Em 2023, os gastos mensais dos brasileiros com as chamadas bets eram da ordem de R$ 4 bilhões. Em dezembro do ano passado, conforme as mesmas estimativas, os gastos haviam saltado a R$ 25 bilhões.
E, por conta desta doentia explosão, o endividamento de milhões de brasileiros simplesmente chegou a patamares insuportáveis, em torno de 80%.
Uma pesquisa indicou que 57% dos endividados que apostaram em bets não eram inadimplentes antes de começarem a jogar, indicando uma relação direta entre o início das apostas e o surgimento das dívidas.
Mesmo assim, estas bets continuam patrocinando artistas, atletas, celebridades das redes sociais e as mais variadas modalidades esportivas.
No novo programa de renegociação de dívidas (Novo Desenrola Brasil), uma das determinações é que pessoas beneficiadas pelo programa fiquem durante um ano proibidas de fazerem apostas.
Quem aposta precisa informar seu CPF e, conforme as normas do Desenrola 2.0, os dados de todos os atendidos terão de ser repassados às empresas que administram a jogatina.
É possível que a medida até tenha alguma eficácia. Mas, como este mundo da jogatina é parcialmente clandestino, boa parte das empresas tende a ignorar a determinação oficial e continuar embolsando o dinheiro destas pessoas que literalmente estão viciadas.
O Novo Desenrola Brasil, apesar de o presidente Lula ter declarado uma série de vezes que, se dependesse dele, todas as bets seriam proibidas, não prevê nada neste sentido.
O temor é de que ocorra muita reação daqueles que são bancados com estes recursos vergonhosos. Algo parecido ocorreu em décadas passadas, quando se chegou à conclusão de que era necessário enfrentar o consumo desenfreado de cigarros.
A publicidade acabou sendo extinta por completo. Logo depois vieram as restrições à publicidade de bebidas alcoólicas. Estas regras, contudo, são restritas às bebidas com teor alcoólico acima de 13%, deixando de fora as cervejas.
Ou seja, as autoridades se dobraram ao enorme potencial de faturamento publicitário que o setor representava.
As bets têm potencial destrutivo igual ou superior ao dos cigarros e das bebidas juntos. Prova disso é a rapidez com que se espalharam e colocaram de joelhos milhões e milhões de brasileiros.
Este Desenrola, o segundo em um curto espaço de tempo, significa o mesmo que enxugar gelo se as autoridades não tiverem coragem de colocar um freio na jogatina. E não é somente isso. Outro causador do endividamento, e que é tão poderoso quanto as bets, é o cartão de crédito.
Enquanto não houver limites para os juros abusivos do sistema financeiro, fatalmente o problema do endividamento vai aumentar.
Alguém pode entender que só faz apostas ou só faz compras no cartão de crédito quem quer e que são todos adultos. Mas, se fosse tão simples assim, não precisaria haver regras nem punições para nenhum setor da sociedade, já que, em tese, são todos adultos.
A oferta desenfreada de crédito e a sedução do dinheiro fácil obtido por meio de apostas simplesmente inebriam e literalmente enganam os mais vulneráveis.
Nenhuma propaganda de banco ou de bet diz que os juros anuais chegam a 400% ou que mais de 90% dos apostadores saem no prejuízo.
Então, escondem a verdade, automaticamente enganam os mais vulneráveis e, por isso, precisam ser criadas regras mais rígidas com urgência para impor limites a estes dois setores.


