Artigos e Opinião

EDITORIAL

O mar de lama do Banco Master

Se não fosse a PF, parte desse emaranhado poderia ficar restrita às relações privadas entre quem oferecia dinheiro, quem recebia contratos e quem movimentava recursos

Continue lendo...

Quando o leitor conecta algumas das reportagens desta edição, percebe que o caso do Banco Master está longe de ser apenas a história da quebra de uma instituição financeira.

O estrago provocado pelas operações que levaram à insolvência do banco de Daniel Vorcaro, hoje preso, alcança fundos previdenciários, investidores e instituições públicas. O escândalo, que veio à tona com a liquidação do banco, já ultrapassou o mercado financeiro e repercute em Brasília, abalando a República.

Pudera. As investigações revelam uma rede de relações que precisa ser esclarecida.

Vorcaro mantinha contrato de mais de R$ 100 milhões com o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes, enquanto recursos atribuídos ao banqueiro também foram destinados ao financiamento – mais de R$ 100 milhões também – do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.

A Polícia Federal (PF) investiga a origem e o destino desses valores. Não cabe antecipar conclusões, mas exigir que tudo seja esclarecido.

A engrenagem financeira que sustentou o crescimento do Master também merece atenção. De um lado, CDBs com remuneração acima da média atraíam investidores, numa estrutura que acabou ruindo. De outro, está sob investigação a captação de bilhões de reais de fundos previdenciários de estados e municípios.

Dinheiro destinado a garantir aposentadorias acabou exposto ao risco de uma instituição que não conseguiu honrar seus compromissos.

Campo Grande está entre as cidades atingidas. O Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (IMPCG) investiu recursos do fundo previdenciário no Banco Master, e outra reportagem desta edição mostra a dificuldade para recuperar esse dinheiro.

O que deveria estar protegido para assegurar o futuro de aposentados e pensionistas tornou-se parte de uma disputa judicial. É a prova de como um escândalo que parece distante chega diretamente ao patrimônio dos servidores.

Por isso, o caso não pode ser tratado apenas como uma questão entre banqueiros, investidores e reguladores.

Quando recursos previdenciários são aplicados em uma instituição que oferece remuneração elevada, é indispensável saber quem autorizou a operação, quais critérios foram utilizados e quais riscos foram avaliados.

Quanto mais as investigações avançam, maior fica a dimensão política do caso. A PF revelou conexões, apreendeu documentos, rastreou mensagens e levou à prisão pessoas ligadas ao esquema.

A investigação também provocou crise institucional, depois que o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, foi afastado por decisão do ministro André Mendonça e posteriormente reintegrado. O episódio mostra a pressão sobre as instituições e a necessidade de preservar a autonomia da investigação.

De parabéns, portanto, está a Polícia Federal. Se não fosse a investigação, boa parte desse emaranhado poderia permanecer restrita às relações privadas entre quem oferecia dinheiro, quem recebia contratos e quem movimentava recursos.

O caso do Master envolve dinheiro público, fundos de aposentadoria, relações com autoridades e suspeitas que alcançam diferentes grupos políticos. Viram a dimensão do escândalo?

Artigo

Quem cuida de quem cuida?

Quando o cansaço bate forte, a gente costuma achar que a nossa força simplesmente acabou ou que não estamos dando conta

13/10/2026 07h20

Continue Lendo...

Olhar para uma tomada cheia de adaptadores e cabos ligados ao mesmo tempo ajuda a entender o que acontece com a gente no dia a dia.

Quando o cansaço bate forte, a gente costuma achar que a nossa força simplesmente acabou ou que não estamos dando conta. Mas quase nunca paramos para olhar o principal: quantas tarefas, cobranças e pessoas dependem dessa mesma fonte sem que ela tenha um tempo para respirar e se abastecer?

Essa conta pesa ainda mais para quem vive no papel de cuidar. Mães, pais, professores, profissionais da saúde e todas as pessoas que seguram a barra emocional de quem está ao redor acabam virando essa tomada central. O mundo espera que elas estejam sempre prontas, firmes e dispostas a resolver tudo.

O problema é que cuidar não pode ser um caminho de mão única. Quem cuida quase sempre guarda para si um recado silencioso: o de que o seu próprio cansaço, a sua dor e os seus limites podem esperar. O resultado disso é um esgotamento que ninguém vê, uma dor que não ganha espaço e o hábito de engolir o que se sente.

Nenhuma estrutura aguenta o tranco sem queimar quando é exigida além da conta. Por isso, olhar para quem cuida e oferecer suporte não é uma gentileza opcional, é o básico para que essa pessoa continue bem e de pé.

Essa missão não pode ficar nas costas de uma pessoa só. A família, o ambiente de trabalho e os amigos precisam enxergar o cuidador além da figura forte que resolve tudo. Ele também precisa de escuta, de momentos de pausa, de ajuda prática e de colo.

Antes de cobrar presença e entrega o tempo todo, precisamos abrir espaço para o descanso. Desconectar algumas tomadas, dizer não para o excesso e colocar limites não é egoísmo. É o único jeito de não deixar a nossa própria luz apagar.

Artigo

Voto feminino é uma história que vai além da eleição presidencial

Hoje, as mulheres constituem a maioria do eleitorado brasileiro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são aproximadamente 83,9 milhões de eleitoras em 2026, equivalentes a 52,84% do total

13/10/2026 07h15

Continue Lendo...

O debate sobre o voto feminino reúne questões de cidadania, autonomia e participação nas decisões públicas. No Brasil, esse direito foi reconhecido pelo Código Eleitoral de 1932 e incorporado à Constituição de 1934, após um processo de mobilização em que participaram mulheres como Bertha Lutz, bióloga, educadora, diplomata e política brasileira. Conhecer essa trajetória permite compreender que a presença feminina na política tem uma história de organização e reivindicação.

Hoje, as mulheres constituem a maioria do eleitorado brasileiro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são aproximadamente 83,9 milhões de eleitoras em 2026, equivalentes a 52,84% do total.

Essa maioria numérica, porém, reúne experiências, condições econômicas e posições políticas diversas. Não é um contingente homogêneo.

Também há diferenças na definição do voto. Em pesquisa do Datafolha divulgada em setembro, a pergunta espontânea sobre a eleição presidencial encontrou indecisão entre 32% das mulheres e 19% dos homens.

Paralelamente, as redes sociais deram visibilidade ao fenômeno das tradwives, influenciadoras que apresentam modelos de vida centrados na dedicação doméstica e em papéis tradicionais de gênero.

Pesquisas sobre essas criadoras de conteúdo examinam a tensão entre a promoção da dependência feminina e o trabalho comercial desenvolvido por elas próprias nas plataformas digitais. A escolha pessoal de se dedicar ao lar e a defesa de restrições à autonomia das mulheres são questões distintas.

A discussão sobre participação política, entretanto, abrange mais do que a disputa presidencial, pois as eleições em 2026 também abrangem os governos estaduais, o Senado, a Câmara dos Deputados e as assembleias estaduais e a Câmara Legislativa do Distrito Federal. Cada uma dessas instituições exerce atribuições próprias.

Na esfera federal, o Legislativo participa da elaboração das leis e da fiscalização do Executivo. A Câmara dos Deputados, por exemplo, atua no acompanhamento de despesas, na análise de contas e na fiscalização financeira e orçamentária. Essas funções ajudam a explicar por que a composição do parlamento tem consequências para a administração pública, independentemente de quem ocupa a Presidência.

A história do voto feminino e o funcionamento das instituições oferecem, assim, duas dimensões complementares para compreender as eleições: quem participa das escolhas públicas e quais poderes serão exercidos pelos representantes eleitos. Há um campo de discussão sobre cidadania e representação que vai além da polarização presidencial.

Madeleine Albright, política e secretária de Estado dos EUA entre 1997 e 2001, dizia que “há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam outras mulheres”. A frase incomoda e talvez seja justamente esse o seu valor: colocar sob exame a distância entre defender a igualdade e abrir espaço para que outras participem das decisões.

Ser maioria entre quem vota e ter acesso aos espaços de poder são coisas diferentes. Essa distância merece atenção para além da disputa presidencial. Que obstáculos ainda limitam a participação feminina? Como a solidariedade entre mulheres convive com nossas diferenças políticas? E o que significa representação em uma sociedade na qual as experiências das mulheres são tão diversas?

Uma sociedade mais justa e equitativa passa também pela qualidade dessas respostas. O voto feminino tem uma história de conquistas, mas igualdade na participação pública continua sendo uma questão do presente.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).