O voto é obrigatório no Brasil. Apesar disso, a abstenção eleitoral vem crescendo em Mato Grosso do Sul de modo muito lento e gradual, mas constante. De 2006 para cá, ela cresceu em média 1% a cada eleição.
Parece pouco, mas já alcançou 22,1% em 2022, acumulando alta de 4,7% em 20 anos. Novamente, parece pouco, mas não é: o eleitorado de Mato Grosso do Sul cresceu 27% no mesmo período ou, em valores absolutos, mais de 400 mil pessoas.
Os 22% de abstenção das eleições de 2022 significaram 440 mil eleitores a menos nas urnas. Ou seja, é como se o crescimento do eleitorado, acumulado em duas décadas, tivesse sido anulado pela abstenção.
Contudo, Mato Grosso do Sul não destoa do cenário nacional, pois a abstenção no Brasil como um todo foi de aproximadamente 21% em 2022. Logo, a tendência observada em MS está alinhada à tendência nacional, mas o cenário desagregado em cada estado varia muito, não havendo tendência única entre eles.
Quais fatores contribuem para as pessoas não participarem das eleições? A primeira é a idade. Em 2022, quase 60% dos eleitores acima de 70 anos não foram às urnas.
As razões para isso são relativamente claras: voto facultativo acima dos 70 anos e maiores dificuldades de locomoção. O segundo grupo de idade com maior abstenção são jovens de 18 anos a 24 anos (22% em 2022).
Embora o voto seja facultativo para a faixa etária de 16 anos a 17 anos, a abstenção entre tais jovens foi de apenas 16%. Por ser facultativo, nem todo jovem de 16-17 anos se alista eleitoralmente. Logo, aquela abstenção se refere apenas aos jovens que se cadastram para votar, e não aos jovens daquela idade como um todo.
Com relação à escolaridade, a tendência é muito clara também: quanto mais anos de estudos, menor abstenção eleitoral. Em 2022, analfabetos (52%) e pessoas que apenas leem e escrevem (31%) lideraram a abstenção. Aqueles que têm ensino médio completo ou ensino superior, ainda que incompleto, mal ultrapassam 15% de abstenção.
Outro fator menos visível é o perfil da competição eleitoral. Ela pode ser analisada a partir de duas dimensões: oferta eleitoral e intensidade da disputa. Se houver poucos candidatos e/ou os perfis desses candidatos forem muito parecidos, o eleitor poderá julgar que seu voto não fará diferença.
Aqui, o exemplo clássico é o efeito desmobilizador de escândalos generalizados ou reiterados de corrupção: se todo político é corrupto, então são todos iguais. Se todos são iguais, meu voto não fará diferença.
Mas, a intensidade da disputa eleitoral pode ter efeito visível independente, até certo ponto, da própria oferta eleitoral. Basta observar o seguinte: a abstenção eleitoral é levemente crescente no Brasil como um todo desde 2010 em diante, mas houve duas ocasiões em que tal tendência se reverteu parcialmente.
Ambas em segundo turno. O primeiro caso foram as eleições de 2014, acaloradamente disputadas entre Dilma (PT) e Aécio (PSDB).
Nessas eleições, a abstenção em primeiro turno foi maior que a registrada no primeiro turno anterior (2010). Contudo, a abstenção no segundo turno de 2014 foi menor que a do segundo turno de 2010. O mesmo ocorreu em 2022, quando comparado a 2018.
As eleições de 2022 ainda registram outro fato inédito, pelo menos nas eleições de 2002 para cá: a abstenção em segundo turno foi menor que a do primeiro turno em pelo menos 15 estados do País. Acumuladamente, a abstenção do Brasil como um todo também recuou levemente no segundo turno.
Para as eleições deste ano, o mesmo padrão é esperado: a rejeição a Lula (PT) ou a Flávio Bolsonaro (PL) fará muitas pessoas não irem às urnas no primeiro turno. Mas, se houver segundo turno, essa mesma rejeição poderá fazer mais eleitores saírem de casa para votarem “contra” o candidato que mais rejeitam.


