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Qual é a função social da fé em um país desigual?

A tradição cristã reformada oferece uma resposta clara: não existe separação legítima entre fé e responsabilidade social

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O Brasil convive, há décadas, com desigualdades profundas que se expressam no acesso desigual à educação, à saúde, à moradia e às oportunidades básicas de desenvolvimento humano.

Diante desse cenário, torna-se inevitável uma pergunta incômoda para quem professa a fé cristã: qual é o papel da fé em um país estruturalmente desigual? Trata-se apenas de uma experiência individual, restrita ao campo da espiritualidade privada, ou de uma convicção que se manifesta também na vida pública e nas relações sociais?

A tradição cristã reformada oferece uma resposta clara. Não existe separação legítima entre fé e responsabilidade social.

A espiritualidade cristã, quando coerente com o Evangelho, atravessa todas as dimensões da vida, pessoais, comunitárias e sociais. Fé que se limita ao discurso ou à prática religiosa interna perde sua força transformadora e se distancia do testemunho bíblico.

A Escritura é explícita ao vincular fé e ação. O profeta Miqueias resume essa vocação ao afirmar que Deus requer do ser humano justiça, misericórdia e humildade (Mq 6:8). No Novo Testamento, o apóstolo Tiago é ainda mais direto ao afirmar que a fé que não se expressa em obras concretas está morta.

Não se trata de negar a centralidade da graça, mas de reconhecer que a fé autêntica produz frutos visíveis na forma como o cristão se relaciona com o outro, especialmente com os mais vulneráveis.

Jesus, ao contar a parábola do bom samaritano, desloca o debate religioso da retórica para a prática. A verdadeira fé não se mede pela identidade religiosa ou pelo discurso correto, mas pela capacidade de reconhecer o próximo na dor do outro e agir com compaixão concreta.

Esse ensino permanece profundamente atual em uma sociedade marcada pela indiferença e pela normalização da desigualdade.

Na tradição reformada, João Calvino enfatizou que os bens materiais não são propriedades absolutas, mas dons de Deus confiados às pessoas para o bem comum. Ignorar a necessidade do outro, segundo ele, não é apenas uma falha moral, mas uma contradição direta da fé cristã.

Essa compreensão moldou, ao longo dos séculos, uma ética que valoriza educação, assistência social e cuidado com os mais frágeis, reconhecendo em cada pessoa a dignidade de portar a imagem de Deus.

Pensadores reformados posteriores, como Abraham Kuyper, ampliaram essa visão ao afirmar que não existe área da vida humana fora da soberania de Cristo.

Isso não significa instrumentalizar a fé para fins partidários ou ideológicos, mas reconhecer que cristãos são chamados a contribuir para o bem comum, promovendo justiça, dignidade e responsabilidade social em todas as esferas da vida.

No contexto brasileiro, essa reflexão ganha contornos urgentes. A fé cristã não substitui o papel do Estado nem oferece soluções simplistas para problemas complexos, mas pode – e deve – formar consciências, incentivar práticas solidárias e inspirar ações que promovam justiça social.

Ignorar as desigualdades ou espiritualizá-las excessivamente compromete a credibilidade do testemunho cristão no espaço público.

Como destaca Timothy Keller, a justiça não é um tema periférico do cristianismo, mas parte central da mensagem bíblica. Uma fé que fecha os olhos para a injustiça social corre o risco de se tornar irrelevante ou, pior, cúmplice de estruturas que perpetuam exclusão e sofrimento.

Em tempos de polarização, discursos rasos e soluções fáceis, o cristianismo reformado pode oferecer uma contribuição valiosa ao debate público: a convicção de que fé verdadeira se expressa em amor ativo, misericórdia concreta e compromisso com a justiça.

Em um país tão desigual como o Brasil, a fé cristã precisa ser mais do que discurso. Precisa ser presença, serviço e esperança.

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EDITORIAL

Fundersul e o dever de investir bem

Se o Estado tiver uma boa safra neste ano, é plausível imaginar que a arrecadação do Fundersul volte ao auge em curto prazo, depois da queda de receita em 2024

18/02/2026 07h15

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A volta do faturamento bilionário do Fundo de Desenvolvimento do Sistema Rodoviário de Mato Grosso do Sul (Fundersul) é, sem dúvida, uma boa notícia para Mato Grosso do Sul.

Trata-se de um indicador relevante tanto para o governo do Estado quanto para o agronegócio, setor que banca o fundo e que depende diretamente da qualidade da infraestrutura rodoviária para escoar sua produção.

Depois de um 2024 marcado por frustração de receitas, o fundo recupera musculatura e volta a superar a marca de R$ 1 bilhão.

Ainda não alcança, é verdade, o patamar registrado em 2023, quando houve sobra de recursos e até rendimentos financeiros expressivos. Mas o simples fato de retomar o nível bilionário já demonstra uma reação importante.

Se o Estado tiver uma boa safra neste ano, é plausível imaginar que o Fundersul volte ao auge de arrecadação em curto prazo.

A queda verificada anteriormente não foi um fenômeno isolado da contabilidade pública. Ela refletiu a quebradeira enfrentada pelo agro em 2024, pressionado por custos elevados, crédito mais caro e oscilações de mercado.

Quando o campo sofre, a arrecadação do fundo também sente. Até o ano passado, os efeitos dessa retração estavam visíveis nos números.

Mas mais importante do que celebrar cifras é cobrar eficiência. Não basta que entre muito dinheiro. É fundamental que a gestão do fundo faça a diferença concreta para MS.

O investimento precisa se traduzir em rodovias melhores, em manutenção permanente, em obras estruturantes que mudem a realidade logística e também em intervenções urbanas capazes de transformar a face das cidades.

Estrada boa significa competitividade para o produtor, mas também segurança e qualidade de vida para quem vive nos municípios.

Criado em 1999, o Fundersul nasceu sob forte resistência de parte de quem o financiava. À época, havia desconfiança quanto à sua eficácia e ao peso da contribuição.

Passadas mais de duas décadas, o fundo resistiu ao tempo e se consolidou como instrumento estratégico de investimento. Hoje, é celebrado não apenas pelo governo, mas por grande parte da população que reconhece nas obras viárias um dos pilares do desenvolvimento estadual.

Em um cenário em que aumentar impostos é politicamente difícil e economicamente arriscado, ter um fundo robusto, vinculado à atividade produtiva, ajuda o Estado a manter investimentos e aliviar sua situação financeira.

O desafio, agora, é garantir que cada real arrecadado retorne em forma de progresso. O número é importante. A gestão é decisiva.

ARTIGO

Logística no agronegócio: como superar os desafios do pico da safra

Grande parte dessa operação nasce em regiões distantes dos centros urbanos e dos portos, o que torna a infraestrutura um dos principais desafios para o escoamento

17/02/2026 08h45

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A cada nova safra, o agronegócio brasileiro reafirma sua relevância no cenário global. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a estimativa é uma safra de 345,6 milhões de toneladas em 2025, a maior já observada no Brasil, sendo 18,1% superior a de 2024. Esses números evidenciam a força do setor e, ao mesmo tempo, a urgência de uma logística capaz de acompanhar o crescimento. À medida que os números avançam e a produtividade se consolida como um diferencial competitivo, fica claro que a eficiência na operação deixou de ser apenas uma parcela da preocupação para se tornar parte essencial e estratégica, especialmente nas épocas em que o volume é concentrado e a pressão sobre toda a cadeia aumenta.

Grande parte dessa operação nasce em regiões distantes dos centros urbanos e dos portos, o que torna a infraestrutura um dos principais desafios para o escoamento. Estradas rurais pouco preparadas, acessos fragilizados e gargalos históricos ao longo dos corredores logísticos impactam diretamente custos, prazos e previsibilidade. Mesmo com avanços graduais na malha nacional, a infraestrutura física ainda evolui de forma mais lenta que a demanda, o que reforça a importância de soluções digitais sólidas, baseadas em dados, inteligência e integração, e capazes de compensar as questões de limitações estruturais.

Outro ponto crítico é a escassez de caminhões e motoristas durante o pico da safra. A concentração de demanda pressiona valores de frete e reduz a capacidade de resposta do setor, intensificando um desafio que se repete ano após ano, especialmente em um país onde cerca de 68,8% do fluxo de soja ainda depende do transporte rodoviário, segundo dados do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-Log). Esse nível de concentração torna o sistema mais sensível a qualquer oscilação, e é justamente nesse contexto que as plataformas digitais ganham protagonismo ao conectar embarcadores e transportadores com maior rapidez e assertividade, melhorando a alocação de recursos e reduzindo o impacto da sazonalidade.

Quando combinamos previsibilidade, transparência e dados em tempo real, deixamos de reagir ao gargalo para antecipá-lo.

“O movimento já faz parte da transformação mais profunda que o setor logístico vive. A digitalização de ponta a ponta elimina burocracia, amplia visibilidade e melhora a colaboração entre todos os agentes da cadeia. A otimização de soluções com recursos como automação e uso de inteligência artificial trazem velocidade e precisão às operações críticas, enquanto o rastreamento de cargas pode estabelecer um novo padrão de transparência e segurança. Visibilidade, que antes era diferencial, tornou-se requisito básico para operar em grande escala.

A alta temporada do agronegócio, portanto, não deve ser vista apenas como um período de tensão operacional, mas como oportunidade para elevar o patamar logístico do setor. Quando unimos tecnologia, integração, inteligência e presença operacional, transformamos desafios históricos em vantagem competitiva, conectando o campo à estrada por meio de uma logística que responde ao agora e evolui para um futuro sustentado por líderes estratégicos, cadeias mais integradas e uma convivência madura entre o digital e o físico.

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