Artigos e Opinião

EDITORIAL

Programas sociais e falta de porta de saída

O sucesso dos programas não está em quantos ingressam no sistema, mas em quantos conseguem deixá-lo com dignidade, autonomia e acesso a oportunidades de trabalho e renda

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Os programas sociais, criados e institucionalizados há quase três décadas no Brasil, deixaram de ser políticas experimentais para se tornarem parte permanente da vida nacional. Idealizados e ampliados por governos de diferentes espectros políticos – direita, centro e esquerda –, foram mais associados historicamente a gestões progressistas.

Seus resultados são visíveis e não podem ser negados: ajudaram o País a sair do mapa da fome, reduziram a miséria extrema e ofereceram alívio imediato a milhões de famílias que se encontravam em condições insustentáveis de sobrevivência.

É importante, porém, estabelecer uma distinção fundamental. Miséria e pobreza não são a mesma coisa. A miséria, marcada pela completa ausência de condições mínimas, foi de fato combatida com relativo sucesso.

Já a pobreza, que envolve desigualdade de renda, falta de acesso a oportunidades e vulnerabilidades permanentes, segue presente de forma estrutural, mesmo com os avanços proporcionados pela assistência social.

Os programas também consolidaram no Brasil a ideia de transferência de renda, hoje debatida no mundo todo sob o conceito de renda mínima. Essa discussão ganhou fôlego justamente porque o avanço tecnológico nos meios de produção e a automação vêm reduzindo a necessidade do trabalho humano, sobretudo em atividades de baixa qualificação.

Nesse cenário, instrumentos de proteção social se tornam não apenas paliativos, mas estratégicos para evitar colapsos sociais diante de mudanças profundas no mercado de trabalho.

O grande problema é que o Brasil ainda não conseguiu atualizar seus programas. Durante anos, as atenções estiveram voltadas para a porta de entrada: como ampliar o acesso e identificar beneficiários. A porta de saída, por sua vez, quase nunca foi pensada.

Como resultado, muitas famílias permanecem indefinidamente no sistema, sem estímulo ou condições para dele sair, e os programas se transformam em permanentes, quando deveriam ser transitórios.

Essa ausência de mecanismos claros de desligamento gera distorções sérias. Programas sociais não podem competir com o mercado de trabalho. Quando o valor da bolsa se aproxima do salário mínimo ou da média salarial regional, cria-se um desincentivo ao emprego formal.

O trabalhador, ao comparar esforço e remuneração, pode preferir a segurança do benefício ao ingresso em postos de baixa remuneração, provocando escassez de mão de obra em alguns setores e distorções na economia local.

Outro ponto delicado é o risco de captura política. No caso do Bolsa Família, por exemplo, a autonomia de prefeituras e Cras na gestão de cadastros dá margem para práticas clientelistas, em que o acesso ao benefício pode se transformar em instrumento de barganha por votos.

Tal uso eleitoral enfraquece a credibilidade do programa e o distancia de seu objetivo social, que é garantir dignidade às famílias mais pobres.

É urgente pensar na porta de saída e no acompanhamento dos beneficiários. Sem isso, os programas correm o risco de se transformarem em complementos de renda para pessoas que permanecem na informalidade, competindo de forma desleal com trabalhadores formais. Nesse caso, o Estado acaba sustentando uma distorção dupla: alimenta a dependência e fragiliza o mercado.

O verdadeiro sucesso não está em quantos ingressam no sistema, mas em quantos conseguem deixá-lo com dignidade, autonomia e acesso a oportunidades de trabalho e renda. Esse deve ser o desafio central das próximas décadas: transformar a rede de proteção em trampolim, e não em armadilha de dependência.

Editorial

Hidrovia exige equilíbrio e fiscalização

Não se pode desconsiderar a necessidade de desenvolvimento econômico do Pantanal, que enfrenta desafios históricos de infraestrutura, logística e de oportunidades

25/03/2026 07h15

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O debate sobre a hidrovia do Rio Paraguai expõe, mais uma vez, um dilema recorrente no Brasil: como conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.

No caso específico da região Pantaneira, essa equação é ainda mais sensível. O avanço de um projeto dessa magnitude exige cautela, planejamento e, sobretudo, transparência.

Mas é preciso deixar claro: desenvolvimento e proteção ambiental não são objetivos incompatíveis. Com regras bem definidas e fiscalização efetiva, é possível avançar de forma responsável.

Nesta edição, mostramos que a COP15 tem sido utilizada como palco para questionamentos à concessão da hidrovia à iniciativa privada. Trata-se de uma manifestação pública legítima e pertinente.

Grandes projetos de infraestrutura, especialmente em áreas ambientalmente sensíveis, precisam ser amplamente discutidos.

O escrutínio da sociedade civil, da comunidade científica e de organizações ambientais é parte essencial de qualquer processo democrático.

Esse debate é, inclusive, saudável. Em uma concessão desse porte, é fundamental que o edital de licitação não deixe brechas que possam comprometer o meio ambiente ou a segurança da operação. Da mesma forma, a fiscalização precisa ocorrer de fato, e não apenas no papel.

Sem mecanismos rigorosos de controle, qualquer promessa de equilíbrio entre crescimento e preservação perde credibilidade. A transparência, nesse contexto, é tão importante quanto o projeto.

Os ambientalistas têm razão ao demonstrar preocupação. O Pantanal é um dos biomas mais frágeis e valiosos do planeta, e qualquer intervenção deve considerar seus limites naturais.

Ignorar esses alertas seria irresponsável. No entanto, também não se pode desconsiderar a necessidade de desenvolvimento econômico da região, que enfrenta desafios históricos de infraestrutura, de logística e de oportunidades.

A população pantaneira merece crescer com qualidade de vida, geração de emprego e melhores condições de integração econômica. Esse desenvolvimento, porém, precisa ocorrer de forma responsável, planejada e sustentável.

O caminho não está na paralisação de projetos nem na sua execução apressada, mas no equilíbrio. Conciliar progresso e preservação não é apenas possível – é uma obrigação. Essa é a nossa posição.

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Artigo

Quebrar criptografia não é mágica: o papel da tecnologia forense em investigações

É essa combinação que permite transformar informações aparentemente inacessíveis em dados passíveis de análise

24/03/2026 07h45

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A CNN Brasil noticiou recentemente que a Polícia Federal conseguiu quebrar a criptografia e acessar os dados de um celular pertencente a Daniel Vorcaro, no contexto do caso do Master. Segundo a reportagem, o conteúdo do aparelho já foi acessado e os dados serão compartilhados com a investigação.

Notícias como essa chamam atenção porque reforçam uma percepção comum, e muitas vezes equivocada, de que dados protegidos por criptografia são, por definição, inacessíveis.

Na prática, o acesso a informações criptografadas não é simples nem trivial. Trata-se de um trabalho altamente técnico, que só se torna viável com o uso de tecnologia forense avançada, combinada a método, conhecimento especializado e procedimentos rigorosamente definidos.

É essa combinação que permite transformar informações aparentemente inacessíveis em dados passíveis de análise, preservando integridade, contexto e valor probatório.

No caso citado pela reportagem, há um ponto tecnicamente relevante: mesmo sem a colaboração do investigado no fornecimento da senha do dispositivo, a Polícia Federal conseguiu acessar os dados armazenados no aparelho e superar uma camada adicional de proteção criptográfica.

Esse cenário ilustra o nível de sofisticação das ferramentas forenses disponíveis atualmente quando aplicadas de forma adequada, com base em conhecimento técnico aprofundado e processos bem estruturados.

Ferramentas forenses especializadas, como as desenvolvidas pela empresa israelense Cellebrite, ou soluções como o Verakey, da Magnet Forensics, existem justamente para lidar com cenários complexos: dispositivos protegidos por senha, criptografia ativa, dados excluídos intencionalmente e situações em que não há cooperação do usuário para acesso ao conteúdo.

Diferentemente do imaginário popular, esse acesso não ocorre por tentativa e erro, mas por meio de técnicas avançadas de extração e análise, capazes de identificar registros internos, artefatos digitais e informações residuais que permanecem no dispositivo.

Todo esse processo precisa ser conduzido de forma documentada e tecnicamente defensável. Princípios como integridade da evidência, rastreabilidade e cadeia de custódia são fundamentais para garantir que os dados recuperados possam ser corretamente analisados, contextualizados e, quando necessário, utilizados em processos administrativos ou judiciais. Sem esse rigor, a informação perde valor técnico e jurídico.

Há, naturalmente, diferenças entre o uso dessas tecnologias no setor público e no setor privado, mas essas diferenças não estão na tecnologia em si. No âmbito público, órgãos de investigação utilizam essas ferramentas com base em autorizações judiciais e dentro de procedimentos legais específicos.

Algumas funcionalidades mais sensíveis são restritas às forças de lei, por envolverem prerrogativas próprias da atividade policial.

No setor privado, por sua vez, a tecnologia forense é amplamente utilizada em investigações internas, apurações de fraude, incidentes de segurança da informação, disputas corporativas, atividades de compliance e auditoria.

Na Protiviti, por exemplo, contamos com plataformas forenses amplamente reconhecidas e utilizadas globalmente, operadas por profissionais qualificados, para apoiar empresas na apuração de fatos, identificação de irregularidades e tomada de decisões baseadas em evidências técnicas, sempre em conformidade com os limites legais e as melhores práticas de governança.

Casos amplamente divulgados pela imprensa, como o de Vorcaro, reforçam uma realidade cada vez mais presente no ambiente corporativo: dados digitais deixam rastros. Saber lidar com esses rastros de forma responsável, técnica e estruturada é um diferencial estratégico.

A tecnologia forense digital cumpre justamente esse papel, trazer clareza, confiabilidade e sustentação técnica para decisões críticas, fortalecendo a integridade dos processos investigativos e a confiança das organizações em suas próprias respostas.

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