Artigos e Opinião

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O silêncio como método

O que realmente importa não está acontecendo dentro do Irã, mas fora dele: a forma como a comunidade internacional escolhe reagir ou fingir que não vê essa brutalidade

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Cerca de 2.000 pessoas morreram no Irã desde o início dos protestos contra o regime. A resposta do governo foi desligar completamente a internet, endurecer a repressão nas ruas e empurrar a violência para longe dos olhos do mundo.

Nada disso é exatamente surpreendente. O que realmente importa não está acontecendo dentro do Irã, mas fora dele: a forma como a comunidade internacional escolhe reagir ou fingir que não vê essa brutalidade.

A comparação com outras crises recentes é inevitável. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a reação do Ocidente foi imediata e coordenada. Sanções pesadas, dezenas de bilhões em ajuda militar, cobertura midiática permanente e discursos inflamados sobre democracia e soberania.

No caso iraniano, mesmo com milhares de mortos, o que se vê são comunicados diplomáticos genéricos, nenhuma sanção nova relevante e um silêncio constrangedor da grande imprensa internacional. A pergunta não é se há diferença. É por que ela existe.

Essa diferença não tem relação com o número de vítimas nem com a gravidade das violações. É cálculo geopolítico puro. O Irã controla reservas de petróleo importantes para uma economia global ainda dependente de energia fóssil e ocupa uma posição central no equilíbrio nuclear do Oriente Médio.

Pressionar Teerã significa mexer em preços de energia, riscos regionais e cadeias de abastecimento. E poucos governos estão dispostos a pagar esse preço agora.

A contradição aparece de forma explícita na prática diplomática. A Europa divulga notas condenando a repressão aos protestos iranianos, mas continua sentada nas mesmas salas negociando a retomada do acordo nuclear.

Os Estados Unidos fazem discursos públicos sobre direitos humanos, enquanto nos bastidores calculam como evitar que o Irã se aproxime ainda mais da China e da Rússia. A mensagem é objetiva: direitos humanos importam, mas não tanto quanto interesses estratégicos.

Esse padrão seletivo não é exclusivo do Irã. A Arábia Saudita conduz há anos uma guerra devastadora no Iêmen e assassinou um jornalista dentro de seu consulado, sem sofrer isolamento real.

A China mantém campos de reeducação em Xinjiang e esmagou Hong Kong politicamente, recebendo apenas sanções simbólicas enquanto o comércio global segue normalmente.

A intensidade da reação internacional segue uma lógica previsível baseada em três fatores. Primeiro, a importância econômica do país: ele controla recursos essenciais? Segundo, seu alinhamento geopolítico: é aliado, adversário ou ambíguo? Terceiro, a existência de alternativas: ele pode ser facilmente substituído? Quando as respostas favorecem o país, a repressão é tolerada. Quando não favorecem, vira escândalo global.

O Brasil de Lula ilustra bem essa seletividade. Na guerra da Ucrânia, o governo falou em “clube da paz” e relativizou responsabilidades, chegando a equiparar Zelensky a Putin. Em Gaza, Lula classificou a ação israelense como genocídio.

Já no caso do Irã, onde o regime mata seus próprios cidadãos, o silêncio é absoluto. A diferença é simples: o Irã é parceiro nos Brics.

Essa seletividade não é acidente. É estratégia. Criticar Israel rende pontos com a base política e com o chamado Sul Global. Relativizar a Ucrânia agrada Rússia e China, parceiros comerciais essenciais.

Criticar o Irã, porém, colocaria em risco a arquitetura dos Brics e a ambição brasileira de liderar um bloco alternativo ao Ocidente. Direitos humanos entram, assim, como moeda de troca na construção dessa nova ordem multipolar.

O regime iraniano entende perfeitamente essa dinâmica. Por isso, calibra sua repressão com precisão. Violenta o suficiente para controlar as ruas e desencorajar novos protestos, mas de forma calculada para não ultrapassar o limite que forçaria uma reação internacional concreta. Eles sabem exatamente onde está a linha – porque o mundo já mostrou.

Para os manifestantes iranianos, a mensagem é cruel: vocês estão sozinhos. Haverá hashtags, notas de solidariedade e monumentos iluminados. Não haverá custo político real para quem reprime. A cavalaria não existe quando você protesta no país errado.

O problema não é a hipocrisia individual de líderes. É estrutural. Direitos humanos deixaram de ser princípios inegociáveis e passaram a ser fichas em negociações maiores. O caso do Irã não é uma exceção ao sistema internacional. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado.

Da próxima vez que surgir indignação seletiva no noticiário, vale fazer três perguntas simples: que negociação maior está acontecendo nos bastidores? Que recurso estratégico está em jogo? Quem precisa mais de quem nessa relação? As respostas quase sempre explicam o silêncio.

EDITORIAL

Transporte público e a coragem necessária

Diante de tanta inércia, a pergunta que se impõe é inevitável: a quem interessa que tudo permaneça exatamente como está? Certamente não interessa à população

10/02/2026 07h15

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Engana-se quem acredita que a gestão fiscal e os investimentos em infraestrutura resumem os grandes desafios da Prefeitura de Campo Grande neste ano. Esses temas são, sem dúvida, relevantes e exigem atenção permanente.

Mas não são os únicos. Há problemas antigos, estruturais e cada vez mais urgentes que continuam à espera de enfrentamento político. Entre eles, o sistema de transporte coletivo ocupa lugar central e inadiável.

Trata-se de um serviço essencial, que afeta diariamente milhares de trabalhadores, estudantes e usuários que dependem do ônibus para se deslocar pela cidade. Ainda assim, o que se vê é um cenário de imobilismo difícil de justificar.

O transporte coletivo de Campo Grande já foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, teve falhas amplamente expostas, enfrenta uma decisão judicial que determina a intervenção do poder público e, mesmo assim, nada muda de forma concreta.

É inadmissível que, diante de um diagnóstico tão claro e de instrumentos legais disponíveis, não haja nenhuma iniciativa efetiva para alterar os rumos do sistema. A sensação é de que existe uma falta de coragem generalizada. Falta coragem do poder concedente, que parece hesitar em assumir o protagonismo que lhe cabe.

Falta coragem também do concessionário, que se mostra resistente a mudanças profundas que poderiam, de fato, melhorar a qualidade do serviço prestado.

Enquanto isso, os problemas se acumulam. Houve greve, como a registrada em dezembro do ano passado, houve crise de financiamento, houve CPI, houve decisão judicial.

Ainda assim, permanece a letargia. O usuário segue pagando caro por um serviço deficiente, com frota envelhecida, horários irregulares e perda constante de confiabilidade. Nada disso é novidade. O que surpreende é a naturalização desse quadro.

Diante de tanta inércia, a pergunta que se impõe é inevitável: a quem interessa que tudo permaneça exatamente como está? Certamente não à população, que sofre diariamente com um transporte ineficiente. Tampouco à cidade, que precisa de um sistema moderno, integrado e capaz de estimular a mobilidade urbana sustentável.

Quando o assunto é transporte público, o que falta é coragem para mudar. E mudar para melhor, é preciso frisar. Coragem para enfrentar interesses, rever contratos, cumprir decisões judiciais e colocar o interesse coletivo acima de conveniências políticas ou econômicas.

No entanto, até aqui, não há qualquer sinal concreto de que esse caminho será seguido. E isso, lamentavelmente, diz muito sobre as prioridades que estão sendo deixadas para depois.

ARTIGOS

O custo humano do endurecimento migratório

Aumento expressivo das deportações de brasileiros, acompanhado de relatos de violações de direitos e procedimentos sumários de remoção, revela uma realidade que exige reflexão jurídica e humanitária

09/02/2026 07h45

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O recrudescimento da política migratória dos Estados Unidos, especialmente após o retorno de Donald Trump ao comando da Casa Branca, reacendeu um debate global que vai muito além da soberania das nações sobre suas fronteiras.

O aumento expressivo das deportações de brasileiros, acompanhado de relatos de violações de direitos e procedimentos sumários de remoção, revela uma realidade que exige reflexão jurídica e humanitária.

Os números falam por si. Em 2025, mais de 3,5 mil brasileiros foram deportados dos Estados Unidos, número que representa mais que o dobro do registrado no ano anterior.

Apenas nas primeiras semanas deste ano, novas deportações já foram registradas, demonstrando que a política de endurecimento migratório deixou de ser um discurso político e se consolidou como prática institucional.

O ponto mais sensível desse cenário reside na ampliação do mecanismo conhecido como “remoção acelerada”.

Trata-se de um procedimento que permite a deportação de imigrantes sem audiência judicial formal, especialmente quando não conseguem comprovar residência contínua nos Estados Unidos por período mínimo estabelecido pelas autoridades.

Embora previsto no ordenamento migratório norte-americano, o uso ampliado desse instrumento tem levantado questionamentos sobre o respeito ao devido processo legal e às garantias fundamentais.

O governo americano, sob o comando de Donald Trump, expandiu o uso da remoção acelerada para quem entrou ilegalmente e não consegue provar que vive nos EUA há, pelo menos, dois anos. A medida, segundo ele, produz efeitos que ultrapassam o campo administrativo e atingem diretamente a esfera dos direitos humanos.

Outro aspecto preocupante é o relato recorrente de apresentação, por agentes migratórios, de documentos que implicam renúncia ao direito de defesa. O ICE tem apresentado documentos onde o imigrante “concorda” em ser deportado sem audiência judicial, não sendo recomendado assinar nada sem orientação jurídica.

Em contextos de detenção, muitas vezes marcados por vulnerabilidade emocional e desconhecimento da legislação, a assinatura desses termos pode significar a perda definitiva de qualquer possibilidade de contestação.

A preocupação não se restringe aos imigrantes em situação irregular. O ambiente de intensificação das ações migratórias tem gerado insegurança generalizada entre estrangeiros, inclusive aqueles que ingressam nos Estados Unidos de forma regular, como turistas e estudantes.

Neste contexto de velocidade hiperacelerada de detenção, expulsão e deportação de imigrantes ilegais, há uma insegurança muito grande aos estrangeiros, diante de ações truculentas e potencialmente violadoras dos direitos humanos e princípios fundamentais.

É legítimo que Estados estabeleçam políticas migratórias e fiscalizem suas fronteiras. Trata-se de prerrogativa inerente à soberania nacional.

No entanto, a adoção de mecanismos que relativizem garantias processuais básicas ou que permitam tratamentos degradantes compromete não apenas a imagem internacional de um país, mas também os pilares do Estado de Direito.

Historicamente, os Estados Unidos consolidaram-se como referência global na defesa de liberdades individuais e garantias fundamentais. O endurecimento das políticas migratórias, quando dissociado desses valores, cria uma contradição institucional que fragiliza o discurso democrático que o país tradicionalmente projeta ao mundo.

Para o Brasil, o fenômeno das deportações em massa também produz reflexos sociais relevantes. O retorno forçado de cidadãos, muitas vezes após anos de residência no exterior, implica desafios de reinserção profissional, impacto psicológico e reestruturação familiar.

Trata-se de uma questão que exige políticas públicas de acolhimento e reintegração social, sob pena de perpetuar ciclos de vulnerabilidade.

O debate migratório contemporâneo exige equilíbrio entre controle estatal e respeito aos direitos humanos. A busca por segurança e organização migratória não pode justificar a supressão de garantias fundamentais. Fronteiras existem, mas não podem servir como barreiras para a dignidade humana.

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