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O "menino" Neymar

Bastou a convocação ser anunciada para surgirem comerciais de TV, promoções e até manifestações políticas de apoio

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No “País do Futebol”, temas como dólar, Selic, PIB, violência e pesquisas eleitorais perderam espaço para um assunto capaz de mobilizar interesses diversos, além de paixão: a volta de Neymar à seleção brasileira sob o comando do italiano Carlo Ancelotti.

Dom Carletto foi anunciado com contrato até 2030, algo inédito na história da CBF, e a convocação ganhou contornos de evento internacional no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Influenciadores, comentaristas, publicitários, ex-jogadores e até analistas políticos entraram no debate.

O foco, porém, acabou sendo Neymar. Criou-se uma sensação de inevitabilidade, como se a seleção não pudesse disputar a próxima Copa do Mundo sem o camisa 10. O problema é que o contexto esportivo não justificava tamanho consenso.

Neymar vive fase irregular no Santos, equipe que luta para se afastar das últimas posições do Brasileirão. Longe do brilho dos tempos de Barcelona e PSG, o atleta convive com lesões frequentes, limitações físicas e atuações discretas. Ainda assim, o movimento por seu retorno foi intenso e barulhento.

Diferentemente de 2002, quando a pressão pela convocação de Romário partia das arquibancadas, agora ela parece ter surgido principalmente do mercado.

Agências de publicidade, plataformas digitais e veículos de comunicação tinham campanhas prontas para o retorno do atleta.

Bastou a convocação ser anunciada para surgirem comerciais de TV, promoções e até manifestações políticas de apoio.

Parece que o peso econômico/político da marca “Neymar” falou mais alto que a análise do seu desempenho recente.

Com mais de 230 milhões de seguidores nas redes sociais, ele movimenta patrocínios e exposição global em escala rara no esporte brasileiro.

Isso ajuda a explicar o comportamento de outros jogadores. Atletas em grande fase fizeram questão de destacar a importância de atuar ao lado do camisa 10.

Pode haver admiração genuína, mas é impossível ignorar a influência de alguém que se tornou uma potência midiática.

Enquanto isso, nomes vivendo melhor momento técnico acabaram sem espaço. Neymar, por outro lado, chegava cercado por dúvidas físicas e rendimento abaixo do esperado.

Posteriormente, exames confirmaram uma lesão de grau 2 na panturrilha direita, com ruptura parcial das fibras musculares.

Cabe agora a Carlo Ancelotti provar que sua escolha foi técnica. Reconhecido pela habilidade de administrar grandes estrelas, o treinador pode acreditar que Neymar ainda tem condições de liderar um último ciclo competitivo.

Mas também é possível que Dom Carletto tenha compreendido o custo comercial, político e midiático de deixá-lo fora logo no início de seu trabalho.

Há ainda um componente político. Neymar aproximou futebol, redes sociais e disputa ideológica ao assumir posições públicas em favor do bolsonarismo.

Não existe certeza de interferências na decisão da CBF, mas o simples fato de o tema surgir nos bastidores revela como a seleção continua ocupando um espaço que vai muito além do esporte.

No fim, a convocação talvez diga menos sobre futebol e mais sobre o Brasil contemporâneo. Um país em que audiência, influência digital e marketing parecem pesar mais do que desempenho e condição física.

Ancelotti chegou ao Brasil e já descobriu que escalar um camisa 10 pode significar muito mais do que escolher um jogador.

Lembro 1970, quando o general e ditador Emílio Garrastazu Médici pressionou pela convocação de Dadá Maravilha.

O técnico João Saldanha resistiu à interferência, pediu demissão e viu Dadá ir à Copa sem sequer entrar em campo. Ainda assim, o Brasil conquistou o tricampeonato mundial.

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Tratamentos oncológicos: proteção reforçada na Justiça

Nos planos de saúde, há forte proteção jurídica para tratamentos oncológicos, especialmente para quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, terapias-alvo e medicamentos antineoplásicos orais

09/06/2026 07h30

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No debate da judicialização da saúde, a oncologia ocupa lugar especial. O câncer é uma doença grave, muitas vezes progressiva, e o tempo pode ser decisivo. Em diversos casos, perder a chamada “janela terapêutica” significa perder a oportunidade de tratamento eficaz. Compreender como funcionam os sistemas público e privado de saúde nessa questão faz toda a diferença.

Nos planos de saúde, há forte proteção jurídica para tratamentos oncológicos, especialmente para quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, terapias-alvo e medicamentos antineoplásicos orais.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconhece que, embora medicamentos de uso domiciliar possam ser excluídos em regra, há exceções importantes, como os antineoplásicos orais, medicamentos correlacionados, medicação assistida em home care e produtos incluídos no rol da ANS.

Em termos simples, o que se entende é que um remédio contra câncer não pode ser negado apenas porque é tomado em casa, se a lei e a indicação médica apontam para sua cobertura.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a assistência oncológica também vem passando por mudanças. A Portaria GM/MS nº 8.477/2025 instituiu o componente da assistência farmacêutica em oncologia, o AF-Onco, voltado ao financiamento, aquisição, distribuição e dispensação de medicamentos oncológicos no SUS.

Essa evolução mostra que o Estado também busca organizar melhor o acesso a medicamentos contra o câncer, embora a incorporação de novas tecnologias continue sendo um processo técnico e gradual.

Para além dos direitos ligados à saúde para tratamentos oncológicos, há outras doenças graves e raras, cujos custos, ao encontrar a urgência, também desembarcam na Justiça.

Essas doenças raras representam um dos maiores desafios da saúde contemporânea. Muitas atingem crianças, têm evolução rápida e não contam com várias opções terapêuticas.

Em alguns casos, a terapia gênica pode ser a única alternativa capaz de modificar o curso da doença.

Um exemplo conhecido é o Zolgensma, utilizado em determinados casos de atrofia muscular espinhal. A Conitec noticiou acordo para viabilizar sua oferta no SUS por meio de compartilhamento de risco, modelo em que parte do pagamento fica condicionada ao resultado clínico do tratamento.

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Esse tipo de solução tende a ganhar espaço. Em vez de simplesmente negar ou conceder tratamentos milionários, o sistema passa a discutir modelos de pagamento vinculados a resultado, negociação nacional de preços e acompanhamento clínico.

Na medicina atual, a terapia CAR-T Cell é uma das fronteiras mais relevantes. De forma simplificada, ela consiste em retirar células de defesa do paciente, modificá-las em laboratório e reinseri-las no organismo para combater células cancerígenas.

A Anvisa já aprovou produtos de terapia avançada com células CAR-T no Brasil, inclusive para determinados cânceres hematológicos.

A agência também esclarece que esses produtos fazem parte de uma nova categoria de medicamentos, chamados produtos de terapias avançadas, que incluem terapias gênicas, celulares e de engenharia tecidual.

Isso é importante porque muitas negativas de cobertura usam a palavra “experimental” de forma ampla. Mas nem todo tratamento inovador é experimental.

Um tratamento pode ser novo, complexo e caro, mas ainda assim ter registro sanitário, indicação médica e evidência científica. O que não se pode admitir é a confusão entre inovação e aventura terapêutica.

Essa “confusão”, por assim dizer, também acontece de forma recorrente no chamado uso off-label, que ocorre quando um medicamento registrado na Anvisa é prescrito para uma finalidade diferente daquela descrita originalmente na bula.

O uso off-label acontece em várias áreas da medicina, especialmente em oncologia, doenças autoimunes e doenças raras.

O ponto jurídico mais relevante é que off-label não significa, por si só, tratamento experimental.

Nesse sentido, o STJ já decidiu que plano de saúde não pode recusar automaticamente medicamento registrado na Anvisa apenas porque a prescrição é off-label, devendo o caso ser analisado conforme a indicação médica e os critérios técnicos aplicáveis.

Para o paciente, então, a mensagem é: o plano não pode negar de forma automática e genérica, mas o pedido também precisa estar bem fundamentado em evidências médicas.

Em ações de saúde, especialmente quando se pede uma liminar, a pressa é compreensível. Quem precisa de tratamento contra câncer, doença rara ou doença autoimune grave não pode esperar indefinidamente. Mas a urgência precisa vir acompanhada de prova.

O relatório médico deve explicar o diagnóstico, a gravidade, os tratamentos já tentados, a razão pela qual as alternativas disponíveis não servem, o risco da demora e a base científica da indicação.

A negativa do SUS ou do plano de saúde também deve ser documentada. Sem negativa formal, o processo pode começar mais frágil. Em demandas contra o SUS, é importante comprovar o pedido administrativo.

Contra planos de saúde, é essencial guardar protocolo, e-mails, relatórios de auditoria e a justificativa da recusa.

Com assistência jurídica e robustez documental, é amplamente possível a via judicial para a proteção da vida e da dignidade humana. Muitas decisões judiciais garantiram tratamentos que foram indevidamente negados.

A medicina evolui consideravelmente e em velocidade maior do que os sistemas de saúde se organizam. De um lado, o paciente não pode ser abandonado diante de uma negativa burocrática, abusiva ou desumana.

Do outro, é verdade que nenhum sistema, público ou privado, consegue sobreviver sem critérios técnicos, previsibilidade e responsabilidade. O caminho mais adequado está no equilíbrio.

O que se espera, afinal, é a construção de um sistema capaz de oferecer esperança real aos pacientes, sem transformar a inovação médica em privilégio para poucos ou em promessa impossível para todos.

Editorial

Seriedade no combate às facções criminosas

O reforço federal no combate ao PCC e ao Comando Vermelho em Mato Grosso do Sul é necessário e bem-vindo. Operações como essas precisam gerar resultados permanentes

09/06/2026 07h15

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O reforço do governo federal no combate às organizações criminosas em Mato Grosso do Sul é uma medida necessária e que merece reconhecimento.

Nesta edição, mostramos que os recursos para o pagamento de diárias de policiais estaduais chegaram e que as ações de enfrentamento a facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) estão sendo intensificadas.

Em um estado de fronteira, onde a criminalidade organizada se aproveita da posição geográfica estratégica para alimentar rotas de tráfico, armas e lavagem de dinheiro, qualquer apoio concreto à segurança pública deve ser visto como prioridade nacional.

Toda ação de combate às organizações criminosas é importante. Cada quadrilha desarticulada, cada liderança presa, cada rota interrompida representa uma vitória da sociedade contra estruturas que lucram com violência, medo e corrupção.

Não se trata apenas de reduzir índices criminais, mas de proteger instituições, preservar vidas e impedir que o crime avance sobre espaços que pertencem ao Estado.

As operações, os investimentos e o apoio logístico são bem-vindos. Mato Grosso do Sul convive há décadas com os reflexos do crime transnacional.

A proximidade com países vizinhos transforma o Estado em ponto sensível para o tráfico internacional e exige uma atuação integrada de União, estados e forças de inteligência.

Não há como enfrentar organizações bilionárias apenas com esforços isolados ou ações esporádicas.

Ao mesmo tempo, é preciso cautela para que o impacto dessas operações não seja apenas dissuasivo em um primeiro momento e, depois, meramente político.

A segurança pública será tema inevitável das próximas eleições e partidos de diferentes espectros vão explorar o assunto em busca de capital eleitoral.

O risco está em transformar operações complexas, que exigem planejamento técnico e continuidade, em vitrines de ocasião.

Combater organizações criminosas é coisa séria demais para se resumir a discursos de efeito ou a ações pensadas para viralizar nas redes sociais.

Operações de segurança pública devem ser precisas, silenciosas, quando necessário, baseadas em inteligência e sustentadas por resultados permanentes.

O enfrentamento ao crime organizado não pode depender do calendário eleitoral nem da necessidade de produzir imagens de impacto.

Mais do que apreensões momentâneas, o Brasil precisa enfraquecer financeiramente essas facções, interromper suas cadeias de comando e impedir sua infiltração em setores econômicos e institucionais.

Isso exige integração entre polícias, Ministério Público, Judiciário e órgãos de fiscalização, além de investimentos constantes em tecnologia e inteligência.

Mato Grosso do Sul pode ajudar muito o Brasil nessa missão. Por sua posição geográfica, o Estado é uma das principais portas de entrada e de circulação do crime organizado.

Mas também pode se transformar em referência nacional no combate às facções, desde que haja continuidade nas ações, cooperação federativa e compromisso real com políticas de segurança pública de longo prazo.

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