Artigos e Opinião

OPINIÃO

Rivaldo Venâncio da Cunha: O "Chico Cunha" está chegando

Doutor em Medicina Tropical

Redação

05/11/2014 - 00h00
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No dia 23 de abril deste ano, esta mesma coluna publicou um artigo intitulado “Chikungunya: gravemos este nome”, o qual alertava para a possibilidade de introdução desse vírus no Brasil.

Recebi diversos questionamentos, todos expressando certa perplexidade diante da ameaça representada por um vírus de nome tão complicado e por nós desconhecido, causador de uma doença que em muitos aspectos se parece com uma velha conhecida nossa, a dengue. A primeira semelhança está nos vetores, pois ambos os vírus são transmitidos pelos mesmos mosquitos, Aedes aegypti e Aedes albopictus. As duas doenças também apresentam algumas semelhanças clínicas. Assim como ocorre com a dengue, a infecção pelo vírus Chikungunya causa febre alta de início agudo, acompanhada de dores na cabeça, nos músculos e nas articulações. 

Naquela ocasião foi esclarecido que o vírus Chikungunya pode provocar artrite e tenossinovite, ou seja, inflamação nas articulações e nos tendões, e não apenas dor, como acontece com a dengue; essas inflamações atingem mais comumente  as extremidades (tornozelos, punhos e mãos), e muitas vezes provocam incapacidade para realizar atividades rotineiras, tais como cozinhar, dirigir veículos e digitar em um teclado de computador ou celular. Outra diferença entre os quadros clínicos, salientada naquele artigo, dizia respeito à relativa frequência com que a infecção pelo vírus Chikungunya pode se tornar crônica, fato inexistente na dengue. Só quem já teve dengue pode imaginar o quão sofrível seria ficar seis ou oito meses com as manifestações clínicas da doença. Aí residem duas das principais diferenças clínicas entre essas doenças.

Os primeiros registros da doença em moradores de ilhas do Caribe, que não tinham viajado para fora da região, surgiram em dezembro de 2013. Até a penúltima semana de outubro de 2014 já foram notificados mais de 770.000 (setecentos e setenta mil) casos de chikungunya, distribuídos em quase quarenta países das Américas e Caribe. Uma das características da epidemia iniciada no Caribe têm sido as elevadas taxas de ataque, o que favorece a dispersão do vírus para outras localidades. O alerta feito em relação à possibilidade de o novo vírus chegar ao Brasil se confirmou no último mês de setembro, quando o Ministério da Saúde divulgou os primeiros casos autóctones, ou seja, em pessoas que adquiriram a doença sem sair do país. 

Embora até o momento a quase totalidade dos casos esteja restrita ao Amapá e a Bahia (apenas um caso notificado em Mato Grosso do Sul), devemos nos preparar para a ocorrência em outros estados, razão pela qual se recomenda a imediata elaboração de um plano para enfrentar a nova realidade epidemiológica. Devido às características clínicas da doença, citadas anteriormente, precisamos organizar a rede de atenção aos casos suspeitos de forma diferente do que sempre foi feito em relação à dengue. Ao contrário do que ocorre durante as epidemias de dengue, a nova doença apresenta razoável possibilidade de se tornar crônica, ou seja, um percentual de doentes continuará a exigir cuidados por períodos prolongados.

Ao longo das duas últimas décadas, os profissionais de saúde de Mato Grosso do Sul adquiriram grande experiência no manejo clínico da dengue; essa experiência acumulada sinaliza que temos competência profissional para lidar com a nova realidade, diferenciando dengue de chikungunya e recomendando a conduta adequada para cada caso. No entanto, mais que a competência técnica no atendimento ao doente, a nova realidade exigirá competência na organização da rede de atenção aos casos suspeitos, ou seja, competência dos gestores da saúde; tal preocupação é maior quando levamos em consideração a possibilidade de ocorrência de razoável percentual de pessoas que persistirão com as manifestações clínicas durante meses. 

A chave para reduzir o impacto negativo da futura epidemia de chikungunya em Mato Grosso do Sul, com a consequente redução do sofrimento dos doentes, está na organização da rede de atenção. A dura realidade enfrentada pelas autoridades sanitárias do estado da Bahia e da cidade de Feira de Santana serve como um alerta. Lá, os gestores assumiram suas responsabilidades. Da mesma forma, a população tem dado sua contribuição, sendo a maior delas a simplificação da denominação da doença, facilitando o diálogo entre os doentes e os profissionais de saúde. O novo nome demonstra a criatividade e o eterno bom humor do povo baiano: chikungunya passou a se chamar “Chico Cunha”!.

Editorial

É preciso maturidade acima da disputa

O cidadão comum, que não participa diretamente do conflito, acaba sendo arrastado para uma polarização que pouco contribui para a construção de soluções

19/06/2026 07h15

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A poucos meses das eleições, Mato Grosso do Sul volta a conviver com conflitos fundiários envolvendo indígenas e proprietários rurais. Nesta edição, o leitor acompanha novos episódios de ocupações de fazendas em Sidrolândia e Amambai, municípios que há décadas convivem com disputas relacionadas à posse da terra e à demarcação de territórios indígenas.

O retorno dessas tensões justamente em período eleitoral é motivo de preocupação. Não apenas pelos riscos de confrontos, insegurança e prejuízos materiais, mas também porque conflitos dessa natureza costumam ser absorvidos pelo debate político de forma simplificada, emocional e muitas vezes irresponsável.

É lamentável que ações como essas ocorram em um momento em que a sociedade deveria estar concentrada na discussão de propostas para o futuro do Estado e do País. Em vez disso, temas complexos acabam transformados em instrumentos de mobilização eleitoral.

De um lado, ocupações de propriedades rurais alimentam discursos de intolerância e radicalização frequentemente explorados por setores políticos que rejeitam qualquer discussão sobre a necessidade de ampliar ou regularizar áreas destinadas às comunidades indígenas.

De outro, também não se pode ignorar que ações dessa natureza acabam ampliando a pressão política em um período de grande visibilidade pública, gerando repercussão muito além dos limites do conflito.

O problema é que, quando isso acontece, o debate perde qualidade. Questões que exigem análise jurídica, histórica, antropológica e social passam a ser tratadas sob a lógica da disputa eleitoral.

O espaço para a razão diminui. Crescem os discursos inflamados, as narrativas simplificadas e as posições extremadas.

Quem mais perde com esse cenário é justamente a sociedade. O cidadão comum, que não participa diretamente do conflito, acaba sendo arrastado para uma polarização que pouco contribui para a construção de soluções.

Em vez de compreender a complexidade do problema, passa a receber mensagens destinadas a provocar indignação ou reforçar posicionamentos políticos já estabelecidos.

Também é preciso reconhecer que a solução dessas disputas não será encontrada em ocupações, confrontos ou discursos de campanha.

A questão fundiária envolvendo comunidades indígenas é antiga e depende da atuação coordenada dos governos, do Poder Judiciário, dos proprietários rurais e das próprias comunidades.

Demarcações de terras, indenizações, reassentamentos e regularizações fundiárias exigem tempo, segurança jurídica e diálogo permanente.

São processos complexos que não avançam pela força da pressão política momentânea nem pela exploração eleitoral dos conflitos.

Mato Grosso do Sul já acumulou experiências suficientes para compreender que a radicalização não produz vencedores duradouros. Ao contrário, aprofunda divisões e dificulta entendimentos futuros.

O que se espera é responsabilidade. Os conflitos precisam ser tratados com serenidade pelas autoridades e com maturidade pelos diversos atores envolvidos. 

Artigo

A geração Z é menos inteligente ou apenas desafia conceitos ultrapassados?

Durante mais de 120 anos, a principal ferramenta utilizada para medir inteligência foi o teste de quociente de inteligência, o famoso QI

18/06/2026 07h30

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Pela primeira vez em mais de um século de medições, estudos internacionais apontam uma desaceleração nos índices médios de QI entre os mais jovens.

O fenômeno, observado em levantamentos realizados na Europa, nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas, levou parte da imprensa a uma conclusão apressada: a geração Z estaria se tornando menos inteligente do que as gerações anteriores.

A interpretação, porém, ignora uma transformação profunda que vem ocorrendo na forma como a inteligência é compreendida pela ciência, pela educação e pelo mercado de trabalho.

Durante mais de 120 anos, a principal ferramenta utilizada para medir inteligência foi o teste de quociente de inteligência, o famoso QI.

Criado em 1905 pelo psicólogo francês Alfred Binet, o instrumento foi desenvolvido para avaliar habilidades relacionadas principalmente ao raciocínio lógico-matemático e à linguagem.

Ao longo do século 20, tornou-se a principal referência para medir capacidades cognitivas e influenciou sistemas educacionais, processos seletivos e até políticas públicas em diversos países.

O problema é que o teste nunca pretendeu medir toda a complexidade da inteligência humana.

Ele avalia apenas determinadas competências cognitivas e não contempla inúmeras habilidades que influenciam o desempenho acadêmico, profissional e social dos indivíduos.

Essa limitação começou a ser questionada de forma mais contundente em 1983, quando o psicólogo Howard Gardner, da Universidade Harvard, publicou a obra “Frames of Mind”. Resultado de anos de pesquisa, a teoria das inteligências múltiplas propôs uma ruptura com o modelo tradicional ao defender que os seres humanos têm, pelo menos, oito formas distintas de inteligência: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, naturalista, interpessoal e intrapessoal.

A tese foi posteriormente reforçada pelos avanços da neurociência. Se no início do século 20 predominava a crença de que a inteligência era praticamente imutável, hoje a ciência reconhece a capacidade de adaptação do cérebro humano por meio da neuroplasticidade, permitindo o desenvolvimento de habilidades ao longo de toda a vida.

Nesse contexto, surgiram ferramentas capazes de avaliar competências além daquelas tradicionalmente mensuradas pelos testes de QI. Uma das mais conhecidas é o Multiple Intelligences Developmental Assessment Scales (Midas), desenvolvido pelo pesquisador norte-americano Branton Shearer, da Universidade de Ohio e colaborador dos estudos de Gardner.

O instrumento avalia oito inteligências e 25 habilidades associadas, oferecendo um retrato mais amplo das potencialidades individuais.

No Brasil, a metodologia foi adaptada pelo professor Roberto Corazza sob o nome Avaliação das Múltiplas Inteligências (AMI).

Após quase uma década de estudos, validações e aplicações em instituições educacionais, a ferramenta passou a ser utilizada para auxiliar escolas na identificação de talentos e competências frequentemente invisíveis aos modelos tradicionais de avaliação.

Os resultados desse novo olhar sobre a inteligência encontram respaldo também no mercado de trabalho.

Uma pesquisa realizada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), em parceria com a consultoria McKinsey, identificou que aproximadamente 70% das maiores empresas globais já incorporaram critérios relacionados a habilidades socioemocionais nos seus processos de contratação e promoção profissional.

Empresas como Itaú, Nubank, Google, Amazon, Microsoft, Meta, Santander e Coca-Cola figuram entre as organizações que passaram a valorizar competências como comunicação, colaboração, adaptabilidade, criatividade, liderança e inteligência emocional em níveis equivalentes ou superiores aos conhecimentos técnicos específicos.

O levantamento aponta ainda que profissionais capazes de trabalhar em equipe, resolver problemas complexos, comunicar ideias com clareza e lidar com mudanças constantes apresentam desempenho superior em ambientes organizacionais cada vez mais impactados pela automação e pela inteligência artificial.

Os números ajudam a compreender uma aparente contradição. Se os jovens da geração Z apresentam desempenho inferior em alguns indicadores tradicionais de QI, como explicar o crescente número de empreendedores, criadores de conteúdo, desenvolvedores de tecnologia e fundadores de startups que alcançam sucesso antes dos 30 anos?

A resposta pode estar justamente nas competências que os testes convencionais não conseguem medir adequadamente.

Trata-se de uma geração que cresceu conectada. Antes mesmo de concluir o ensino médio, muitos jovens já haviam interagido com pessoas de diferentes países, aprendido a produzir conteúdo para audiências globais, administrado comunidades digitais e desenvolvido repertórios de comunicação em ambientes altamente competitivos.

Essas experiências contribuem para o fortalecimento de inteligências interpessoais, intrapessoais e espaciais, áreas cada vez mais valorizadas por organizações que precisam inovar em ritmo acelerado.

Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial altera profundamente o valor relativo das competências humanas. Conhecimentos técnicos podem ser pesquisados em segundos.

Cálculos complexos são realizados instantaneamente por sistemas automatizados. Informações estão disponíveis em abundância.

O diferencial competitivo passa a residir em capacidades que as máquinas ainda não reproduzem plenamente: empatia, criatividade, liderança, julgamento ético, negociação, visão estratégica e compreensão das relações humanas.

Diante desse cenário, talvez a pergunta correta não seja se a geração Z é mais ou menos inteligente do que as gerações anteriores.

A questão central é se continuamos utilizando instrumentos concebidos para uma realidade de 1905 para avaliar jovens que vivem em um mundo radicalmente diferente.

A educação enfrenta um desafio semelhante. Persistir exclusivamente em métricas construídas para medir desempenho acadêmico tradicional pode significar ignorar talentos essenciais para a economia do século 21.

O mercado já percebeu essa mudança. Grandes empresas já adaptaram seus processos. Muitas escolas começam a fazer o mesmo.

O verdadeiro debate não está na suposta perda de inteligência da nova geração. Está na necessidade de reconhecer que a inteligência humana é muito mais ampla, diversa e dinâmica do que qualquer número isolado pode representar.

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