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Toda empresa deveria se preparar para continuar sem o fundador

01/09/2026 00h03

COLUNISTA ARTHUR MAXIMILIANO

COLUNISTA ARTHUR MAXIMILIANO

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Muitos empresários passam décadas pensando em como fazer a empresa crescer. Buscam mais clientes, aumentam faturamento, contratam pessoas, abrem novas unidades e constroem patrimônio.

Mas existe uma pergunta que quase sempre fica para depois: o que acontece com a empresa quando o fundador não estiver mais ali?

Essa não é apenas uma pergunta sobre aposentadoria. É uma pergunta sobre continuidade.

O empresário pode decidir reduzir o ritmo, se afastar da operação, enfrentar algum problema de saúde ou simplesmente desejar assumir um papel diferente no negócio. Quando praticamente todas as decisões, relacionamentos e informações continuam concentrados nele, a empresa possui uma fragilidade.

E essa fragilidade normalmente não aparece no balanço.

Durante anos, o fundador acumula conhecimento. Conhece os clientes importantes, fornecedores, acordos, funcionários, processos e exceções. Enquanto ele está presente, tudo parece funcionar.

O problema começa quando esse conhecimento não pertence à empresa, mas apenas à pessoa.

Por isso, sucessão empresarial deveria começar antes de existir necessidade de sucessão.

Preparar uma empresa para continuar não significa escolher imediatamente quem será o próximo dono.

Significa criar condições para que o negócio funcione sem depender exclusivamente de uma única pessoa.

Processos precisam estar claros. Responsabilidades precisam ser distribuídas. Informações importantes precisam ser registradas. Lideranças precisam ser desenvolvidas. Clientes estratégicos não podem depender apenas do relacionamento com o fundador.

Nas empresas familiares, o desafio costuma ser ainda maior.

Nem sempre o filho quer assumir. Nem sempre quem quer assumir está preparado. E parentesco não deveria ser o único critério para escolher quem liderará o próximo ciclo da empresa.

Sucessão não deveria começar pelo sobrenome.

Deveria começar pela pergunta: qual perfil de liderança essa empresa precisará daqui para frente?

Outro ponto importante é entender que o sucessor não precisa administrar exatamente como o fundador.

O mercado muda. A tecnologia muda. Os consumidores mudam. As formas de trabalhar mudam.

O desafio está em preservar aquilo que faz parte da identidade da organização sem transformar o legado em resistência à mudança.

Legado não significa repetir o passado.

Significa permitir que aquilo que foi construído continue gerando valor no futuro.

Existe também uma dificuldade pouco discutida: o próprio fundador precisa aprender a sair do centro.

Em muitos negócios, a pessoa afirma que quer delegar, mas continua interferindo em cada decisão. Entrega responsabilidade, mas mantém toda a autoridade. Nomeia alguém para liderar, mas continua exercendo informalmente o mesmo papel.

Nesse cenário, a nova liderança nunca consegue realmente começar.

Por isso, uma sucessão saudável também precisa definir qual será o papel de quem deixa a operação.

Pode ser conselho, relacionamento institucional, novos negócios ou uma retirada gradual. O importante é existir clareza.

Uma pergunta simples ajuda a identificar o grau de dependência: se o fundador precisasse ficar seis meses longe da empresa, o que deixaria de funcionar?

Se clientes deixariam de comprar, existe dependência comercial.

Se decisões ficariam paradas, existe dependência de liderança.

Se ninguém soubesse como determinados processos funcionam, existe dependência de conhecimento.

Esse exercício é útil mesmo para empresários que ainda não pensam em aposentadoria.

Porque uma empresa preparada para funcionar sem o fundador tende a ser também uma empresa mais madura.

Mais processos.

Mais autonomia.

Mais lideranças.

Mais conhecimento institucional.

E menos dependência individual.

Criar uma empresa é uma grande conquista.

Construir uma empresa capaz de continuar forte sem depender permanentemente de quem a fundou é outra.

E talvez seja justamente aí que começa o verdadeiro legado empresarial.

direito previdenciário

INSS nega mais benefícios em 2026: o que esses números revelam e como evitar um pedido mal formulado

28/08/2026 00h03

Juliane Penteado

Juliane Penteado

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Os números do primeiro semestre de 2026 chamam a atenção de quem trabalha com Direito Previdenciário e deveriam chamar também a atenção de toda a sociedade.

Entre janeiro e junho, o INSS registrou 4.319.336 benefícios indeferidos, um crescimento de 69,8% em comparação com o mesmo período do ano anterior. No mesmo intervalo, foram concedidos 4.239.522 benefícios.

Isso significa que, nos primeiros seis meses do ano, o INSS negou mais benefícios do que concedeu.

O dado, por si só, merece reflexão. Mas há outro número ainda mais significativo: 2.762.767 dessas negativas estavam relacionadas aos benefícios por incapacidade, correspondendo a aproximadamente 64% dos indeferimentos.

Para além das estatísticas, estamos falando de milhões de pessoas que procuraram o sistema previdenciário e receberam como resposta um “não”.

E aqui surge uma pergunta que considero mais importante do que simplesmente discutir se o INSS está “negando demais”: por que tantos benefícios estão sendo indeferidos e o que pode ser feito antes de um requerimento previdenciário?

Nem todo indeferimento significa que o INSS errou

Esse é um esclarecimento necessário.

Um benefício pode ser negado porque o segurado efetivamente não preenche os requisitos legais. Mas também pode ser indeferido porque determinado período contributivo não foi reconhecido, porque existem inconsistências no Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS), porque faltou documentação ou porque uma exigência administrativa não foi cumprida.

Existem ainda situações em que o segurado possui o direito, mas não consegue demonstrá-lo adequadamente no processo administrativo.

Essa distinção é fundamental.

O Direito Previdenciário não se resume à existência abstrata de um direito. É necessário também demonstrar, por meio de documentos e provas adequadas, que os requisitos previstos na legislação foram preenchidos.

Por isso, um dos equívocos que observo com frequência é tratar o requerimento administrativo como um simples preenchimento de formulário.

Não é.

O pedido de um benefício é um processo administrativo e, como tal, exige atenção à prova, aos requisitos legais e à história previdenciária daquele segurado.

Ter uma doença não significa, necessariamente, estar incapaz para o trabalho

O expressivo número de negativas nos benefícios por incapacidade merece uma análise particular.

Nessa categoria estão, entre outros, o benefício por incapacidade temporária, conhecido durante muitos anos como auxílio-doença, e a aposentadoria por incapacidade permanente, antiga aposentadoria por invalidez.
Existe uma confusão bastante comum entre doença e incapacidade.

Uma pessoa pode ter uma doença grave, crônica ou degenerativa e continuar capaz para determinada atividade profissional. Da mesma forma, uma condição aparentemente menos grave pode produzir limitações significativas dependendo do trabalho desempenhado pelo segurado.

É por isso que, em matéria previdenciária, o diagnóstico médico não deve ser analisado isoladamente.

É preciso perguntar: como essa condição de saúde interfere concretamente na capacidade daquela pessoa para exercer o seu trabalho?

Um problema de coluna pode ter repercussões muito diferentes para alguém que exerce atividade predominantemente administrativa e para um trabalhador que passa o dia carregando peso. Uma limitação nos membros superiores pode produzir consequências distintas para um professor, um pedreiro, uma costureira ou um motorista.

A incapacidade é, portanto, uma realidade que precisa ser compreendida também a partir do trabalho efetivamente exercido.

Essa percepção, embora pareça simples, faz enorme diferença na construção da prova previdenciária.

Antes de pedir um benefício, é preciso conhecer a própria história previdenciária

Outro ponto que considero essencial é a análise do histórico contributivo.

O CNIS é uma espécie de fotografia da vida previdenciária do trabalhador, mas nem sempre essa fotografia está completa.

Podem existir vínculos ausentes, remunerações incorretas, contribuições não computadas ou períodos que dependem de documentação complementar.

Por isso, antes de protocolar um requerimento, é importante conferir se aquilo que consta nos sistemas do INSS corresponde à realidade profissional do segurado.

Também é necessário identificar exatamente quais requisitos precisam ser demonstrados naquele benefício: idade, carência, tempo de contribuição, qualidade de segurado, atividade especial, deficiência ou incapacidade, conforme o caso.

E existe uma questão que considero especialmente importante: ter direito a uma aposentadoria não significa, necessariamente, que aquele seja o melhor momento para se aposentar.

Em determinados casos, alguns meses adicionais de contribuição, a correção de remunerações ou o reconhecimento de períodos que não aparecem corretamente no CNIS podem produzir diferenças relevantes na renda futura.

Por isso, a análise previdenciária não deveria responder apenas à pergunta “já posso me aposentar?”, mas também a outra: “qual será o impacto financeiro dessa decisão ao longo dos próximos anos?”

É nesse ponto que o planejamento previdenciário deixa de ser apenas uma contagem de tempo e passa a ser uma ferramenta de decisão.

Nos benefícios por incapacidade, a documentação precisa contar uma história

Atestados, relatórios, exames e prontuários são importantes. Mas acumular documentos médicos não significa necessariamente construir uma boa prova.

A documentação precisa permitir compreender a evolução da doença, as limitações apresentadas, os tratamentos realizados e, sobretudo, a repercussão daquele quadro sobre o trabalho.

Esse é um ponto que tenho enfatizado também em sala de aula: a prova previdenciária precisa dialogar com o requisito jurídico que se pretende demonstrar.

Um relatório médico pode ser tecnicamente excelente e, ainda assim, dizer pouco sobre incapacidade laboral se apenas mencionar o diagnóstico e o tratamento.

Nos casos em que isso for clinicamente possível, a descrição das limitações funcionais e de sua repercussão sobre as atividades profissionais pode oferecer elementos muito mais relevantes para a análise previdenciária.

E quando o INSS diz “não”?

A negativa não deve ser ignorada, mas também não deve provocar uma reação automática.

Protocolar sucessivos requerimentos sem compreender por que o anterior foi indeferido pode simplesmente reproduzir o mesmo problema.

O primeiro passo deveria ser analisar a decisão.

O INSS não reconheceu a qualidade de segurado? Entendeu que não havia carência? Desconsiderou determinado vínculo? A perícia concluiu pela capacidade para o trabalho? Faltou algum documento?
Somente depois dessa análise é possível avaliar o caminho adequado.

Em algumas situações, poderá existir fundamento para recurso administrativo. Em outras, um novo requerimento poderá ser mais adequado. Há também casos em que será necessário discutir a questão perante o Poder Judiciário.

Não existe uma solução universal porque não existem duas histórias previdenciárias absolutamente iguais.
O que mais de quatro milhões de negativas deveriam nos ensinar?

Ao longo da minha trajetória como professora e advogada previdenciarista, tenho defendido que informação previdenciária também é uma forma de proteção social.

Os números de 2026 reforçam essa percepção.

Um sistema previdenciário cada vez mais digital e complexo exige do cidadão conhecimentos que muitas vezes ele não possui. E é justamente aí que existe um desafio importante para nós, profissionais do Direito: traduzir regras complexas sem banalizá-las e construir caminhos que permitam ao segurado compreender os próprios direitos.

Planejar um requerimento não significa criar um direito que não existe, nem garantir que o benefício será concedido. Significa identificar corretamente os requisitos, organizar a prova e permitir que a Administração tenha condições de analisar aquilo que efetivamente aconteceu na vida daquele trabalhador.

Da mesma forma, uma negativa do INSS não significa automaticamente que houve uma injustiça, mas também não significa necessariamente que o cidadão não tenha direito.

Entre o “sim” e o “não” existe algo essencial no Direito Previdenciário: a análise do caso concreto.

E talvez seja essa a principal mensagem que os números do primeiro semestre de 2026 nos deixam. Antes de pedir, é preciso conhecer. Antes de desistir diante de uma negativa, é preciso compreender.

Porque, quando falamos de Previdência Social, não estamos tratando apenas de processos administrativos. Estamos falando de renda, trabalho, doença, envelhecimento e, sobretudo, da segurança de milhões de pessoas e de suas famílias.

*  Juliane Penteado Santana é advogada previdenciarista, professora, palestrante e autora. Há mais de duas décadas atua no estudo e na defesa dos direitos sociais e na promoção da educação previdenciária.

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