Artigos e Opinião

ARTIGOS

Risco de desequilíbrio no setor de gás em MS

Continue lendo...

Os consumidores de gás natural foram surpreendidos pela abertura da consulta pública relativa ao 1º termo aditivo ao contrato de concessão de distribuição de gás natural no estado de Mato Grosso do Sul. A proposta visa antecipar a renovação do contrato de concessão da MSGás por 30 anos. Embora a condução de um rito regulatório seja fundamental diante da relevância do tema – como forma de garantir um futuro equilibrado e sustentável para a concessão, com a prestação de um serviço eficiente, competitivo e módico –, o processo em curso gera preocupações legítimas.

A limitação do prazo para análise técnica e jurídica do contrato de 160 páginas, restrito a apenas nove dias úteis, somada à ausência de oportunidades para exposições técnicas e sustentações orais por parte dos agentes interessados, contradiz o objetivo de uma audiência pública que deveria promover participação social plena. Ao limitar o diálogo, o processo compromete a equidade na tomada de decisão e enfraquece a legitimidade das escolhas regulatórias.

A participação social se mostra especialmente relevante diante do alcance do contrato de concessão, que deve atender de forma justa e equilibrada todos os segmentos de consumo, considerando o benefício do sistema como um todo. Com a renovação, o modelo regulatório será aprimorado por meio de diversas medidas. Dentre elas, destacam-se a adoção da metodologia Price Cap em revisão tarifária quinquenal e o cálculo da Taxa de Remuneração de Capital pelo WACC, substituindo o modelo prévio de Cost Plus e a antiga taxa fixa de 20%. 

Além disso, será promovida a regulação por incentivos, a aplicação de Fator X visando a modicidade tarifária, a realização de laudo e inventário dos ativos, entre outros. Todas essas ações visam otimizar a eficiência da concessionária durante a revisão tarifária, alinhando a melhores práticas regulatórias. No entanto, a suposta modernização do contrato é acompanhada de uma série de dispositivos que prejudicam o consumidor.

Um desses pontos é a previsão de cobrança de outorga pelo poder concedente, com repasse à base de ativos da concessionária e consequente diluição nas tarifas cobradas ao consumidor final. Essa prática transfere à sociedade um custo que deveria ser absorvido pelo concessionário. Além disso, a previsão de investimentos obrigatórios, sem estudos de impacto tarifário, pode inflar artificialmente a base de remuneração e elevar indevidamente a margem de distribuição. 

E não para por aí. A proposta ainda inclui um “incentivo” à Taxa de Remuneração, com acréscimos de 3% no primeiro ciclo tarifário e 2% no segundo, sob o argumento de cobertura de risco regulatório. Tal mecanismo gera uma remuneração adicional desconectada da realidade de risco do mercado, resultando em um aumento tarifário injustificado.

Paradoxalmente, enquanto se impõem investimentos obrigatórios – com estímulo à superavaliação da base de ativos –, o Fator X, destinado a promover a modicidade tarifária por meio do compartilhamento dos ganhos de eficiência, somente será aplicado após os primeiros 10 anos da concessão. Ou seja, os consumidores arcarão com os custos desde o início, mas os mecanismos de compensação entram em vigor tardiamente. Além disso, a previsão de revisões tarifárias extraordinárias, em caso de desequilíbrios econômicos, favorece exclusivamente a concessionária. Por exemplo, bastaria uma frustração de 5% na receita bruta projetada ou uma redução de 10% no volume distribuído por três meses consecutivos para justificar uma recomposição tarifária – sem garantia de que os impactos serão minimamente mitigados aos usuários.

Na prática, o modelo tarifário proposto se aproxima mais do antigo modelo de Custo de Serviço (Cost Plus) do que se sugere, já que mantém a lógica de repasse do risco de mercado à base de usuários. Isso reforça a necessidade de uma atuação vigilante e rigorosa por parte do regulador, especialmente quanto à prudência dos investimentos projetados e à razoabilidade dos custos incorporados à tarifa.

Em última análise, diversas medidas previstas no aditivo parecem beneficiar de forma desproporcional a concessionária em detrimento do interesse público. Enquanto se criam mecanismos que incentivam aportes e desembolsos significativos – com garantias de remuneração elevada à distribuidora –, o consumidor vê a tarifa subir de forma contínua. O término do contrato de concessão atual (em 2028) é uma oportunidade para alavancar o mercado de gás sul mato-grossense por meio de regras mais eficientes, gerando investimento e modicidade tarifária. No entanto, o caminho que o governo está tomando apenas aumentará a sua arrecadação e os ganhos da concessão.

Assine o Correio do Estado

EDITORIAL

Segurança não pode ser negligenciada

Ignorar essa realidade é abrir brechas perigosas. E, quando se trata de criminosos de alta periculosidade, qualquer brecha pode custar caro demais à sociedade

11/03/2026 07h15

Continue Lendo...

A notícia publicada hoje pelo Correio do Estado, revelando que o presídio federal de Campo Grande – unidade que abriga alguns dos criminosos mais perigosos do País, incluindo chefões do Comando Vermelho e figuras ligadas ao jogo do bicho – opera com equipe reduzida, deve acender um sinal de alerta nas autoridades.

Não se trata de um detalhe administrativo, mas de um tema sensível, diretamente ligado à segurança pública e à própria credibilidade do Sistema de Justiça brasileiro.

Os presídios federais foram concebidos justamente para isolar lideranças do crime organizado e impedir que continuem a comandar atividades ilícitas de dentro das cadeias.

São estruturas de segurança máxima, com rígidos protocolos e um modelo de funcionamento que, ao longo dos anos, conquistou reconhecimento por sua eficiência. De fato, o Sistema Penitenciário Federal é considerado um dos mais seguros do hemisfério sul.

Mas nenhum sistema, por mais robusto que seja, pode prescindir de pessoal suficiente e de investimentos constantes. Segurança de alto nível exige vigilância permanente, profissionais capacitados e estrutura adequada.

Trabalhar com equipe reduzida em um presídio desse porte não é apenas inadequado: é um risco que não deveria sequer ser cogitado.

A situação expõe, mais uma vez, uma falha recorrente na forma como o poder público trata a segurança pública. E aqui não se fala apenas do Executivo federal.

O Congresso Nacional, que todos os anos destina milhões de reais em emendas parlamentares para as mais diversas finalidades, também precisa compreender que essa área exige prioridade absoluta. Não pode faltar dinheiro – e muito menos pessoal – para uma unidade penitenciária federal.

Outro ponto que merece atenção é a conclusão da muralha prevista no projeto do presídio federal de Campo Grande. A obra, planejada justamente para reforçar a proteção do complexo, não pode se arrastar indefinidamente. O Ministério da Justiça deve tratar o tema com a urgência que ele exige.

É importante reconhecer que o modelo brasileiro de presídios federais já demonstrou ser eficaz. Contudo, isso não significa que ele deva permanecer estático.

Pelo contrário: sistemas de segurança precisam ser permanentemente aprimorados para acompanhar a evolução das ameaças e das estratégias do crime organizado. Um presídio federal pode ser seguro – mas sempre pode, e deve, tornar-se ainda mais seguro e impenetrável.

Já dissemos anteriormente neste espaço que investir em presídios não costuma render dividendos eleitorais. Não é uma obra vistosa, não gera inaugurações festivas nem discursos empolgados. Ainda assim, trata-se de um dos investimentos mais importantes para a segurança pública e para a correta aplicação da Justiça.

Ignorar essa realidade é abrir brechas perigosas. E, quando se trata de criminosos de alta periculosidade, qualquer brecha pode custar caro demais à sociedade.

ARTIGOS

Por que o Brasil afasta a inovação farmacêutica?

No Brasil, dados não contam com um prazo claro de proteção legal quando se trata de medicamentos de uso humano

10/03/2026 07h45

Continue Lendo...

Quando um novo medicamento chega à farmácia, raramente o consumidor percebe o caminho percorrido até ali. Antes de um comprimido ser vendido, ele passa por anos de pesquisa, testes laboratoriais, estudos em animais e ensaios clínicos em seres humanos para comprovar segurança e eficácia.

Esse processo pode levar mais de uma década e custar bilhões de dólares. Todo esse esforço gera um conjunto valioso de informações técnicas, conhecido como dossiê de testes, que precisa ser obrigatoriamente entregue à autoridade sanitária para que o produto seja aprovado.

O problema é que, no Brasil, esses dados não contam com um prazo claro de proteção legal quando se trata de medicamentos de uso humano.

Na prática, isso permite que medicamentos genéricos e similares sejam aprovados com base nos testes realizados pelo inovador, sem que o responsável pelo investimento tenha qualquer controle ou compensação por esse uso.

Ou seja, quem assume o risco e o custo da inovação acaba financiando, involuntariamente, seus concorrentes.

Essa lacuna regulatória acaba por criar um ambiente persistente de insegurança jurídica, no qual empresas passam a reavaliar seus investimentos em estudos que promovam novas descobertas no País.

Pesquisadores veem enfraquecerem-se os incentivos à inovação, e o Brasil, como consequência, deixa de atrair projetos voltados ao desenvolvimento de medicamentos mais avançados.

Trata-se de um risco que não se limita à dimensão econômica, pois, na ausência de estímulos adequados à inovação, o acesso a novos tratamentos tende a ocorrer de forma mais lenta, o que reduz, no médio e longo prazo, as opções terapêuticas efetivamente disponíveis à população.

Curiosamente, o Brasil já protege esse tipo de dado em outros setores, como medicamentos veterinários e agrotóxicos, e a maioria dos países desenvolvidos adota prazos claros de exclusividade regulatória sem impedir a entrada de genéricos.

A pergunta que fica é simples e incômoda: até quando o País vai aceitar perder investimentos, inovação e competitividade por não enfrentar um problema regulatório que o resto do mundo já resolveu?

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).