nos Estados Unidos a Lula e Jair Bolsonaro no Brasil, de Giorgia Meloni na Itália a Viktor Orbán na Hungria, passando por movimentos populistas em França, Polônia, Argentina e até Portugal, assistimos à emergência ou consolidação de lideranças políticas que se reclamam da “vontade do povo” contra as elites.

Mas o populismo é um sintoma ou uma doença da democracia? Estará em crescimento sustentado ou apenas a surfar ondas temporárias de descontentamento? A resposta exige uma leitura crítica do nosso tempo.

Embora o populismo assuma formas diferentes consoante os contextos políticos e culturais, há características comuns que o definem: a retórica da divisão entre “o povo puro” e “a elite corrupta”, o ataque às instituições tradicionais (como parlamentos, justiça e imprensa), a promessa de soluções simples para problemas complexos, e uma liderança forte, carismática e autoritária.

O crescimento do populismo tem sido evidente não só em países em desenvolvimento, mas também em democracias consolidadas, onde, paradoxalmente, deveria haver mais resistência a este tipo de discurso.

Segundo vários estudos internacionais, o número de eleitores que se identificam com partidos populistas triplicou desde os anos 1990.

Entre os fatores que alimentam o populismo, estão as crises econômicas e a desigualdade. A crise financeira de 2008, a austeridade que se seguiu, a precarização do trabalho e o aumento da desigualdade foram o terreno fértil para o crescimento populista.

Milhões de cidadãos sentiram que o sistema econômico deixou de os representar, tornando-se terreno fértil para promessas de ruptura e combate ao sistema.

Mais recentemente, a pandemia e a inflação aceleraram esta sensação de perda de segurança econômica, tornando os discursos simplistas ainda mais apelativos.

Nos últimos tempos, tem crescido a desconfiança nas instituições democráticas. A percepção de que os partidos tradicionais são todos iguais, de que os políticos servem interesses privados, ou de que a justiça é lenta e parcial, mina a legitimidade democrática.

Neste cenário, os populistas se apresentam como antissistema, mesmo quando integram ou aspiram ao poder.

Há, ainda, a considerar que muitos movimentos populistas de direita exploram o receio de perda de identidade cultural, associando a imigração e a multiculturalidade a uma suposta ameaça aos valores nacionais.

A globalização, ao promover a circulação de pessoas, bens e ideias, é apresentada como uma força que dilui as fronteiras e enfraquece a soberania nacional.

O populismo promete, assim, “recuperar o controle”: das fronteiras, da economia, da cultura.

Outra frente de impulso são as redes sociais, que revolucionaram a forma como os cidadãos se informam e participam politicamente. Permitiram acesso direto a líderes, mas também facilitaram a desinformação, o discurso de ódio e a polarização.

Os populistas, geralmente bons comunicadores, sabem explorar estas plataformas para amplificar as suas mensagens, contornar as mídias tradicionais e atacar os adversários sem filtros.

Quem cresce mais é o populismo de direita, que ganha mais visibilidade midiática, especialmente na Europa e América. Já o populismo de esquerda – que denuncia as elites econômicas, o neoliberalismo, e promete justiça social e redistribuição – tem se arrefecido nos últimos tempos.

Ambos têm em comum o apelo direto ao povo, a desconfiança nas instituições e a rejeição dos partidos tradicionais. No entanto, diferem profundamente nas suas propostas políticas, com a direita focada na identidade e ordem, e a esquerda na igualdade e inclusão.

Que consequências o crescimento do populismo tem para a democracia? O efeito sobre o sistema democrático é ambíguo.

Por um lado, obriga o sistema a ouvir os marginalizados e a corrigir excessos de tecnocracia ou afastamento político. Por outro, fragiliza a democracia liberal ao atacar a separação de poderes, a liberdade de imprensa e os direitos das minorias.

Em regimes mais frágeis, os populistas no poder podem caminhar para o autoritarismo, silenciando a oposição, controlando os tribunais e alterando regras eleitorais. A democracia se transforma então numa casca institucional com pouco conteúdo pluralista.

Vejamos o caso de Portugal, onde o populismo teve expressão marginal durante décadas, mas a partir da última década viu-se o crescimento de partidos como o Chega, que canalizam o descontentamento social com uma retórica populista, securitária e nacionalista.

Ainda que longe de dominar o sistema, os seus resultados nas eleições e impacto no discurso público são significativos.

Tal como noutros países, o populismo português nasce do descontentamento acumulado com as políticas tradicionais, do medo face à mudança e da sensação de injustiça permanente.

Em suma, o populismo está a crescer no mundo, não como uma aberração, mas como uma resposta – legítima ou não – a falhas reais das democracias contemporâneas. Desigualdade, insegurança, corrupção e desinformação são combustível constante deste tipo de discurso.

Enfrentar o populismo exige mais do que condená-lo moralmente. Requer reformar as instituições, reduzir as desigualdades, promover literacia política e devolver dignidade à ação pública. Só assim será possível responder às angústias do presente sem sacrificar os princípios fundamentais da democracia.

Editorial

Amigo de uma vida no mundo dos políticos

Será que algum político realmente acreditava que Vorcaro e Ciro Nogueira eram realmente apenas amigos?

11/05/2026 07h15

Continue Lendo...

Desde que veio a público a declaração de Daniel Vorcaro classificando o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, como “um grande amigo de vida”, estava claro, até para alguém que não é especialista em entender o mundo da política, que esta amizade não era gratuita.

A prova disso tinha sido a tentativa do senador do Piauí de emplacar um projeto que elevava de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em caso de quebra de algum banco.

Mesmo assim, a classe política continuava fazendo de conta que Vorcaro tinha feito aquelas declarações porque realmente nutria um afeto genuíno e ímpar pelo político. As aplicações financeiras bilionárias de fundos públicos no Master feitas por Rio de Janeiro, Amapá, Amazonas e até Campo Grande, neste caso, haviam sido mera coincidência. 

O partido que ele comanda recebeu uma infinidade de filiações, como se realmente fosse o arauto do “Deus, pátria e família”. O pré-candidato à Presidência deste mesmo grupo continuou cortejando-o para ser seu vice, e Nogueira, aparentemente, levou adiante sua vida como se realmente fosse um dos melhores líderes dos chamados homens de bem. 

Se as declarações do ex-banqueiro Vorcaro, que vieram a público em meados de novembro do ano passado, não significaram nada de relevante ou intrigante para todos esses políticos, que mais do que ninguém conhecem os bastidores e sabem que neste mundo em que vivem não existe amizade gratuita, então, só restam algumas conclusões: ou são muito ingênuos, ou são muito néscios (para não usar o termo burros), ou acreditaram que alguém “passaria pano”, ou tinham explícito interesse em tirar alguma vantagem dessas amizades que um dos mais influentes políticos da atualidade conseguia angariar. 

Criminalmente, a operação da Polícia Federal (PF) que encontrou batom nas mais diferentes vestimentas do senador significa pouco. Até um possível julgamento em última instância, ele continua sendo inocente.

Politicamente, porém, as revelações de que esta “amizade de uma vida” custava supostos R$ 500 mil por mês provocou abalos até agora imensuráveis. Prova deste abalo é o silêncio em uma era em que as redes sociais são palanques extremamente estridentes.

Em Mato Grosso do Sul, deputados, senadores, prefeitos e até governador literalmente fugiram do assunto. Em outras situações, inclusive quando foi encontrado um saco de lixo cheio de cédulas no quarto do líder do PL na Câmara, ele veio a público para se defender e aliados seus transformaram-no em vítima de perseguição política. Desta vez, porém, nem essa alegação está sendo utilizada. 

É bem possível e provável que os dados sobre o senador estivessem nas mãos da PF há semanas ou meses e só vieram a público como forma de reação à derrota imposta ao presidente Lula no Senado na semana anterior, quando seu indicado ao Supremo

Tribunal Federal (STF) foi rejeitado pela maioria. Na guerra política, todos os ataques e contra-ataques tendem a ser friamente calculados, até mesmo quando partem da Polícia Federal. Mas, ao contrário do que ocorre atualmente com o STF, as investidas da PF ainda são passíveis de credibilidade.

No entanto, ela só continuará vigorosa se as próximas revelações bombásticas não vieram com cara nem de ataque e muito menos de contra-ataque. Pelo menos alguma instituição precisa ficar fora dessa guerra, embora essa crença possa se parecer com a mais infantil ingenuidade. 

Assine o Correio do Estado

ARTIGOS

Diplomacia da urgência

Em um cenário onde nada ocorre no vácuo, o aperto de mãos entre Lula e Donald Trump é menos sobre amizade e mais sobre sobrevivência, tanto interna quanto global

09/05/2026 07h45

Continue Lendo...

A diplomacia, por vezes, assemelha-se a um tabuleiro de xadrez jogado em meio a um terremoto. A visita de Lula à Casa Branca é a prova de que a necessidade política ignora afinidades ideológicas. O encontro, adiado por meses em razão de atritos sobre Venezuela e Irã, ocorreu sob o signo do improviso e da urgência.

Em um cenário onde nada ocorre no vácuo, o aperto de mãos entre Lula e Donald Trump é menos sobre amizade e mais sobre sobrevivência, tanto interna quanto global.

O pano de fundo imediato não está em Washington, mas em Pequim. Com uma viagem à China no horizonte, Trump busca “munição econômica”, e o Brasil detém aquilo que interessa aos americanos: a abundância de minerais críticos.

Diante da tentativa chinesa de monopolizar as cadeias produtivas de energia limpa, o Brasil se consolida como um ativo estratégico.

Para Lula, negociar o acesso a esses recursos não é apenas uma transação, mas o reconhecimento de uma relevância estratégica mútua com os Estados Unidos, oferecendo ao Brasil a chance de se consolidar como pilar da economia global.

Além disso, fica evidente que a principal razão para essa visita é a eleição de outubro. Com um Brasil rachado e o bolsonarismo ganhando força, Lula parece ter suavizado o discurso de esquerda em favor de uma estética de centro.

A ida à Casa Branca é uma tentativa de convencer o eleitor moderado de que ele é o único capaz de manter o País relevante, independentemente de quem ocupe o Salão Oval.

Entretanto, a manobra pode ser interpretada como sinal de fraqueza, pois, ao buscar a validação de Trump para “furar a bolha”, Lula admite que sua base original já não basta. É um jogo perigoso que pode alienar a militância sem necessariamente converter moderados e o agro, setor que permanece vinculado à oposição.

Na economia, o cenário é de um otimismo modesto. Se o petróleo em alta favorece a balança comercial, o custo dos fertilizantes drena a vitalidade do campo. Lula tentou impedir novas tarifas americanas, tema que Trump confirmou ser central em seu perfil oficial, classificando o líder brasileiro como “dinâmico”.

Embora o encontro tenha sido considerado positivo, os resultados concretos foram empurrados para o futuro, com representantes agendados para discutir “elementos-chave” nos próximos meses.

A segurança transnacional também pairou sobre a agenda. A tendência de Washington de designar facções criminosas como terroristas, algo necessário para enfrentar o crime, preocupa o Itamaraty por um suposto risco de intervenções em ativos financeiros que afetem a soberania bancária nacional. Infelizmente nada parece ter avançado neste ponto.

O saldo da visita é um misto de alívio momentâneo e incerteza. Lula conseguiu a foto, o adjetivo elogioso e uma agenda de trabalho, operando em um modo de gestão de danos. O presidente brasileiro saiu de Washington com promessas de diálogo, mas sem garantias sólidas contra o protecionismo.

A visita mostrou um líder que, acuado pela polarização, está disposto a jogar o jogo transnacional de Trump. Se essa aposta resultará em votos, só o tempo dirá.

Por ora, o que se vê é uma aliança que, embora nascida da conveniência, abre portas necessárias para o Brasil, dependendo agora da habilidade de Brasília de transformar a cortesia de Trump em benefícios permanentes. A conferir.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).