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Onze mulheres no STF: um desafio à histórica desigualdade de gênero nas esferas de poder

Atualmente, as mulheres representam cerca de 36,8% da magistratura do Brasil

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Imaginar um Supremo Tribunal Federal (STF) formado por 11 mulheres parece utópico. A reação de espanto, porém, diz menos sobre a hipótese em si e mais sobre a normalização histórica do seu oposto. Durante mais de um século, a Alta Corte foi quase que exclusivamente masculina, sem que tal condição despertasse qualquer desconforto coletivo. O estranhamento diante da inversão expõe padrões de poder profundamente arraigados nas instituições brasileiras.

Desde a criação do Supremo, no fim do século 19, até os dias de hoje, apenas três juristas chegaram a uma das 11 cadeiras de ministros: Ellen Gracie, Rosa Weber e Cármen Lúcia. A presença feminina no STF, desta forma, sempre foi exceção, nunca regra.

Atualmente, as mulheres representam cerca de 36,8% da magistratura do Brasil, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O dado nem de longe é animador. Além do que, a medida em que se avança na hierarquia, o porcentual diminui consideravelmente.

E, mais: negras e indígenas que escolheram o Direito como carreira permanecem praticamente invisíveis nos postos de comando do sistema de Justiça brasileiro.

Nos últimos anos, alguns avanços, mesmo que tímidos, começaram a se consolidar no País quanto a várias vertentes do assunto em tela. A lei federal nº 14.245/2021 – Lei Mariana Ferrer – reforçou a proteção da dignidade de vítimas e de testemunhas no processo penal e enfrentou práticas deploráveis de revitimização institucional – encabeçadas, em sua maioria, nas últimas décadas, por operadores do Direito do sexo masculino. 

No âmbito do Judiciário, resoluções do CNJ passaram a incorporar a perspectiva de gênero nos julgamentos e a estimular ações afirmativas, a fim de se ampliar o acesso de magistradas aos Tribunais.

Já no Superior Tribunal Militar (STM), a ministra Maria Elizabeth Rocha tornouse a primeira mulher a integrar e a presidir o colegiado, rompendo uma tradição longínqua, machista e discriminatória de exclusão. Recentemente, a nomeação da ministra

Verônica Sterman consolidou ainda mais a participação feminina na Corte. 

No cenário internacional, o tema voltou ao debate durante a 70ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW70) da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada entre 9 e 19 de março deste ano, em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

A ONU, importante destacar, criada em 1945 com o compromisso de promover a igualdade de direitos, jamais teve uma mulher no cargo máximo.

Entre os assuntos discutidos na CSW70 estiveram o acesso do feminino a posições de liderança, os obstáculos institucionais à participação de mulheres nas estruturas decisórias do Estado e, novamente, a ausência delas no comando da ONU.

A pergunta que se impõe: por que parece natural que as representações mais poderosas do mundo sejam comandadas quase que exclusivamente por homens? Ora, a igualdade formal, consagrada em constituições e em tratados internacionais, mostra-se ainda insuficiente para alterar estruturas de poder.

A provocação nas linhas iniciais sobre um STF composto por 11 mulheres, portanto, não é retórica vazia. Ela escancara o quanto ainda estamos distantes de uma paridade institucional efetiva. 

Avançar nesta agenda não significa substituir uma hegemonia por outra, mas, sim, reconhecer que a Democracia se enfraquece quando os espaços de decisão permanecem fechados à pluralidade social.

Enquanto a presença feminina continuar sendo ressalva nos centros máximos de poder, a igualdade no Brasil seguirá existindo mais como teoria e promessa, do que como realidade e necessidade.

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EDITORIAL

Saúde e a falta de atendimento digno

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, falha com seus pacientes e toda a sociedade

24/06/2026 07h15

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Há algo profundamente errado quando um paciente consegue ser esquecido dentro de um hospital. Não se trata apenas de uma falha administrativa, de um problema de gestão ou de uma dificuldade financeira. Trata-se de uma afronta à dignidade humana.

E é exatamente isso que reportagem publicada nesta edição do Correio do Estado revela ao apresentar o conteúdo de um relatório da Defensoria Pública sobre a situação da Santa Casa de Campo Grande.

O documento descreve um cenário que deveria causar indignação em qualquer cidadão. Pacientes aguardam vagas e procedimentos por períodos incompatíveis com a urgência de seus quadros clínicos.

Há relatos de tratamentos inadequados, falhas no acompanhamento médico e situações em que pessoas permanecem à espera de cuidados básicos. O que se vê é um sistema que, em muitos casos, parece incapaz de oferecer aquilo que deveria ser sua missão principal: cuidar.

É preciso dizer com clareza que não estamos falando apenas de números, estatísticas ou relatórios. Estamos falando de pessoas. Homens, mulheres, idosos e crianças que chegam ao hospital em busca de ajuda e encontram uma estrutura que, frequentemente, não consegue responder às suas necessidades.

São cidadãos que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) e que, justamente por isso, tornam-se ainda mais vulneráveis.

A situação se torna mais grave porque o paciente que depende do SUS não tem alternativa. Quem tem recursos financeiros pode recorrer a hospitais particulares, buscar uma segunda opinião ou contratar um plano de saúde.

Já o cidadão pobre, quando entra em uma unidade pública ou conveniada ao SUS, entrega seu destino à capacidade do sistema de funcionar. E, conforme demonstram os relatos reunidos pela Defensoria Pública, essa confiança nem sempre é correspondida.

Existe uma ironia difícil de ignorar. Boa parte dos profissionais que atuam no sistema público de saúde e dos gestores responsáveis por hospitais conveniados ao SUS não utiliza a rede pública quando precisa de atendimento médico, recorre aos planos de saúde e aos hospitais privados.

Não há ilegalidade nisso, mas o fato expõe uma realidade desconfortável: muitos conhecem de perto as limitações do serviço que administram ou ajudam a prestar.

Outro argumento frequentemente utilizado para justificar os problemas da saúde pública é a falta de recursos. No caso de Campo Grande, porém, essa explicação não parece suficiente.

Todos os anos, mais de R$ 1 bilhão são transferidos pela União ao Município para custear ações e serviços do SUS. Trata-se de um volume expressivo de dinheiro público.

O que os fatos indicam é a necessidade urgente de melhorar a gestão dos recursos já disponíveis. Cada paciente esquecido, cada tratamento inadequado e cada demora injustificável representa não apenas sofrimento humano, mas também o fracasso na aplicação eficiente de recursos que pertencem à sociedade.

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos, independentemente da renda. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, não falha apenas com seus pacientes, falha com toda a sociedade.

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Crise de realidade e o novo papel da ficção

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si

23/06/2026 07h45

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Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano.

Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que atravessado pelo fantástico.

Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria realidade?

Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro.

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e emoções.

Nesse cenário, criar histórias fantásticas deixa de ser apenas um exercício de imaginação ou uma fuga baseada no “e se?” A ficção passa a funcionar também como um espaço de investigação. Um convite para recuperar o espanto, a dúvida e a curiosidade diante do mundo.

Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, imaginar talvez seja uma das últimas formas de observar com profundidade.

Para mentes bombardeadas por versões conflitantes da verdade, a ficção precisa assumir um novo papel social.

Se já não conseguimos concordar sobre o que acontece no noticiário, se a desconfiança atravessa instituições, discursos e imagens, talvez sejam as histórias que nos ajudam a reconstruir alguma experiência de identificação coletiva.

Afinal, ainda conseguimos reconhecer a injustiça, a perda, o medo e a esperança quando eles aparecem diante de nós em forma de narrativa. Contar histórias, hoje, talvez seja menos sobre escapar da realidade e mais sobre reaprender a enxergá-la.

Num mundo em que cada pessoa parece confinada à própria versão dos fatos, a ficção ainda pode abrir janelas, criar pontes e provocar perguntas difíceis.

A fantasia, quando nasce da observação honesta do mundo, não nos afasta do real. Pelo contrário: ela funciona como um espelho. E nos enxergar talvez seja exatamente o que precisamos nestes tempos.
 

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