Artigos e Opinião

Editorial

Seriedade no combate às facções criminosas

O reforço federal no combate ao PCC e ao Comando Vermelho em Mato Grosso do Sul é necessário e bem-vindo. Operações como essas precisam gerar resultados permanentes

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O reforço do governo federal no combate às organizações criminosas em Mato Grosso do Sul é uma medida necessária e que merece reconhecimento.

Nesta edição, mostramos que os recursos para o pagamento de diárias de policiais estaduais chegaram e que as ações de enfrentamento a facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) estão sendo intensificadas.

Em um estado de fronteira, onde a criminalidade organizada se aproveita da posição geográfica estratégica para alimentar rotas de tráfico, armas e lavagem de dinheiro, qualquer apoio concreto à segurança pública deve ser visto como prioridade nacional.

Toda ação de combate às organizações criminosas é importante. Cada quadrilha desarticulada, cada liderança presa, cada rota interrompida representa uma vitória da sociedade contra estruturas que lucram com violência, medo e corrupção.

Não se trata apenas de reduzir índices criminais, mas de proteger instituições, preservar vidas e impedir que o crime avance sobre espaços que pertencem ao Estado.

As operações, os investimentos e o apoio logístico são bem-vindos. Mato Grosso do Sul convive há décadas com os reflexos do crime transnacional.

A proximidade com países vizinhos transforma o Estado em ponto sensível para o tráfico internacional e exige uma atuação integrada de União, estados e forças de inteligência.

Não há como enfrentar organizações bilionárias apenas com esforços isolados ou ações esporádicas.

Ao mesmo tempo, é preciso cautela para que o impacto dessas operações não seja apenas dissuasivo em um primeiro momento e, depois, meramente político.

A segurança pública será tema inevitável das próximas eleições e partidos de diferentes espectros vão explorar o assunto em busca de capital eleitoral.

O risco está em transformar operações complexas, que exigem planejamento técnico e continuidade, em vitrines de ocasião.

Combater organizações criminosas é coisa séria demais para se resumir a discursos de efeito ou a ações pensadas para viralizar nas redes sociais.

Operações de segurança pública devem ser precisas, silenciosas, quando necessário, baseadas em inteligência e sustentadas por resultados permanentes.

O enfrentamento ao crime organizado não pode depender do calendário eleitoral nem da necessidade de produzir imagens de impacto.

Mais do que apreensões momentâneas, o Brasil precisa enfraquecer financeiramente essas facções, interromper suas cadeias de comando e impedir sua infiltração em setores econômicos e institucionais.

Isso exige integração entre polícias, Ministério Público, Judiciário e órgãos de fiscalização, além de investimentos constantes em tecnologia e inteligência.

Mato Grosso do Sul pode ajudar muito o Brasil nessa missão. Por sua posição geográfica, o Estado é uma das principais portas de entrada e de circulação do crime organizado.

Mas também pode se transformar em referência nacional no combate às facções, desde que haja continuidade nas ações, cooperação federativa e compromisso real com políticas de segurança pública de longo prazo.

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Artigo

Muito além das tarifas

O comércio virou moeda de troca geopolítica, um tabuleiro onde Brasília tem dificuldade de se mover

08/06/2026 07h30

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O tabuleiro do comércio global sofreu um realinhamento profundo, e o Brasil agiu tarde demais diante de Washington. A confirmação de que o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) concluiu a investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, recomendando tarifa punitiva de 25% sobre produtos brasileiros, é um revés severo.

Representa o ápice do protecionismo técnico da administração de Trump e expõe fragilidades crônicas na nossa diplomacia corporativa e governamental.

Como alguém que dirigiu a promoção de exportações da ApexBrasil, posso garantir que o anúncio traz lições amargas sobre nossa incapacidade de antecipar o risco regulatório global.

Diferentemente do açodado tarifaço de 2025, derrubado nos tribunais americanos por seu caráter político, a investida de Jamieson Greer tem blindagem técnica sofisticada.

Ao ancorar as penalidades nas conclusões da Seção 301, os EUA ergueram barreiras de difícil reversão.

O USTR apontou seis práticas injustas: barreiras ao comércio digital, assimetrias em pagamentos eletrônicos, distorções em tarifas preferenciais, morosidade na propriedade intelectual, disputas no etanol e desmatamento ilegal.

Ao usar a pauta ambiental como dumping ecológico, Washington desarmou a retórica de Brasília, provando que a defesa de seus interesses não tem amarras ideológicas, mas objetivos práticos.

O desenho cirúrgico das sobretaxas revela a realpolitik americana destes tempos. A

o poupar setores estratégicos como aeroespacial (preservando a Embraer), combustíveis fósseis, minerais críticos, café e carne bovina, Washington protegeu sua indústria e eleitores da inflação.

Onde o Brasil tem indispensabilidade estrutural, o pragmatismo prevaleceu; onde somos substituíveis, houve revés.

O governo brasileiro tem sua parcela de culpa, uma vez que alimentou a retórica antiamericana e falhou em deter o processo nos bastidores, escancarando que nossa diplomacia perdeu densidade técnica e interlocução com o poder americano.

Para agravar, enfrentamos a contaminação de agendas, aquilo que chamo de linkage diplomacy. A classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas internacionais por Washington fundiu a governança econômica à segurança nacional dos EUA.

O comércio virou moeda de troca geopolítica, um tabuleiro onde Brasília tem dificuldade de se mover.

Diante disso, o Brasil precisa redesenhar sua defesa comercial, devolvendo o protagonismo à diplomacia corporativa privada e aos setores produtivos.

Se o canal intergovernamental falha por saturação ideológica, o empresariado deve assumir a liderança, como fizemos em 2025.

Como sempre ressaltei, o setor privado precisa ir a Washington demonstrar, com dados econômicos, como a taxa de 25% afetará a competitividade das próprias indústrias e os consumidores americanos que dependem de nossos insumos.

Foi assim que derrubamos centenas de tarifas em nossa mais recente incursão nos corredores da capital americana. A partir de agora, o jogo recomeça.

A lição da Seção 301 é clara: a inserção internacional do País não pode depender de voluntarismos políticos.

O protecionismo contemporâneo não se combate com notas de repúdio, mas com inteligência comercial, previsibilidade e presença ativa onde as regras são escritas.

Sem eficiência interna e estabilidade regulatória, perderemos mercados que levamos décadas para conquistar.

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Editorial

A jogatina e a responsabilidade

Todos sabemos que, em quase tudo na vida, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose; no caso das loterias eletrônicas e das bets, não é diferente

08/06/2026 07h15

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Mato Grosso do Sul caminha para implantar sua loteria estadual, a Lotesul, com promessas que soam sedutoras: recursos para saúde, educação, segurança pública e desenvolvimento social. O argumento é legítimo.

A intenção, possivelmente, também. Mas os números que chegam do restante do Brasil impõem uma reflexão que não pode ser adiada.

A Lei nº 5.720, de 2021, autorizou a exploração da loteria estadual pelo governo, com execução a cargo da Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz). O Estado, portanto, já deu o passo legal.

Agora prepara o passo operacional. É exatamente neste intervalo entre a decisão e a execução que a sociedade precisa ser ouvida.

Os dados nacionais são alarmantes. De janeiro de 2023 a março de deste ano, a inadimplência causada pelas apostas eletrônicas retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista, equivalente ao volume de vendas dos períodos de Natal de 2024 e 2025 somados.

Estima-se que 270 mil famílias foram levadas à inadimplência severa, com atrasos superiores a 90 dias. Os mais afetados são homens, famílias de baixa renda com até cinco salários mínimos e pessoas acima de 35 anos.

O Estado já entra na Lotesul com 57% da população adulta negativada e 72% das famílias da Capital endividadas.

As pesquisas são uníssonas: nas camadas de menor renda, o efeito é generalizado, com deterioração do orçamento, aumento do endividamento e dificuldade crescente de reversão das dívidas.

Em Mato Grosso do Sul, onde parcela significativa da população ainda convive com vulnerabilidade econômica, esse risco não é abstrato, é concreto.

Levantamento da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, concluiu que o vício em apostas on-line já figura como a causa número um para o descontrole financeiro dos lares brasileiros. O mesmo estudo revela que 4 em cada 10 apostadores se endividaram após ingressar nas plataformas.

A corrida pela arrecadação é compreensível: os cofres públicos estão sempre sob pressão. Mas arrecadar com o desespero de quem aposta na sorte porque não encontra saída na economia real não é política pública. É, no mínimo, uma contradição que merece debate aberto.

Senhores leitores, o Correio do Estado não questiona a legalidade da iniciativa nem a boa-fé das destinações previstas, questiona o momento, o modelo e, sobretudo, a ausência de um debate amplo com a sociedade deste estado antes que as apostas se instalem em cada esquina, física ou virtual.

Há tempo para aprender com os erros alheios antes de repeti-los. Há tempo para desenhar salvaguardas reais que protejam quem mais tem a perder.

A loteria pode ser uma ferramenta ou pode ser uma armadilha disfarçada de oportunidade. A diferença, como sempre, está entre o remédio e o veneno.

Com respeito e responsabilidade, Correio do Estado.

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