Artigos e Opinião

Editorial

Segurança pública exige inteligência

O crime organizado não respeita limites estaduais, calendários eleitorais ou diferenças partidárias, por isso, seu enfrentamento não pode ficar limitado a iniciativas isoladas

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As eleições passaram, mas os desafios continuam. E um dos mais importantes, tanto para o Brasil quanto para Mato Grosso do Sul, é encontrar soluções para os problemas de segurança pública antes que eles assumam proporções ainda maiores. Não podemos esperar que a criminalidade avance para, somente depois, tentar recuperar o terreno perdido.

Em Mato Grosso do Sul, os sinais de preocupação são evidentes. Nos últimos tempos, temos observado o agravamento das disputas entre facções criminosas, especialmente com o avanço do Comando Vermelho (CV) pelo norte do Estado.

Historicamente, nosso território sempre foi uma das fortalezas do Primeiro Comando da Capital (PCC). A entrada de um grupo rival e a disputa por espaços não podem ser tratadas como um problema distante, tampouco como algo inevitável.

O enfrentamento policial é indispensável e vem sendo realizado pelas forças de segurança. Mas já não basta.

É preciso investir muito mais em inteligência, antecipação e capacidade de identificar os movimentos dessas organizações antes que eles se transformem em confrontos, mortes e expansão territorial. A segurança pública não pode depender apenas da reação aos crimes depois que acontecem.

Por isso, também chegou a hora de superar os atritos políticos e institucionais que marcaram os últimos anos. Sobretudo quando parte dessas divergências foi alimentada por interesses de grupos e disputas eleitorais.

As eleições terminaram. É necessário voltar as atenções para um problema que deveria estar acima de qualquer partido ou projeto político: proteger a população e impedir que a criminalidade organizada amplie seu poder.

Essa mudança de postura precisa vir acompanhada de investimentos. Em uma sociedade cada vez mais digitalizada, na qual até o dinheiro circula predominantemente por meios eletrônicos, não faz sentido manter estruturas policiais analógicas.

As organizações criminosas já compreenderam essa transformação. Aplicam golpes em plataformas digitais, movimentam recursos por meios eletrônicos e utilizam redes sociais para recrutar integrantes e ampliar suas atividades.

As forças de segurança precisam acompanhar essa realidade. Isso significa capacitar policiais, modernizar equipamentos, adquirir bons softwares e desenvolver sistemas capazes de cruzar informações, identificar padrões e antecipar ações criminosas. Inteligência também se faz com tecnologia e profissionais preparados para utilizá-la. 

O desafio não é apenas estadual. O Brasil precisa avançar na construção de um Sistema Único de Segurança Pública efetivamente integrado, com coordenação nacional, compartilhamento de informações e cooperação entre as diferentes forças policiais.

A proposta de organização e integração prevista na PEC da Segurança Pública aponta para uma discussão necessária, que não pode ficar refém de disputas políticas.

O crime organizado não respeita fronteiras estaduais, calendários eleitorais ou diferenças partidárias, por isso, seu enfrentamento também não pode ficar limitado a iniciativas isoladas. Precisamos de planejamento, inteligência, tecnologia e integração. 

artigos

Ciência e religião são incompatíveis?

Tratar ciência e religião como personagens rasos é ignorar a complexidade e a pluralidade de cada uma

02/11/2026 07h25

Arquivo

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Você já deve ter tido um professor de biologia que tratava crenças religiosas como bobagem ou um de sociologia que dizia que a religião é o ópio do povo. Talvez já tenha conhecido um ateu que acredita que a fé é inimiga da razão ou um religioso que nega consensos científicos como a evolução ou a eficácia das vacinas. Exemplos assim podem levar à conclusão de que ciência e religião são incompatíveis, que é preciso escolher uma ou outra. Mas será que isso é verdade?

Esse dilema nasce de uma premissa falsa: não existe “a ciência” nem “a religião”. Ao longo da história, foram inúmeras as formas de ciência praticadas pelos diferentes povos nas diferentes eras. Mesmo hoje, a ciência se subdivide em áreas com métodos muito distintos. O mesmo vale para as religiões, que são diversas entre si e têm também suas ramificações.

Tratar ciência e religião como personagens rasos é ignorar a complexidade e a pluralidade de cada uma. E foi desse reducionismo que nasceu a tese do conflito, formulada no fim do século 19 por John Draper e Andrew White. Para eles, episódios como a condenação de Galileu e a morte de Giordano Bruno na fogueira eram provas de que a religião sempre foi um empecilho ao avanço da ciência e, portanto, que a oposição entre elas era permanente e inevitável.

Nas últimas décadas, porém, historiadores da ciência como Ronald Numbers têm mostrado que essa tese é repleta de anacronismos e erros de interpretação. Muitos desses embates eram pontuais, movidos por disputas políticas ou pessoais, e não por uma guerra generalizada entre ciência e religião. A Igreja Católica não foi um empecilho à ciência, mas sim uma das maiores financiadoras da astronomia durante séculos.

Max Planck, um dos fundadores da física quântica, afirmava não ver contradição entre religião e ciência, pelo contrário, via as duas como complementares. Para ele, a maior prova disso era que grandes naturalistas como Kepler, Newton e Leibniz eram profundamente religiosos. Mais do que isso, para muitos cientistas a fé foi um elemento motivador de seus trabalhos, pois enxergavam na ciência uma forma de conhecer a obra de Deus.

A falácia do conflito desmorona quando compreendemos que a ciência não é formada só por ateus puramente racionais, nem as religiões por literalistas bíblicos que creem que a Terra tem 6 mil anos. São muitos os religiosos e as escolas teológicas que aceitam, simultaneamente, a evolução e um criacionismo não literal.

Portanto, insistir na incompatibilidade é equivocado e pode custar caro, porque ergue barreiras artificiais que talvez nunca mais se desfaçam. Um jovem religioso que é levado a escolher entre uma e outra pode desistir da ciência para não abandonar sua fé. Mas você não precisa escolher: a história e os incontáveis cientistas religiosos nos mostram que fé e razão são, sim, compatíveis e podem até mesmo se somar.

editorial

A memória que constrói o futuro

Uma sociedade que desconhece sua história corre o risco de repetir erros, desprezar conquistas e perder referências fundamentais para suas escolhas

02/11/2026 07h15

Capa editorial correio do estado

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O Dia de Finados é uma oportunidade de lembrar e homenagear aqueles que fizeram parte de nossa vida e que já não estão entre nós. É uma data para resgatar boas lembranças, reviver momentos compartilhados com familiares e amigos e reconhecer a importância de quem deixou marcas em nossa trajetória. A saudade, naturalmente, faz parte desse encontro com o passado, mas também nos permite compreender melhor quem somos.

Essa reflexão, porém, não precisa se limitar à memória individual. Como sociedade, também temos a responsabilidade de resgatar nossa ancestralidade, reconhecer de onde viemos e compreender o caminho percorrido pelas gerações que nos antecederam. O passado não é apenas um conjunto de acontecimentos encerrados, é parte da identidade que construímos no presente e uma referência importante para projetar o futuro.

Por isso, o Dia de Finados também pode ser um convite para conhecer melhor o legado de nossos antepassados. Cada família carrega histórias, valores, dificuldades e conquistas que ajudam a explicar sua trajetória. Da mesma forma, cada povo tem uma história que não deve ser esquecida, porque nela estão as raízes de sua cultura, de suas instituições e de sua própria organização social.

Celebrar a memória dos que partiram é, portanto, também celebrar nossa história como seres humanos, no plano individual, e como comunidade, no plano coletivo. É reconhecer que ninguém constrói sua trajetória sozinho. Somos resultado de experiências, ensinamentos e escolhas de pessoas que vieram antes de nós e que, muitas vezes, abriram caminhos para que as gerações seguintes pudessem avançar.

Em tempos de informação instantânea, conexão permanente e engajamento constante, parece cada vez mais necessário reservar espaço para a reflexão. A velocidade com que consumimos notícias e conteúdos não deve nos afastar da compreensão de nossa própria história. Conhecer o passado exige tempo, pesquisa e disposição para ouvir relatos, preservar documentos, visitar lugares de memória e valorizar o patrimônio cultural.

Uma sociedade que desconhece sua história corre o risco de repetir erros, desprezar conquistas e perder referências fundamentais para suas escolhas. Não se trata de viver preso ao passado ou de idealizar as gerações anteriores, mas de compreender suas experiências, reconhecer seus acertos e aprender também com suas falhas.

O futuro não nasce do vazio, ele é construído a partir das decisões que tomamos hoje, mas também da consciência sobre tudo o que nos trouxe até aqui. Neste Dia de Finados, que a lembrança de nossos familiares e amigos seja acompanhada por uma reflexão mais ampla sobre nossas origens e nossa história. Preservar a memória é uma forma de honrar quem veio antes e, sobretudo, de preparar um futuro melhor para quem ainda virá.

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