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O custo do líder sabotador de talentos

Em muitos casos, o maior obstáculo ao desenvolvimento institucional não está na base, mas exatamente em quem controla a porta de entrada do talento

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Líder maduro não teme gente boa. Ao contrário: mede parte do próprio sucesso pela capacidade de formar pessoas melhores, mais preparadas e, eventualmente, capazes de ocupar espaços maiores. Líder inseguro faz o oposto. Prefere quem não o confronta, não o supera e não ameaça o seu conforto.

Esse é um ponto que estruturas sérias precisam enfrentar. Em muitos casos, o maior obstáculo ao desenvolvimento institucional não está na base, mas exatamente em quem controla a porta de entrada do talento.

E aqui surge uma pergunta inevitável: quem controla o controlador – de talentos, nesse caso? A pergunta seguinte é igualmente incômoda: está se escolhendo os melhores para crescer ou aqueles que melhor se ajustam politicamente às zonas de conforto de quem decide?

A literatura recente tem dado nome a esse fenômeno. Pesquisas da Harvard Business School descrevem a chamada “sabotagem de cima para baixo”, em que gestores bloqueiam ou retardam o avanço de subordinados de alto desempenho.

Em estudo com 335 executivos, mais de 70% afirmaram já ter presenciado esse tipo de prática ao longo da carreira, e cerca de 30% relataram tê-la observado diretamente em suas estruturas.

O dado mais revelador, contudo, está na motivação: aproximadamente 21% apontaram o medo de perda de status como principal causa, enquanto apenas 3,3% atribuíram o comportamento a razões financeiras.

O problema, portanto, não é técnico. É humano. Em estruturas hierárquicas, o talento deixa de ser um ativo e passa a ser percebido como risco. O subordinado competente pode se tornar, aos olhos do gestor inseguro, um potencial concorrente ou alguém capaz de reduzir sua relevância.

Esse bloqueio raramente é explícito. O que ocorre é um conjunto de microescolhas que, somadas, produzem contenção: menos exposição, menos autonomia, menos oportunidades.

Tudo com justificativas plausíveis. Esse é o aspecto mais sofisticado – e perigoso – do problema. A sabotagem não se apresenta como sabotagem. Disfarça-se de prudência, cautela ou avaliação técnica.

Talento raramente é interrompido de forma brusca. Ele vai sendo reduzido, até que, um dia, perde-se alguém que poderia ter sido decisivo para o salto de qualidade que se buscava.

Decisões passam a refletir percepções individuais, e não critérios objetivos. O processo decisório se empobrece: perde repertório, reduz o contraditório, estreita a diversidade de pensamento e aumenta o risco de erro. É nesse ponto que o tema deixa de ser apenas de gestão de pessoas e passa a ser, claramente, de governança.

Porque não se trata apenas de desenvolver talentos, mas de proteger o processo decisório contra vieses, vaidades e interesses pessoais.

Estruturas maduras não terceirizam esse desafio para o equilíbrio emocional de seus líderes. Reforçam mecanismos de accountability, ampliam a transparência decisória e vinculam a liderança à formação de sucessores.

Sem isso, a meritocracia vira narrativa. No discurso, valoriza-se desempenho. Na prática, tolera-se a proteção de território e vaidades. Selecionam-se não os melhores, mas os mais convenientes. E, nesse cenário, perde-se mais do que pessoas. Perde-se potência organizacional.

No fim, a pergunta canônica permanece: quem controla o controlador?

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Reciclagem que gera valor para o País

Em meio ao avanço da crise climática e o crescimento acelerado na geração de resíduos, discutir formas eficientes de reaproveitamento passa a ser uma urgência coletiva

07/05/2026 07h45

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A reciclagem deixou de ser apenas uma alternativa sustentável para se tornar um dos pilares centrais no debate sobre o futuro ambiental do planeta.

Em meio ao avanço da crise climática e o crescimento acelerado na geração de resíduos, discutir formas eficientes de reaproveitamento passa a ser uma urgência coletiva.

Mais do que uma prática ambientalmente correta, reciclar representa hoje um compromisso indispensável com a preservação de recursos, a redução de impactos ambientais e a construção de uma sociedade mais consciente sobre o próprio consumo.

De acordo com um levantamento realizado pelo Movimento Plástico Transforma, em parceria com o Qualibest, 64% dos brasileiros já separam com frequência resíduos orgânicos e recicláveis em casa. Entretanto, os respondentes enfrentam a falta de coleta seletiva onde moram.

Mesmo com a dificuldade de destinação do resíduo separado, o levantamento mostra que a reciclagem já está inserida na vida de mais de metade dos brasileiros, não apenas em uma questão ambiental, mas também quando o assunto é economia.

A reciclagem de plásticos integra uma cadeia produtiva forte, capaz de gerar emprego, renda e inovação, e colabora com vantagens competitivas em diferentes indústrias.

O setor de reciclagem vem se consolidando como um vetor importante da economia circular no País, movimentando bilhões de reais anualmente e contribuindo para o fortalecimento da indústria nacional.

Outro dado importante, divulgado no ano passado, é o Índice de Reciclagem Mecânica do Plástico no Brasil. Segundo o levantamento, o País reciclou cerca de 21% dos plásticos pós-consumo em 2024, o que resultou na produção de 1,012 milhão de toneladas de resina plástica reciclada (PCR).

Esse desempenho colocou o País entre os maiores recicladores de plástico da América Latina e movimentou cerca de R$ 4 bilhões em faturamento no ano, evidenciando a relevância econômica do setor.

Além da questão financeira, a reciclagem de plástico é fundamental na geração de empregos. Somente em 2024, o setor registrou a criação de mais de 20 mil novos postos de trabalho diretos, um crescimento de aproximadamente 7,7% em relação ao ano anterior.

Esses empregos estão distribuídos ao longo de toda a cadeia, desde organizações de catadores de materiais recicláveis e centrais de triagem até indústrias de reprocessamento e transformação, reforçando o caráter social e produtivo da atividade.

Outro aspecto relevante, é a crescente demanda da indústria por matéria-prima reciclada. Setores como alimentos e bebidas, higiene pessoal, cosméticos, limpeza doméstica e agroindústria ampliaram de forma significativa o uso de resinas recicladas, impulsionados por compromissos ambientais, exigências regulatórias e metas corporativas ligadas à economia circular.

Esse movimento foi reforçado pela criação do Decreto nº 12.688, assinado em 21 de outubro de 2025, que institui o Sistema Nacional de Logística Reversa de Embalagens de Plástico, estabelecendo metas obrigatórias de reciclagem e uso de plástico reciclado (PCR).

Medidas como essas contribuem para otimizar custos produtivos e estimular investimentos em tecnologias de reciclagem no País, assim como aspectos de sustentabilidade.

Portanto, investir na reciclagem de plástico vai além do cuidado ambiental, trata-se de uma estratégia econômica para o desenvolvimento sustentável do País.

O fortalecimento da coleta seletiva, o incentivo à logística reversa e o apoio às cadeias de reciclagem podem ampliar a geração de renda, promover a inclusão social e colocar o Brasil como protagonista na transição para uma economia mais circular, forte e competitiva.

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Desenrola 2.0: o consumidor entre a cruz e a espada

Dados recentes do Banco Central evidenciam que as dívidas bancárias comprometem quase metade da renda das famílias

07/05/2026 07h30

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O número de brasileiros endividados chegou a 81,7 milhões em 2026, conforme os dados disponibilizados pelo Mapa da Inadimplência, do Serasa. Trata-se de um recorde histórico.

Esse levantamento mostra um ciclo de endividamento crônico, agravado pela ampliação irresponsável do acesso ao crédito e aumento da taxa de juros.

Além disso, dados recentes do Banco Central evidenciam que as dívidas bancárias comprometem quase metade da renda das famílias.

Nesse contexto, à medida que a eleição se aproxima, o governo acaba de lançar um pacote de “socorro” a endividados, para incentivar o consumo e evitar a desaceleração econômica.

O Desenrola 2.0 é um programa de renegociação de dívidas que promete descontos entre 20% e 90% para contas com juros altos, como cartão de crédito, cheques especiais e crédito pessoal. O trunfo principal é a disponibilização do uso de até 20% do FGTS para quitar as inadimplências.

Embora paliativo, o programa não resolve o problema no longo prazo. Isso porque a realidade social do Brasil é marcada pela assimetria de informação e falta de educação financeira para as pessoas mais vulneráveis.

Assim, se os milhões de consumidores que voltarão a ter acesso ao crédito não forem efetivamente capazes de administrar as finanças, cairão em uma armadilha que aprofunda o ciclo de endividamento e compromete a renda.

A euforia no lançamento da medida esconde uma realidade complexa: milhões de brasileiros apenas “sairão da inadimplência” com a aquisição de um novo crédito, via renegociação.

No entanto, sem educação financeira, há grandes chances de que voltem ao mesmo status por não conseguirem arcar com a nova parcela da dívida renegociada ou por contrair dívidas paralelas. Cuida-se de um remendo que trata o sintoma, mas não a causa.

O desespero dos consumidores para regularizar sua situação financeira pode fazer com que aceitem qualquer proposta de renegociação, caindo no canto da sereia e se endividando novamente.

O crédito deixa de ser um instrumento legítimo de inclusão econômica e passa a ser uma armadilha quando é concedido sem responsabilidade. Isso ocorre, por exemplo, quando instituições financeiras oferecem crédito de forma agressiva, sem avaliar a capacidade de pagamento do consumidor ou quando ocultam o real custo da operação.

Não há como negar que parte do mercado financeiro se beneficia indiretamente do endividamento crônico dos consumidores, seja por meio dos juros elevados, renegociações sucessivas ou pela própria dinâmica do crédito rotativo.

Embora a inadimplência não seja o objetivo central, o sistema financeiro muitas vezes se estrutura de forma a tolerar – e até lucrar com – o atraso constante.

O problema ultrapassa a esfera econômica e se torna jurídico quando a desigualdade informacional impõe ao consumidor uma onerosidade excessiva. A lógica da boa-fé e do crédito responsável impõe limites claros à atuação das instituições financeiras.

Sem isso, o sistema deixa de corrigir distorções e passa a reproduzi-las.

Em vez de anunciar aos sete ventos soluções simples para problemas extremamente complexos, faria bem o poder público se começasse por enfrentar as causas estruturais do endividamento, ainda que não renda votos.

Sem isso, o Desenrola 2.0 não passará de alívio imediato, deixando o consumidor preso ao mesmo dilema de sempre. Entre a cruz e a espada.

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