Artigos e Opinião

EDITORIAL

O poder e o preço das emendas parlamentares

O instrumento das emendas que deveria aproximar o cidadão do orçamento público acaba se transformando em um atalho para o uso político do dinheiro federal

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As emendas parlamentares são, em teoria, um instrumento nobre da democracia. Criadas para permitir que deputados e senadores indiquem onde parte do orçamento público deve ser aplicada, elas têm a função de aproximar o poder central das demandas locais.

Em resumo, tratam-se de valores que o parlamentar destina a obras, equipamentos e serviços em municípios de sua base eleitoral – hospitais, escolas, pavimentação, entre outros. Na prática, são também uma poderosa ferramenta política, usada para reforçar vínculos com prefeitos, lideranças e eleitores.

É bom que o leitor saiba: o instrumento da emenda parlamentar surgiu como um meio de o legislador mostrar resultados concretos em suas bases e, com isso, fortalecer sua imagem para tentar a reeleição. Em um país de dimensões continentais, em que a presença do Estado é desigual, o mecanismo parecia razoável.

No entanto, o sistema das emendas parlamentares toca em um ponto sensível da separação dos poderes. Se o princípio da tripartição fosse aplicado em sua forma mais pura, haveria pouco espaço para esse tipo de interferência. Afinal, ao Executivo cabe executar o orçamento; ao Legislativo, legislar e fiscalizar; e ao Judiciário, julgar.

Com o tempo, porém, o Legislativo quis mais do que aprovar e fiscalizar. Quis também participar da execução. O raciocínio era simples: por que não deixar a própria marca no orçamento federal, reservando recursos para determinadas obras em suas bases eleitorais? Assim, nasceu um modelo que, a princípio, parecia equilibrado – o Executivo planejava e executava, e o Legislativo apenas sugeria.

Mas o equilíbrio se rompeu quando as emendas se tornaram impositivas. O que antes era uma sugestão passou a ser uma obrigação. Deputados e senadores conquistaram o direito de determinar o destino de bilhões de reais do orçamento, sem arcar com o ônus de equilibrar as contas públicas.

O cenário piorou com o surgimento de artifícios como as “emendas de relator” – o chamado “orçamento secreto” – e as “emendas Pix”, que dispensam detalhamento e fiscalização. Assim, o poder de interferir no orçamento expandiu-se, enquanto os mecanismos de controle se enfraqueceram.

O resultado é um sistema opaco, vulnerável a desvios e barganhas políticas. Em muitos casos, prefeitos e parlamentares transformaram as emendas em moeda de troca.

O caso de Vicentina, em Mato Grosso do Sul, ilustra bem o problema: o ex-prefeito comprou carros novos com recursos de uma emenda do orçamento secreto e, um ano depois, os vendeu sem qualquer explicação sobre o destino do dinheiro público.

Enquanto o País não avança na transparência das emendas, seguimos diante de um paradoxo. O instrumento que deveria aproximar o cidadão do orçamento público acaba se transformando em um atalho para o uso político do dinheiro federal. As emendas parlamentares, quando bem aplicadas, podem melhorar vidas.

Mas, sem controle e clareza, apenas reforçam a distância entre o interesse público e o interesse eleitoral.

EDITORIAL

Gestão da Saúde sob novo teste

No fim das contas, o debate não deve se limitar à forma de gestão, mas ao resultado entregue ao cidadão. O novo modelo deve reduzir filas e ampliar atendimentos

26/03/2026 07h15

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A decisão de Campo Grande de transferir a gestão dos Centros Regionais de Saúde 24 horas para organizações sociais inaugura um novo capítulo na administração pública municipal. Trata-se de uma medida que desperta debates legítimos, tanto pela sensibilidade do tema quanto pela importância estratégica dessas unidades para a população.

Ainda assim, é preciso reconhecer que a proposta, se bem estruturada, pode representar uma oportunidade concreta de melhoria no atendimento.

A rede de saúde pública enfrenta desafios conhecidos: filas, demora, falta de profissionais, problemas de gestão e dificuldade para garantir atendimento digno e eficiente. Esses obstáculos não são exclusivos da capital sul-mato-grossense, mas atingem boa parte do País.

Diante desse cenário, testar novos modelos administrativos deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser uma necessidade. A população merece serviços mais ágeis, humanizados e resolutivos, sobretudo nas unidades de atendimento 24 horas, que funcionam como porta de entrada para milhares de cidadãos.

A experiência com organizações sociais já foi adotada em diferentes localidades, com resultados variados. Há casos de sucesso, com ganho de eficiência, maior flexibilidade na contratação de profissionais e melhor organização dos serviços.

Contudo, também existem exemplos negativos, marcados por falta de controle, desperdício de recursos e até denúncias de irregularidades. Por isso, o êxito da iniciativa não depende apenas do modelo escolhido, mas da forma como ele será implantado e fiscalizado.

É justamente nesse ponto que reside a principal atenção. O Município precisa estabelecer mecanismos rigorosos de controle, com metas claras, indicadores de desempenho e avaliação permanente dos resultados.

A transparência deve ser total, com divulgação de contratos, custos, metas e relatórios de desempenho. A sociedade tem o direito de saber como os recursos públicos são aplicados e quais melhorias estão sendo efetivamente alcançadas.

Outro aspecto essencial é a atuação dos órgãos de controle. O acompanhamento próximo do Ministério Público será fundamental para garantir que o modelo não se desvie de seu objetivo principal: melhorar o atendimento à população. A fiscalização preventiva evita distorções e fortalece a credibilidade da iniciativa.

No fim das contas, o debate não deve se limitar à forma de gestão, mas ao resultado entregue ao cidadão. Se o novo modelo for capaz de ampliar o acesso, reduzir filas e qualificar o atendimento, terá cumprido seu papel.

O mais importante é assegurar que os bilhões destinados à Saúde sejam aplicados com eficiência, responsabilidade e foco em quem mais precisa. A população não espera apenas mudanças administrativas, mas melhorias concretas no cuidado com a vida.

Artigo

TEA em adultos: por que o diagnóstico tardio mistura alívio e dúvidas?

Entre adultos, é comum que o diagnóstico ocorra tardiamente, especialmente em casos com menor prejuízo funcional

25/03/2026 07h45

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O diagnóstico tardio do transtorno do espectro autista (TEA) em adultos costuma provocar uma mistura de sentimentos como alívio, dúvidas e interpretações equivocadas, como associação com inteligência. A condição segue cercada de desinformação, independentemente da idade. O que acaba gerando muitas dúvidas.

O TEA é uma das principais condições neurodivergentes, caracterizado por diferenças na comunicação social, comportamento e processamento sensorial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70 milhões de pessoas vivem com o transtorno no mundo. No Brasil, o Censo Demográfico de 2022 aponta 2,4 milhões de diagnósticos, o equivalente a 1,2% da população.

Entre adultos, é comum que o diagnóstico ocorra tardiamente, especialmente em casos com menor prejuízo funcional. Essas pessoas, muitas vezes classificadas no nível 1 de suporte, conseguem estudar, trabalhar e se relacionar, o que contribui para que sinais passem despercebidos.

Ainda assim, é frequente o relato de sensação de desconexão e dificuldade de pertencimento, que leva à busca por ajuda psicológica.

Em muitos casos, o TEA aparece inicialmente associado a quadros como ansiedade, depressão ou fobia social. Também há confusão diagnóstica com transtorno do deficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e altas habilidades, além da possibilidade de comorbidades.

Quando o diagnóstico é tardio, o prognóstico tende a ser mais desfavorável, e o nível de incompreensão aumenta – tanto por parte das pessoas ao redor quanto da própria pessoa em relação ao seu funcionamento.

Com frequência, observo pacientes relatarem que percebem e sentem o mundo de forma diferente, além de enfrentarem dificuldades para manter o convívio social. Diante disso, muitos iniciam tratamento para depressão ou fobia social e, apenas posteriormente, recebem o diagnóstico de TEA.

O momento do diagnóstico pode gerar reações diversas. Há quem sinta alívio ao se compreender, enquanto familiares podem expressar sentimento de culpa por não terem percebido alguns sinais. A falta de informação também faz com que alguns adultos resistam a se reconhecer como neurodivergentes.

É importante destacar que o TEA, assim como o TDAH e outros transtornos, não tem relação com nível de inteligência. Quando se fala de TEA, estamos falando de um cérebro neurodivergente que tem uma alteração no funcionamento cerebral, que pode coexistir tanto com deficits quanto com altas habilidades.

Sem diagnóstico, as experiências podem parecer incoerentes e gerar culpa. Com a identificação adequada, a psicoterapia se torna além de um espaço de escuta, um espaço de construção de estratégias práticas, transformando dificuldades difusas em caminhos possíveis de adaptação, estratégias concretas e qualidade de vida.

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