Artigos e Opinião

EDITORIAL

Caos que não pode ser normalizado

É lamentável que um hospital tão importante para Campo Grande e Mato Grosso do Sul esteja permanentemente envolvido em problemas financeiros

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Nesta edição, mais uma vez, mostramos o caos financeiro da Santa Casa de Campo Grande e suas implicações. E elas têm se agravado somadas à má gestão financeira do hospital.

Não há mais como aceitar a justificativa de que a Santa Casa é um hospital de “portas abertas” e que, por isso, os recursos públicos repassados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nunca são suficientes para equilibrar as contas.

É evidente que pode haver insuficiência de recursos para manter uma estrutura desse porte, mas a falta de dinheiro não pode servir como explicação permanente para um cenário de desorganização financeira. Talvez faltem recursos, mas não ao ponto de justificar o caos atual.

Quando uma instituição recebe recursos públicos em valores expressivos, a sociedade tem o direito de saber como esse dinheiro é utilizado. E é justamente aí que está um dos maiores problemas da Santa Casa: falta transparência.

As contas e os contratos de terceirização não permitem compreender com clareza onde estão os custos. É preciso saber se não há situações injustas, com muita gente produzindo pouco enquanto recebe muito dinheiro.

Não se trata de acusar ninguém sem provas, mas de exigir que os números permitam afastar dúvidas. A falta de transparência abre espaço para questionamentos sobre a eficiência dos contratos e da estrutura administrativa da Santa Casa de Campo Grande. Uma gestão responsável deveria esclarecer essas questões.

Também chama atenção o peso dos juros pagos mensalmente pela instituição. São milhões de reais que deixam de ser destinados à atividade hospitalar para remunerar dívidas acumuladas. Em algum momento, é preciso atacar as causas do problema.

A Santa Casa também poderia ter mais capacidade de gerar caixa e depender menos dos repasses do SUS. Isso exigiria planejamento e revisão de despesas, processos e contratos. Aparentemente, não há um trabalho consistente nessa direção.

É lamentável que um hospital tão importante para Campo Grande e Mato Grosso do Sul esteja permanentemente envolvido em problemas financeiros. Parte dessas dificuldades pode decorrer não apenas da falta de recursos, mas também de uma gestão que não demonstra eficiência e transparência.

A Santa Casa de Campo Grande precisa de recursos, mas precisa também de gestão. Precisa do Sistema Único de Saúde, mas deve buscar reduzir sua dependência.

E precisa, principalmente, abrir suas contas para distinguir aquilo que é efetivamente falta de dinheiro daquilo que pode ser consequência de decisões administrativas equivocadas. Sem isso, o problema continuará sendo empurrado para o futuro, enquanto a conta ficará para a sociedade.

Artigo

Pix: quando uma inovação brasileira passa a chamar a atenção do mercado global

De acordo com dados do Banco Central, mais de 80% da população brasileira já utiliza o Pix

08/09/2026 07h20

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Poucas tecnologias conseguiram transformar tão rapidamente o comportamento financeiro de um país quanto o Pix. Lançado pelo Banco Central em 2020, o sistema de pagamentos instantâneos já movimentou 
R$ 84,9 trilhões até setembro de 2025, deixando de ser apenas uma alternativa às transferências bancárias para se tornar a principal infraestrutura de pagamentos do Brasil.

Hoje, pagar uma conta, fazer compras, transferir dinheiro ou receber um pagamento em segundos faz parte da rotina de milhões de brasileiros, uma mudança que também começa a despertar a atenção do mercado internacional.

Os números ajudam a explicar esse fenômeno. De acordo com dados do Banco Central, mais de 80% da população brasileira já utiliza o Pix e, somente em janeiro deste ano, foram registradas aproximadamente 7 bilhões de transações.

No comércio eletrônico, sua relevância também cresce de forma acelerada. O Global Payments Report 2026 aponta que o Pix já responde por 42% das transações do e-commerce brasileiro, consolidando-se como um dos principais meios de pagamento do País e uma referência mundial em pagamentos digitais.

O impacto dessa transformação foi profundo em todo o mercado financeiro: o Pix deixou de ser apenas um meio de pagamento para se tornar uma plataforma sobre a qual novos serviços financeiros vêm sendo construídos, estimulando a competição e reduzindo barreiras para a digitalização da economia.

Não por acaso, o modelo brasileiro passou a ser observado por diversos países que buscam modernizar seus sistemas de pagamentos.

Recentemente, o Pix ganhou ainda mais visibilidade internacional ao ser citado como um modelo de referência por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, em discussões sobre comércio e inovação financeira envolvendo o Brasil.

O episódio evidencia os impactos de uma solução desenvolvida para atender a demandas de consumo brasileiras e que, rapidamente, se consolidou e alcançou relevância suficiente para integrar o debate econômico global.

O interesse internacional não surge apenas da tecnologia em si, mas da combinação entre infraestrutura pública eficiente, ampla adesão da população e capacidade de gerar inovação em escala. Poucos sistemas de pagamentos no mundo conseguiram atingir, em tão pouco tempo, um nível tão elevado de utilização por consumidores, empresas e pequenos negócios.

O futuro do Pix também aponta para novas oportunidades. A integração com inteligência artificial permitirá experiências de pagamento ainda mais personalizadas, automatizando processos, aprimorando a prevenção a fraudes e oferecendo recomendações financeiras em tempo real.

Para as empresas, acompanhar essa evolução deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade estratégica. Organizações que conseguirem integrar novas tecnologias, oferecer experiências fluidas e utilizar os dados gerados pelos pagamentos de forma inteligente estarão mais preparadas para atender às expectativas de consumidores cada vez mais digitais.

O Pix nasceu como uma inovação brasileira voltada à eficiência do sistema financeiro. Seis anos depois, tornou-se um exemplo de como políticas públicas, tecnologia e colaboração entre regulador e mercado podem criar soluções capazes de transformar uma economia inteira e, agora, inspirar o restante do mundo.

Editorial

O combate ao crime precisa se organizar

Não é razoável que criminosos consigam estabelecer alianças, atravessar fronteiras e movimentar recursos com mais eficiência do que as instituições públicas

08/09/2026 07h10

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Nesta edição, o Correio do Estado volta a publicar informações sobre a guerra de facções entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). O conflito, que já provoca violência em outras unidades da Federação, chegou a Mato Grosso do Sul e mostra que o crime organizado não respeita fronteiras estaduais.

O agravamento dessa guerra também expõe fragilidades do nosso sistema de segurança pública, sobretudo pela falta de articulação entre os Estados brasileiros.

O crime se movimenta de um Estado para outro com facilidade, utiliza rotas interestaduais, movimenta dinheiro, drogas e armas e estabelece conexões que ultrapassam até as fronteiras nacionais. O poder público, porém, ainda encontra dificuldades para atuar com a mesma integração.

Segurança Pública é, sim, uma responsabilidade dos Estados. Mas isso não significa que cada unidade da Federação deva enfrentar sozinha organizações que atuam nacional e internacionalmente.

A União precisa exercer um papel maior na coordenação, integração de informações e definição de estratégias comuns.

É uma lógica semelhante à adotada na Saúde, em que o Sistema Único de Saúde (SUS) estabelece uma estrutura nacional de cooperação.

Não se trata de retirar dos Estados suas atribuições, mas de organizar melhor aquilo que já existe. Se o crime é interestadual, o combate também precisa ser.

Se as facções atuam internacionalmente, as forças de segurança precisam ter instrumentos para acompanhar esse movimento. Não podemos aceitar que organizações criminosas sejam mais articuladas do que as instituições criadas para combatê-las.

O problema é que essa discussão frequentemente esbarra em ruídos políticos e partidários. O Congresso Nacional, por exemplo, há meses não consegue avançar na aprovação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC), elaborada por especialistas, para melhorar a estrutura de combate ao crime.

Enquanto os parlamentares deixam a discussão se arrastar, a criminalidade não interrompe suas atividades à espera de um acordo político.

O resultado dessa desorganização é conhecido. Facções ganham espaço, ampliam territórios, recrutam jovens, estabelecem novas rotas e disputam mercados ilegais com violência. Quanto mais tempo o Estado demora para coordenar suas forças, maior é a oportunidade oferecida a essas organizações.

É preciso abandonar a lógica de que segurança pública deve ser tratada apenas quando uma crise explode. O combate ao crime organizado exige planejamento permanente, compartilhamento de informações, inteligência e integração entre forças estaduais e federais. Também exige que divergências políticas não sejam colocadas acima do interesse da sociedade.

Precisamos nos organizar mais para enfrentar os bandidos. Não é razoável que criminosos consigam estabelecer alianças, atravessar fronteiras e movimentar recursos com mais eficiência do que as instituições públicas. Se a guerra de facções chegou a Mato Grosso do Sul, a resposta precisa ser proporcional ao tamanho da ameaça.

Contra um crime que atua em rede, o Estado também precisa atuar em rede.

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