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O imposto que não aparece no cardápio, mas muda tudo na operação

O ponto é que esse imposto não funciona como os demais. Ele é monofásico e não gera crédito tributário

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Eu tenho a impressão de que a reforma tributária deste ano ainda está sendo lida pelo varejo de alimentos como um tema distante, quase teórico.

Mas, no balcão de um bar ou na cozinha de um restaurante, ela já começou a mudar a lógica do negócio, e não é pela alíquota em si, mas pela forma como o imposto passa a existir dentro da operação.

O chamado Imposto Seletivo, criado com a promessa de desestimular o consumo de produtos associados a impactos negativos à saúde e ao meio ambiente, atinge diretamente itens que fazem parte do dia a dia do food service, como bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas.

Não é um detalhe, é parte relevante do faturamento de bares, restaurantes e casas noturnas em todo o País.

O ponto é que esse imposto não funciona como os demais. Ele é monofásico e não gera crédito tributário.

Traduzindo para a prática, o custo tributário desses produtos não se dilui ao longo da cadeia. Ele se concentra e aparece com mais força na ponta.

E é aí que a operação começa a mudar. Não basta mais vender, será preciso separar, classificar e tratar cada item de forma distinta dentro do sistema fiscal.

Produtos sujeitos ao Imposto Seletivo terão que ser segregados corretamente, com enquadramento preciso. Não é uma escolha operacional, é uma exigência.

Desse modo, isso cria uma nova camada de complexidade dentro de um setor que já opera com margens apertadas e alta sensibilidade a preço.

A forma como cada produto é registrado passa a influenciar diretamente a precificação e, por consequência, o comportamento do consumidor.

“Isso vai impactar a precificação para o consumidor final e também as margens de lucro, já apertadas, do setor”, ponderou uma consultora tributária com quem conversei recentemente. A leitura é objetiva: não se trata apenas de pagar mais imposto, mas de reorganizar a forma como o negócio funciona.

A incerteza ainda é um fator adicional que torna esse cenário mais delicado. Embora a Lei Complementar 
nº 214/2025 já tenha definido quais produtos estarão sujeitos ao Imposto Seletivo, as alíquotas ainda dependem de regulamentação. Ou seja, o setor sabe o que será tributado, mas ainda não sabe quanto.

Isso cria um intervalo perigoso entre obrigação e planejamento. Sem a alíquota definida, não é possível medir com precisão o impacto financeiro. Ainda assim, as empresas já precisam se preparar, porque a estrutura operacional não se ajusta da noite para o dia.

A previsão é de que o imposto entre em vigor em 2027. Pode parecer distante, mas não é. Sistemas de gestão, cadastros de produtos, classificação fiscal, integração com o financeiro, tudo isso precisa estar pronto antes.

Quem deixar para ajustar depois vai operar no improviso em um ambiente que não tolera erros.

O ponto que me chama a atenção é que o discurso de saúde pública e sustentabilidade, que sustenta a criação do imposto, pode produzir efeitos colaterais relevantes no ambiente econômico.

Especialmente para pequenos empreendedores, que têm menos capacidade de absorver custos ou investir em adaptação tecnológica.

Não vai aparecer no cardápio, mas vai estar embutido em cada decisão, do cadastro do produto ao preço final na mesa.

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O tempo da guerra do governo de Trump

Se a Guerra Fria foi marcada pela disputa entre dois blocos ideológicos e as primeiras décadas do século 21 pelo combate ao terrorismo, o atual cenário geopolítico parece cada vez mais definido pela competição entre Estados Unidos e China

16/06/2026 07h45

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O possível encerramento do conflito entre Estados Unidos e Irã permite uma reflexão mais ampla sobre a natureza da política externa adotada por Donald Trump em seu segundo mandato.

Mais do que analisar uma guerra específica, o momento convida à compreensão da lógica temporal que orienta a atuação norte-americana diante das transformações da ordem internacional.

Se a Guerra Fria foi marcada pela disputa entre dois blocos ideológicos e as primeiras décadas do século 21 pelo combate ao terrorismo, o atual cenário geopolítico parece cada vez mais definido pela competição entre Estados Unidos e China.

Nesse contexto, o tempo tornou-se um fator estratégico. Diferentemente da expansão chinesa, construída ao longo de décadas por meio de investimentos, comércio, infraestrutura e acordos econômicos, a estratégia de Trump exige resultados rápidos.

Guerras prolongadas geram desgaste político, aumentam a inflação, elevam os custos energéticos e dificultam a reorganização das prioridades americanas. Por isso, o objetivo não é ocupar territórios nem administrar conflitos intermináveis, mas atingir metas específicas em um curto espaço de tempo.

O conflito com o Irã deve ser interpretado dentro dessa lógica. Além das questões relacionadas ao programa nuclear iraniano e à segurança de Israel, havia interesses mais amplos em jogo.

Entre eles, o controle da matriz energética baseada no petróleo, a estabilidade das rotas comerciais do Oriente Médio e a tentativa de dificultar o avanço da influência chinesa em uma das regiões mais estratégicas do planeta.

A energia continua sendo um elemento central da economia mundial, e qualquer potência que deseje manter sua posição de liderança precisa garantir capacidade de influência sobre sua circulação e seus preços.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos buscaram redesenhar o equilíbrio regional. O enfraquecimento de grupos aliados ao Irã no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iêmen reduziu parte da capacidade de projeção de poder de Teerã.

Paralelamente, abriu-se espaço para uma nova dinâmica envolvendo Arábia Saudita, Turquia e Irã, na qual Israel busca consolidar uma condição de maior segurança militar e econômica após os ataques promovidos pelo Hamas em outubro de 2023.

Embora a expansão territorial israelense continue sendo tema de controvérsias e debates internacionais, é inegável que a percepção de vulnerabilidade existente antes daqueles ataques foi profundamente alterada.

Entretanto, os ganhos geopolíticos não eliminam os custos internos. A inflação permaneceu como uma preocupação para o governo americano, e a própria imagem de Trump sofreu desgastes em determinados setores da opinião pública.

Por essa razão, o encerramento do conflito torna-se tão importante quanto sua condução. O presidente necessita agora converter resultados militares e diplomáticos em estabilidade econômica, reduzindo as pressões inflacionárias e fortalecendo sua posição política.

O aspecto mais interessante desse processo talvez seja a comparação entre os modelos de poder atualmente em disputa. A China avança como uma sucuri: envolve parceiros comerciais, amplia investimentos, cria dependências econômicas e exerce pressão gradual ao longo do tempo.

Os Estados Unidos, por sua vez, agem de maneira mais semelhante a uma serpente venenosa: seus movimentos são mais rápidos, diretos e concentrados, buscando produzir efeitos imediatos por meio da combinação de força militar, sanções econômicas e pressão diplomática.

Essa diferença ajuda a compreender o significado do tempo na geopolítica contemporânea. Enquanto Pequim pode dosar sua influência, Washington enfrenta os limites dos ciclos eleitorais, da opinião pública e dos resultados econômicos de curto prazo.

O tempo da China é secular. O tempo de Trump é administrado pelos segundos de seus posts.

Talvez essa seja a principal lição deixada pelo conflito com o Irã. Mais do que uma guerra regional, ele representa um capítulo da disputa pelo futuro da ordem internacional.

E, nessa disputa, o relógio corre em velocidades diferentes para cada potência.

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Os decanos da política de MS

Em tempos marcados pela superficialidade e pela velocidade das opiniões, torna-se cada vez mais difícil encontrar líderes capazes de compreender que o poder não deve servir ao ego, mas ao povo

16/06/2026 07h30

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A experiência, a longevidade e a sabedoria são qualidades que deveriam caminhar lado a lado com a sociedade, sobretudo dentro da política, espaço em que decisões moldam o presente e o futuro de milhões de pessoas.

Entretanto, encontrar verdadeiros decanos que preservem tais virtudes tornou-se quase como procurar uma agulha no palheiro. São homens e mulheres raros, que mantêm raízes profundas de humildade sem perder a firmeza de sua personalidade. 

Em tempos marcados pela superficialidade e pela velocidade das opiniões, torna-se cada vez mais difícil encontrar líderes capazes de compreender que o poder não deve servir ao ego, mas ao povo.

O ex-presidente Barack Obama certa vez afirmou que “o verdadeiro teste do caráter não é o modo como chegamos ao poder, mas como o exercemos quando o conquistamos”.

E talvez seja justamente nesse ponto que muitos se percam: esquecem que cargos são passageiros, mas os valores permanecem.

Os decanos da política não recebem esse título por nomeação. Em uma democracia, eles são escolhidos pelo voto de homens, mulheres e jovens que depositam esperança em suas palavras e atitudes. Por isso, a responsabilidade não pertence apenas aos líderes, mas também à sociedade que os escolhe e os acompanha.

Assim, em meio às transformações do mundo moderno, resta a reflexão: estamos valorizando a experiência e a sabedoria ou apenas a popularidade momentânea? Afinal, como canta o compositor Lulu Santos, “assim caminha a humanidade”.

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