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Retrospectiva deste ano: as tensões no xadrez da política nacional

No contexto nacional, o principal deles é, sem dúvida, a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado

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Este ano foi marcado por eventos políticos de impacto no Brasil e no mundo. No contexto nacional, o principal deles é, sem dúvida, a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Embora o julgamento tenha sido realizado apenas no fim do ano, a acusação formal ocorreu em fevereiro e os diversos desdobramentos do processo provocaram uma enorme tensão política no País ao longo de todo o ano, com acirramento do clima da polarização, reflexos na crise institucional interna, além de impactos econômicos e diplomáticos.

A análise retrospectiva do ano nos mostra que, já no mês de março, o Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou a denúncia feita pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Bolsonaro. O ex-presidente se tornou réu no processo, fato que acirrou os ânimos da direita, culminando em uma série de protestos em todo País nos meses que antecederam o julgamento.

Na busca por apoio externo, Bolsonaro abriu diálogo com os EUA e, na sequência, o governo americano anunciou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, que reagiu com abertura do inquérito contra Flávio Bolsonaro por suposta atuação contra o judiciário.

Em junho, o depoimento de Bolsonaro no STF foi mais um momento de tensão, que levou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a se posicionar em favor do ex-presidente em suas redes e, logo em seguida, anunciar o tarifaço de 40% sobre produtos brasileiros, que chegou a 50% somado aos 10% que já haviam sido impostos anteriormente.

Dias depois, a Polícia Federal (PF) apontou risco de fuga e Bolsonaro passo a usar tornozeleira eletrônica, que mais tarde seria avariada, fato que o levou à prisão na sede da PF em Brasília.

Em agosto, já havia sido determinada a prisão domiciliar de Bolsonaro e, em setembro, veio a condenação or golpe. Agora, a defesa pede que lhe seja concedida prisão domiciliar humanitária, em razão de problemas de saúde.

Em paralelo, a direita se mostra desnorteada sem a definição rápida de um nome capaz de liderar o movimento conservador no País e, especialmente, de ir às urnas em 2026.

Em meio a todo esse cenário, Lula viu sua imagem se fortalecer na opinião pública, especialmente após os ataques do governo americano contra o Brasil.

Embora inicialmente tenha sido criticado pela falta de habilidade diplomática, mais tarde o presidente ainda acabou conseguindo abrir diálogo com Trump que, no fim do ano, se posicionou pela remoção das tarifas impostas aos produtos agrícolas brasileiros.

As conversas entre ambos ainda incluem debates sobre ampliação das ações de cooperação das duas nações no combate ao crime organizado internacional, evidenciando que o governo federal compreendeu que a segurança pública precisa estar no centro da pauta.

O novo posicionamento veio especialmente em razão dos estragos políticos causados pela Operação Contenção, deflagrada pelo governo do Rio de Janeiro contra a facção criminosa Comando Vermelho nos complexos do Alemão e da Penha.

A ação chamou a atenção de todo País ao deixar 122 pessoas mortas, número que ultrapassa o massacre do Carandiru, sendo considerada a mais letal do País. O episódio acabou ocupando grande espaço na narrativa ideológica nacional, com embates intensos entre direita e esquerda, e ainda evidenciou um racha importante entre lideranças do PT.

Além da crise interna partidária, o governo de Lula ainda enfrentou momentos de desgaste com a Câmara dos Deputados, que giraram em torno de pautas como a PEC da Blindagem, o chamado PL da Devastação, a MP da Taxação BBB (bilionários, bets e bancos) e o PL da Anistia.

A realização da COP30 no Brasil, inicialmente considerada uma vitória e oportunidade de prestígio internacional para Lula, também acabou se tornando momento conturbado, com as imagens da invasão e do incêndio nos pavilhões repercutindo de forma negativa em todo o mundo.

Fora da esfera política, o ano foi marcado por episódios como os casos de intoxicações e mortes por metanol, o tornado que atingiu o Paraná deixando o município de Rio Bonito do Iguaçu completamente destruído, e a morte comovente da brasileira Juliana Marins no Monte Rinjani, na Indonésia.

Os debates sobre a proteção de menores da internet também tiveram dois momentos importantes no decorrer do ano, sendo o primeiro motivado pelo lançamento da série “Adolescência”, na Netflix, e o segundo, pelas denúncias do influencer digital Felca, que detalhou ações de pedófilos no ambiente virtual.

Para 2026, quando se realizam novas eleições presidenciais, a tendência é que sejam ampliadas ainda mais as tensões já instaladas no xadrez da política nacional. O que podemos esperar é que, apesar da radicalização, os debates sobre as disputas ideológicas ocorram de forma respeitosa, com a construção de um processo eleitoral íntegro e democrático.

Editorial

Quando a ganância ameaça um paraíso

Saúde, natureza e o Estado não podem sucumbir à ganância empresarial de uma empresa que polui o Pantanal com licença provisória de órgão ambiental

13/10/2026 07h10

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Mato Grosso do Sul construiu sua imagem nacional e internacional sob a promessa de um desenvolvimento sustentável, que harmoniza a força de seu polo industrial com a preservação de seus biomas.

Contudo, denúncias recentes em Aquidauana, mais precisamente contra a empresa Simasul, colocam essa narrativa à prova e acendem um grave alerta: até que ponto o crescimento econômico está sendo colocado acima da saúde pública, do bioma e do cumprimento das leis?

A representação protocolada contra a Simasul Siderurgia aponta irregularidades graves: a operação simultânea de dois altos-fornos sem a devida licença, produção de ferro-gusa acima dos limites autorizados e a ausência de monitoramento de emissões atmosféricas por mais de dois anos.

Para quem vive no entorno da fábrica, o problema não é só pó preto sobre as casas, ruído constante e receio quanto aos impactos da fuligem na saúde.

Diante disso, desenha-se um dilema inaceitável. Se o atropelo das normas ambientais visa acelerar a produção e maximizar lucros, estamos diante da ganância corporativa.

Se a permanência dessas falhas decorre da lentidão ou da conivência dos órgãos de controle em estancar os desvios, o diagnóstico é de incompetência institucional.

A resposta exige rigor em toda a cadeia de responsabilidades. A cobrança primária recai sobre o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), que não pode somente limitar sua atuação à concessão de licença prévia, vistorias burocráticas e laudos intermináveis – aí é onde a fiscalização precisa ser ágil e punitiva, em se confirmando as irregularidades.

No campo da engenharia, cabe ao Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul (Crea-MS) fiscalizar a conduta dos responsáveis técnicos e garantir o cumprimento estrito das Anotações de Responsabilidade Técnica (ART).

Neste espaço, não estamos aqui para condenar A ou B, mas simplesmente alertar o órgão (Imasul) e sua diretoria a fazer uma varredura no processo de concessão da licença e buscar o motivo de uma empresa desse porte trabalhar com tanta desenvoltura.

O fechar de olhos das instituições é o mesmo que ser conivente com o problema, e aí cabe recorrer ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul e exigir soluções.

A responsabilidade se estende também ao mercado comprador, em que existe uma sigla em voga que é o ESG – Environmental, Social and Governance (em português: Ambiental, Social e Governança).

As indústrias e as fundições que compram os materiais produzidos sob suspeita de irregularidade ambiental precisam assumir seu papel na governança e na rastreabilidade e, confirmando-se essa situação, suspender a compra dos produtos dessa empresa imediatamente.

Ao Imasul, cabe cassar a licença provisória que está virando fixa e lacrar os fornos e ao Crea-MS, suspender a carteira profissional dos profissionais envolvidos.

ARTIGO

Segunda época

12/10/2026 08h15

Arquivo

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Precisamente no século passado, quando ainda no colégio, eu era craque em desenho geométrico, embora “perna de pau” em matemática. Vivia um ano escolar de satisfação, pois a grade escolar considerava como média final de uma única matéria a soma das duas notas daquele saber acadêmico.

Até então eram essas as regras pedagógicas que foram alteradas no fim do ano e que para minha surpresa após os exames, passaria com elogio em desenho e seria reprovado com louvor em matemática. De nada adiantou o “jus sperneandi”, meu protesto, pois a decisão desfavorável transformaria a minha garantia em um infortúnio.

A parte mais difícil era revelar aos olhos do meu pai a ocorrência, a decepção, o súbito e justificar a frustração do resultado daquele fracasso retumbante e ouvir sobre o fato pesaroso, primeiro aquela preleção e a seguir a repreensão provável.

Pois bem, o que ouvi? – A segunda época foi feita para o aluno (palavras da salvação). Sabe o que significava? 

Significava uma segunda chance e ali já estaria posto tanto o rol das obrigações e das perspectivas negativas: o fim das férias, ter de estudar, fazer o dever de casa que não tinha feito, a possibilidade de mudar de escola e companheiros pelo fato de ficar atrasado, o valor das mensalidades dobradas que pesariam no orçamento, ouvir durante um ano a mesma “inana”, e o pior, a desconfiança sobre as expectativas que tinham sido colocadas sobre meus ombros, como a oportunidade de mostrar a habilidade de aceitar e driblar as vicissitudes da vida juvenil. 

Tudo se acertou, e felizmente compreendi que na vida não existe certeza, pois a incerteza nos ronda e não podemos adivinhar o futuro, embora devamos ter a capacidade de adaptação ao desafio e gerenciar a rotina diária.

Metaforicamente trazendo essa lembrança para o contexto das eleições e o resultado atual, posso dizer que o segundo turno nas eleições nada mais é que uma segunda época. 

Uma chance para corrigir as falhas de planejamento separando-as dos fatores externos, avaliar friamente que se sucedeu, o que foi errado, fazer autocritica sem apegar-se ao resultado negativo, e considerar que a reprovação não é um ponto final e sim uma oportunidade de rebater o fracasso a partir de uma nova perspectiva e atitude desenhando a estratégia a ser assumida.

Mudar a abordagem, tentar com ferramentas mais afiadas, evitar inteligentemente a persistência na teimosia cega é o combustível que move os realizadores diante dos obstáculos, pois o triunfo não pertence a quem não cai, mas a quem domina a arte de se levantar mais forte depois do tombo.

Analistas políticos afirmam que parcelas da população canalizaram falsamente suas frustrações socioeconômicas contra o sistema político estabelecido, e que supostamente falhou em entregar estabilidade e o crescimento sustentável, uma narrativa desleal, incluindo mentiras sobre a precarização dos serviços públicos e de salários irreais.

Com discursos xenofóbicos, negacionistas e fascistas sempre relacionados na tríade, ordem, pátria e segurança os movimentos da direita ganham força sub-repticiamente. E assim alimentam o medo sobre o descontentamento dos bens materiais e os valores tradicionais consolidando sua principal força de contestação e poder.

Para enfrentar e passar no segundo turno, e conquistar indecisos, os progressistas devem se travestir das mesmas ideias propostas pelos seus adversários políticos, como concentrar sua comunicação digital em um número reduzido de temas e produzir conteúdo adaptado para esses formatos dinâmicos, saindo das bolhas tradicionais de mídia escrita acadêmica e serem repetidos e diretos para a fixação das narrativas.

Importante é substituir termos técnicos por uma linguagem simples e universal pautando as decisões governamentais que afetam diretamente a renda e o bem-estar familiar e ter em mente que o radicalismo costuma afastar o cidadão moderado. A prática mostra que se deve evitar o confronto de crenças pessoais, mantendo o foco estrito no papel social do Estado e combatendo boatos de viés anticlerical e saber que o radicalismo costuma afastar o cidadão moderado, todavia sempre alertando sobre as conquistas reais com propostas concretas e as relacionadas ao futuro do emprego, bem-estar e os direitos sociais. 

A direita tem demonstrado vantagem estratégica no uso das redes sociais e na comunicação digital direta ao capturar os anseios das novas gerações de eleitores, e pautar costumes em defesa da família tradicional e dos valores religiosos para os mais velhos. 

Considerar tais objetivos será um ponto de partida para uma virada no segundo turno eleitoral, valendo-se do aprendizado para quem entendeu o significado da segunda época.

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