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Os saltos da ciência no controle da obesidade

Cada movimento, neste universo, confirma que as novas drogas apontam para uma mudança de chave na abordagem clínica da doença, ainda mais eficaz e com resultados expressivos

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Em 2025, tivemos bons motivos para comemorar, quando nos demos conta dos saltos significativos no tratamento da obesidade, que registrou conquistas inéditas, com reduções acima de 20% do peso corporal por meio dos injetáveis, e estudos com drogas orais que, embora apresentem avanços e recuos por conta de possíveis riscos, têm projeções científicas favoráveis.

Agora mais um passo importante para abrir este ano: a comercialização, nos EUA, do Wegovy pill, o primeiro medicamento oral da classe dos agonistas de GLP-1 aprovado para tratamento da obesidade no país, que foi autorizado pela agência reguladora americana (FDA) e, a partir deste mês, já está à venda.

Cada movimento, neste universo, confirma que as novas drogas apontam para uma mudança de chave na abordagem clínica da doença, ainda mais eficaz e com resultados expressivos.

É um momento em que se pode redefinir como a obesidade é tratada, avaliando o equilíbrio entre a alta eficácia dos medicamentos e a segurança, embora ainda com certas restrições pelo alto custo.

Um ganho real é que, com os atuais fármacos, há evidências crescentes de benefícios metabólicos além da perda de peso, com desdobramentos que incluem a prevenção ou o tratamento de complicações vinculadas à obesidade.

Podemos dizer que vivemos uma corrida farmacológica promissora e que deve continuar nos próximos anos. As “big pharmas” têm investido alto em pesquisas nas terapias injetáveis – as populares canetas emagrecedoras.

Um dos destaques foi a esperada tirzepatida, medicamento que ativa dois hormônios, (GIP e GLP-1), cujos estudos apontam, em média, 22,9% de perda de peso após 176 semanas, além de apresentarem risco significativamente menor de desenvolver diabetes tipo 2.

E o que vem pela frente? O ritmo não para e, entre as alternativas da nova geração, está a retatrutida, um agonista triplo que envolve três hormônios – GLP-1, GIP e Glucagon – e que apresentou resultados impressionantes, com redução de até 24,2% do peso em 48 semanas.

A importância desse medicamento está no fato de que a combinação tripla tende a ser uma das mais vantajosas no tratamento da obesidade severa, gerando ampla expectativa em relação a estudos mais robustos e de longo prazo.

Mesmo neste cenário animador, há pontos que merecem reflexão, como o consumo seguro. Pelo alto valor dos fármacos, muitas pessoas têm buscado essas drogas de forma ilegal, o que traz sérios riscos à saúde, em razão dos cuidados com a origem, a conservação e a dose, podendo se tornar uma questão epidemiológica relevante.

A regulação e a vigilância do mercado paralelo despontam como alertas diante da alta demanda por remédios para emagrecimento com resultados rápidos.

As novas terapias são, sim, um passo de suma importância no tratamento da obesidade, mas não são milagrosas. É preciso prescrição médica e monitoramento da perda de peso, dos efeitos colaterais e dos riscos, com critérios clínicos que variam muito entre os países.

É uma jornada longa, e a adesão do paciente nem sempre é fácil, o que pode limitar os ganhos reais e favorecer recidivas caso o tratamento seja interrompido ou a dose reduzida. São dilemas clínicos abertos que sinalizam para a necessidade de integração de terapias, em muitos casos.

Iniciamos o ano confiantes, com um balanço com saldo positivo no ano passado, quando constatamos que os avanços na terapêutica da obesidade ingressaram numa fase mais personalizada e de resultados encorajadores.

O conhecimento científico, a segurança e a estratégia clínica individualizada foram e são os pilares dessa trajetória – e talvez o maior desafio para que médicos, indústria e órgãos reguladores se ajustem.

Afinal, evidências científicas, aliadas à qualidade de vida e ao acolhimento do paciente com obesidade, são prioridades no contexto de qualquer conduta de tratamento.

EDITORIAL

Rodar MS e a lógica da cooperação

Programa evidencia colaboração entre o Estado e a União e aposta em modelo eficiente, em que a manutenção rodoviária proativa se destaca

22/04/2026 07h15

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Em tempos de disputas políticas acirradas, é comum que se busque atribuir a paternidade exclusiva de programas governamentais. No entanto, a realidade da gestão pública mostra que grandes iniciativas dificilmente são fruto de um único ator.

Em muitos casos, o esforço para tirar projetos do papel é compartilhado entre diferentes esferas de poder e instituições.

O programa Rodar MS é um exemplo claro dessa dinâmica. Voltado à manutenção proativa de mais de 700 quilômetros de rodovias nas regiões Cone-Sul e Bolsão de Mato Grosso do Sul, o projeto evidencia como a cooperação pode resultar em políticas públicas mais eficientes. Trata-se da adoção do sistema Crema, modelo financiado com recursos do Banco Mundial e já testado em outras experiências de infraestrutura.

O diferencial do Crema está em sua lógica de funcionamento. Na prática, ele é uma espécie de parceria público-privada em escala reduzida. A empresa contratada não é remunerada apenas pela execução de obras pontuais, mas pelo desempenho contínuo ao longo do contrato, que é de longo prazo.

Quanto melhor o estado de conservação da rodovia – sem buracos, com sinalização adequada e segurança garantida –, maior tende a ser sua remuneração.

Esse modelo altera incentivos. Em vez de intervenções reativas, feitas apenas quando o problema já se agravou, o sistema estimula a manutenção preventiva. Para a empresa, é mais vantajoso evitar a deterioração do que remediá-la.

Para o poder público e, sobretudo, para o usuário, o ganho é evidente: estradas em melhores condições, com mais segurança e previsibilidade.

Outro ponto que merece atenção é o financiamento do programa. O empréstimo de R$ 1,2 bilhão foi contratado pelo governo de Mato Grosso do Sul, mas conta com o aval do governo federal, condição necessária em operações internacionais.

Isso ocorre porque, do ponto de vista jurídico, a soberania para esse tipo de compromisso é da União, já que estados não têm personalidade jurídica de direito internacional.

Longe de representar conflito, essa engrenagem institucional demonstra a importância da cooperação federativa. União e governo estadual cumprem papéis complementares para viabilizar investimentos relevantes, com impacto direto na infraestrutura e no desenvolvimento regional.

O Rodar MS, portanto, vai além da discussão sobre autoria. Ele evidencia que, quando há coordenação entre diferentes níveis de governo e adoção de modelos eficientes, os resultados tendem a ser mais consistentes.

Em um país de dimensões continentais, reconhecer e valorizar esse tipo de parceria é essencial para avançar.

Artigo

O eleitor mediano sumiu da corrida presidencial deste ano?

A corrida presidencial segue a todo vapor, trazendo uma pergunta que creio valer uma quantia milionária: o teorema do eleitor mediano da ciência econômica explica a conjuntura política do Brasil?

20/04/2026 07h30

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Professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Pesquisadora do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica.

A corrida presidencial segue a todo vapor, trazendo uma pergunta que creio valer uma quantia milionária: o teorema do eleitor mediano da ciência econômica explica a conjuntura política do Brasil?

O tal teorema, enunciado inicialmente pelo economista escocês Duncan Black, na década de 1940, prevê que candidatos com chance de vitória devem mirar em campanhas voltadas para o centro do espectro ideológico.

A lógica é a seguinte: em uma democracia com regra de maioria, aquele que se distancia do meio dá votos de bandeja para o seu rival ocupar o espaço.

O matemático Harold Hotelling, em 1929, ofereceu um raciocínio rigoroso e visualmente impactante sobre o assunto. Considere dois sorveteiros em uma faixa de praia.

Cada um deles, de maneira experimental, tenta várias opções para deixar o seu carrinho ou quiosque, mas a competição acirrada faz com que os dois percebam que o ponto mais lucrativo deve ser mesmo o centro da praia.

Ainda que na política a analogia seja válida, vale o alerta de que nem a praia e nem a política real têm consumidores distribuídos de maneira uniforme.

Tampouco podemos imaginar que os mais de 155 milhões de eleitores brasileiros tenham preferências organizadas como a famosa “curva do sino.”

Todos que acompanham as pesquisas de intenção de voto percebem retratos de um eleitorado polarizado em dois grandes picos comumente chamados de esquerda e direita, mesmo que as pessoas tenham dificuldade em compreender seus fundamentos.

Nesse cenário, as candidaturas do ex-governador de Goiás e o de Minas Gerais ao Executivo Federal parecem ser balões de ensaio para examinar se há mesmo fôlego para a moderação.

Ambos investem em temas que fisgam nossa atenção como a segurança pública, o combate à corrupção e a modernização do Estado. Além disso, defendem a anistia do ex-presidente Bolsonaro.

Estão de olho no mesmo eleitor de Flávio Bolsonaro e de outros descontentes com Lula da Silva e o mais recente ex-presidente. Difícil especular se eles conseguem mesmo mirar no eleitor mediano.

O grande erro de aplicar o teorema resulta da confusão entre os conceitos de mediana e média. A mediana é uma medida que divide o eleitorado exatamente ao meio, ou seja, uma metade prefere estar mais à esquerda, enquanto a outra, à direita.

Ela só se iguala com a média aritmética quando as preferências do espectro ideológico se distribuem de forma simétrica como a famosa “curva do sino.”

Porém, hoje, temos intenções de votos que sugerem uma distribuição com dois picos e, por isso, a mediana pode estar em uma região diferente do que se espera de um eleitorado de preferência moderada, nem progressista e nem conservador.

Isso quer dizer que o teorema caducou? Não, ele apenas precisa ser melhor interpretado. Para começar, o eleitor real não tem preferências unidimensionais.

Há todo o tipo de gente: conservadores nos costumes e liberais na economia; liberais em tudo; conservadores nos costumes e intervencionistas; e combinações que desafiam o entendimento sobre o eixo esquerda-direita.

Além disso, o espectro ideológico não é estático: aumento da violência, novos escândalos de corrupção, mudanças tecnológicas e transformações econômicas variadas transformam as crenças dos eleitores.

A metáfora da praia do matemático muda a forma da faixa de areia assim como os sorveteiros candidatos deslocam-se para ganharem mais clientes ou votos.

O baixo entusiasmo com o governo de plantão pode ser um indício da mudança. O eleitor de hoje provavelmente não parece mais seduzido pelos programas de assistência; eles já são tidos como obrigação do Executivo Federal. Sendo assim, apostar todas as fichas no debate nessa pauta pode ser tão arriscado quanto a estratégia do microempreendedor tentando vender sorvete numa praia em que pessoas desejam bebidas ricas em proteína.

Se a analogia estiver correta, vale especular se o eleitor mediano busca um Estado moderno que reduza custos de transação, resolva o sério problema de segurança e combata o câncer da corrupção.

Talvez o eleitor não queira que o Estado resolva tudo para ele e tampouco deseje que a solução de todos os seus problemas venha do Estado; só anseie que o Estado limpe o jardim para que ele possa plantar o que precisar ou desejar. Afinal, não é disso que se trata o desenvolvimento humano?

Certamente, nem tudo é economia, a despeito do slogan de James Carville na campanha de Bill Clinton em 1992 “It´s the economy, stupid.” Não há como negar que a política tem muito das paixões, identidades e investidas tribais, que desafiam a lógica do cálculo racional.

Sendo assim, vale seguir o aviso do Nobel de Economia Amartya Sen, em seu “Identidade e Violência”: perigoso é acreditar em uma única identidade tribal que precisa rivalizar e destruir outras para sobreviver. Steven Pinker chama atenção para nossos dois chips mais importantes: nascemos com o do instinto de sobrevivência e o da racionalidade, é uma conquista cultural e merece ser preservada. Sem eles fica difícil neutralizar a marcha da insensatez.

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