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Riscos psicossociais: o ponto cego do compliance público

Grande parte dos servidores públicos, especialmente na administração direta, tem vínculos estatutários e não é alcançada pela estrutura regulatória que hoje pressiona as empresas

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Com a atualização da NR-1, as empresas são obrigadas a identificar, avaliar e prevenir os riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Sobrecarga, assédio, baixa autonomia, insegurança psicológica, falta de apoio e lideranças despreparadas não podem mais ser vistos apenas como problemas individuais: também precisam ser analisados à luz da organização e da gestão do trabalho.

A pergunta que fica é inevitável: e no setor público?

Grande parte dos servidores públicos, especialmente na administração direta, tem vínculos estatutários e não é alcançada pela estrutura regulatória que hoje pressiona as empresas.

Surge, assim, uma assimetria: no setor privado, a obrigação de identificar e avaliar riscos psicossociais começa a produzir dados para orientar a prevenção; no público, predominam informações fragmentadas e pouca inteligência sobre o adoecimento relacionado ao trabalho.

Muitos órgãos sabem quantas licenças foram concedidas e com quais diagnósticos. Mas contar afastamentos não equivale a mapear riscos psicossociais.

Investigar as causas exige saber onde o sofrimento se concentra, quais práticas ampliam a sobrecarga, como a liderança interfere no ambiente e de que modo baixa autonomia, assédio, conflitos, injustiça e falta de reconhecimento afetam as pessoas, sua produtividade e seu engajamento.

Também exige olhar para quem permanece trabalhando. No presenteísmo, o servidor continua em atividade, mas já perdeu parte da capacidade de concentração, decisão e interação. Não há licença, mas o órgão já perde qualidade e capacidade de resposta.

No serviço público, esse impacto não termina na repartição. Quando um servidor adoece, a equipe assume mais trabalho, processos atrasam e o cidadão recebe um serviço pior.

Logo, saúde mental não é apenas assunto de recursos humanos. É tema de governança, ética e efetividade institucional.

Alguns governos e instituições públicas já têm políticas que reconhecem riscos psicossociais e determinam planos de ação.

Esse reconhecimento é importante. Mas publicar uma norma basta? Onde estão os diagnósticos, os planos executados e os resultados?

Sem essas respostas, corre-se o risco de administrar licenças sem compreender as condições que ajudam a produzi-las.

O diagnóstico deve orientar programas de prevenção, mudanças na organização do trabalho, formação de lideranças e medidas capazes de reduzir riscos antes que se transformem em adoecimento, afastamentos, conflitos e perda de engajamento e capacidade institucional.

É aqui que saúde mental e compliance se encontram.

Muitos programas de compliance público ainda tratam o bem-estar dos servidores como tema periférico. Priorizam o combate à fraude e à corrupção por meio de regras, controles e responsabilização, mas deixam de cuidar do ambiente humano do qual depende a eficácia da prevenção.

Ambientes marcados pelo medo, pela insegurança psicológica e pela desconfiança enfraquecem qualquer esforço preventivo. Servidores sobrecarregados, desvalorizados ou psicologicamente inseguros tendem a comunicar menos problemas, questionar menos decisões e se engajar menos nas ações de compliance.

Um código de ética pode determinar que todos comuniquem irregularidades. Mas quantas pessoas falarão quando temem retaliações, não confiam na liderança ou acreditam que nada será feito? Um canal de denúncia será efetivo onde o silêncio é recompensado e o questionamento tratado como deslealdade?

A prevenção depende da disposição das pessoas para participar, algo que não nasce apenas de treinamentos, campanhas ou punições. Nasce da experiência diária com a organização: da coerência das lideranças, da percepção de justiça, da possibilidade de falar, do reconhecimento e do pertencimento.

Para confiar e se engajar, os servidores precisam perceber que a organização se preocupa com eles e cuida das condições de trabalho. Cuidar não é paternalismo. É proteger a base da confiança e da motivação.

Por isso, o compliance começa no cuidado com as pessoas: na forma como a liderança é exercida, como o trabalho é organizado e como a instituição cuida do ambiente físico e psicológico.

Isso não significa transformar o Estado em terapeuta ou atribuir ao trabalho todas as causas do sofrimento mental. Significa reconhecer que carga de trabalho, autonomia, apoio da liderança, reconhecimento, relações profissionais e participação nas decisões podem promover a saúde mental ou contribuir para o adoecimento.

Cada órgão deveria apresentar seus riscos psicossociais prioritários, as medidas adotadas e os resultados alcançados. Essas informações ajudariam a identificar boas práticas, corrigir falhas e transformar a saúde organizacional em política institucional, não em resposta eventual a crises.

O poder público precisa deixar de administrar apenas licenças e passar a administrar as condições de trabalho que ajudam a produzi-las.

A pergunta não é se existem riscos psicossociais no serviço público. Eles existem. A questão é se o Estado está disposto a conhecê-los, enfrentá-los com método e entender que cuidar do ambiente de trabalho é cuidar dos servidores, da cultura de integridade, da capacidade institucional e da qualidade do serviço entregue à sociedade.

Isso é boa governança.

Editorial

Infraestrutura que preserve vidas

Em uma rodovia de pista dupla, uma ultrapassagem irregular pode até ocorrer, mas o risco de colisão frontal como a registrada na BR-163 é consideravelmente menor

18/08/2026 07h15

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O grave acidente ocorrido no domingo na BR-163, nas proximidades de Bandeirantes, a aproximadamente 70 quilômetros de Campo Grande, é mais um daqueles episódios que deveriam provocar uma reflexão sobre a infraestrutura rodoviária de Mato Grosso do Sul.

A dinâmica da colisão, provocada por uma ultrapassagem indevida, mostra como as rodovias de pista simples podem transformar uma decisão errada em uma tragédia de grandes proporções.

Não se trata de retirar do motorista a responsabilidade por uma ultrapassagem perigosa, é evidente que cada condutor deve respeitar as regras de trânsito e compreender os riscos de uma manobra desse tipo, mas também é preciso reconhecer que a infraestrutura tem papel fundamental na prevenção de acidentes.

Em uma rodovia de pista dupla, uma ultrapassagem irregular pode até ocorrer, mas o risco de uma colisão frontal como a registrada na BR-163 é consideravelmente menor.

O episódio reforça, portanto, uma necessidade que Mato Grosso do Sul conhece há décadas: precisamos de mais rodovias duplicadas.

Não é luxo, tampouco uma demanda secundária, trata-se de investimento diretamente relacionado à preservação de vidas, à segurança de quem utiliza as estradas e à própria capacidade de desenvolvimento do Estado.

Nesta edição, tratamos de transporte também pela outra ponta. Falamos de ferrovia e, mais uma vez, do adiamento do leilão da Malha Oeste. Agora, se tudo correr como prevê o Ministério dos Transportes, a licitação da linha férrea entre Corumbá e Mairinque (SP) ocorrerá somente em março de 2027.

É difícil não lamentar mais esse atraso. Uma ferrovia estratégica como a Malha Oeste, quando estiver efetivamente em operação, poderá retirar parte das cargas que hoje dependem exclusivamente das rodovias.

Menos caminhões circulando pelas estradas significa, entre outras coisas, menor pressão sobre a malha rodoviária e menor exposição ao risco de acidentes de grandes proporções.

É claro que uma ferrovia não resolverá sozinha os problemas de logística do Estado. Da mesma forma, a duplicação das rodovias não eliminará acidentes provocados por imprudência. Mas infraestrutura adequada reduz riscos, melhora a circulação e cria condições para que o transporte seja realizado com mais eficiência.

Mato Grosso do Sul precisa de investimentos simultâneos em rodovias e ferrovias, em primeiro lugar, para preservar vidas, em segundo, para que as pessoas possam se deslocar com mais segurança e, consequentemente, maior rapidez e, em terceiro, para que o Estado tenha mais vantagens competitivas, reduza custos logísticos e consiga transformar sua posição geográfica em ganhos econômicos.

Não é possível falar em desenvolvimento sem falar em infraestrutura. O Estado produz cada vez mais, recebe novos empreendimentos e amplia sua participação na economia nacional, mas toda essa riqueza precisa chegar aos mercados, e isso depende de estradas e ferrovias eficientes.

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Agro brasileiro exporta mais, mas o próximo desafio é gerar mais valor

O desafio agora não é apenas ampliar a produção, mas avançar em uma agenda de inovação, processamento, rastreabilidade e sustentabilidade capaz de aumentar a eficiência e a rentabilidade ao longo da cadeia

17/08/2026 07h20

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O agronegócio brasileiro começou este ano com um recorde, US$ 38 bilhões em exportações e superavit de US$ 33 bilhões no primeiro trimestre, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Mas, por trás do resultado histórico, há um dado que merece atenção: enquanto o volume exportado cresceu 3,8%, o preço médio recuou 2,8%. O Brasil está vendendo mais, mas ainda precisa capturar mais valor por aquilo que produz.

O desafio agora não é apenas ampliar a produção, mas avançar em uma agenda de inovação, processamento, rastreabilidade e sustentabilidade capaz de aumentar a eficiência e a rentabilidade ao longo da cadeia.

A urgência também é global. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) aponta que o mundo segue distante da meta de reduzir pela metade o desperdício de alimentos até 2030.

Para o agro brasileiro, isso significa que produzir mais precisa vir acompanhado de aproveitar melhor o que já é produzido, reduzindo perdas e agregando valor.

Nesse cenário, tecnologias voltadas à armazenagem, logística, rastreabilidade, bioinsumos, agricultura regenerativa, processamento e novos alimentos deixam de ser apenas ferramentas de sustentabilidade e passam a representar oportunidades econômicas.

É nesse ponto que agtechs e foodtechs ganham relevância. Startups desenvolvem soluções para problemas que vão da produtividade no campo à conexão com consumidores, enquanto plataformas de investimento ajudam a direcionar capital para negócios capazes de transformar gargalos históricos em oportunidades de mercado.

O Brasil já reúne escala produtiva, conhecimento técnico, empresas inovadoras e um ecossistema crescente de startups. O próximo passo é transformar esses ativos em maior valor agregado, seja por meio de alimentos processados, ingredientes, biotecnologia, tecnologia, certificações ou soluções climáticas.

A competitividade do agro brasileiro não será medida apenas pela quantidade que o País consegue produzir e exportar, mas também pela capacidade de capturar valor ao longo dessa cadeia.

O Brasil já é uma potência agrícola. A próxima fronteira é transformar essa escala em uma potência agroindustrial, tecnológica e sustentável.

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