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Ciência e religião são incompatíveis?

Tratar ciência e religião como personagens rasos é ignorar a complexidade e a pluralidade de cada uma

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Você já deve ter tido um professor de biologia que tratava crenças religiosas como bobagem ou um de sociologia que dizia que a religião é o ópio do povo. Talvez já tenha conhecido um ateu que acredita que a fé é inimiga da razão ou um religioso que nega consensos científicos como a evolução ou a eficácia das vacinas. Exemplos assim podem levar à conclusão de que ciência e religião são incompatíveis, que é preciso escolher uma ou outra. Mas será que isso é verdade?

Esse dilema nasce de uma premissa falsa: não existe “a ciência” nem “a religião”. Ao longo da história, foram inúmeras as formas de ciência praticadas pelos diferentes povos nas diferentes eras. Mesmo hoje, a ciência se subdivide em áreas com métodos muito distintos. O mesmo vale para as religiões, que são diversas entre si e têm também suas ramificações.

Tratar ciência e religião como personagens rasos é ignorar a complexidade e a pluralidade de cada uma. E foi desse reducionismo que nasceu a tese do conflito, formulada no fim do século 19 por John Draper e Andrew White. Para eles, episódios como a condenação de Galileu e a morte de Giordano Bruno na fogueira eram provas de que a religião sempre foi um empecilho ao avanço da ciência e, portanto, que a oposição entre elas era permanente e inevitável.

Nas últimas décadas, porém, historiadores da ciência como Ronald Numbers têm mostrado que essa tese é repleta de anacronismos e erros de interpretação. Muitos desses embates eram pontuais, movidos por disputas políticas ou pessoais, e não por uma guerra generalizada entre ciência e religião. A Igreja Católica não foi um empecilho à ciência, mas sim uma das maiores financiadoras da astronomia durante séculos.

Max Planck, um dos fundadores da física quântica, afirmava não ver contradição entre religião e ciência, pelo contrário, via as duas como complementares. Para ele, a maior prova disso era que grandes naturalistas como Kepler, Newton e Leibniz eram profundamente religiosos. Mais do que isso, para muitos cientistas a fé foi um elemento motivador de seus trabalhos, pois enxergavam na ciência uma forma de conhecer a obra de Deus.

A falácia do conflito desmorona quando compreendemos que a ciência não é formada só por ateus puramente racionais, nem as religiões por literalistas bíblicos que creem que a Terra tem 6 mil anos. São muitos os religiosos e as escolas teológicas que aceitam, simultaneamente, a evolução e um criacionismo não literal.

Portanto, insistir na incompatibilidade é equivocado e pode custar caro, porque ergue barreiras artificiais que talvez nunca mais se desfaçam. Um jovem religioso que é levado a escolher entre uma e outra pode desistir da ciência para não abandonar sua fé. Mas você não precisa escolher: a história e os incontáveis cientistas religiosos nos mostram que fé e razão são, sim, compatíveis e podem até mesmo se somar.

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O espelho do infinito

Entre as suas premissas, a hipótese dos múltiplos universos destaca-se ao confrontar a humanidade com o peso de suas escolhas

31/10/2026 07h40

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A ficção científica utiliza cenários futuristas e conceitos complexos para investigar o comportamento humano. Entre as suas premissas, a hipótese dos múltiplos universos destaca-se ao confrontar a humanidade com o peso de suas escolhas.

Ao sugerir que cada decisão gera uma nova vertente de existência, levanta-se o questionamento sobre a singularidade da experiência cotidiana, indicando que a realidade tangível pode ser uma grande ilusão ou apenas uma nova etapa na evolução da consciência.

Diante da vastidão do cosmos, surge a angústia quanto ao impacto das ações individuais. Se todas as opções já se concretizaram em dimensões paralelas, o livre-arbítrio e o valor de uma única vida correm o risco de parecer insignificantes.

O cinema e a literatura retratam esse dilema: em “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, o multiverso ilustra o esgotamento diante das infinitas rotas não tomadas, enquanto no livro “A Biblioteca da Meia-Noite”, de Matt Haig, cada volume representa uma vida resultante de escolhas alternativas.

No entanto, é sob esse prisma que a ficção científica reafirma o propósito da existência. A narrativa especulativa demonstra que a estrutura do universo não se sustenta apenas por leis físicas ou cálculos matemáticos, mas pela capacidade de estabelecer conexões profundas e ao mesmo tempo significativas.

Nesse cenário de possibilidades ilimitadas, a fé, o amor e a amizade emergem como forças de coesão.

O amor atua como uma constante gravitacional que transcende limites dimensionais e temporais. A amizade funciona como uma âncora para a identidade, garantindo que o indivíduo reconheça a si mesmo e ao outro, independentemente da realidade em que se encontre.

A fé, por sua vez, converte a dúvida diante do desconhecido em uma escolha consciente dando sentido à jornada. Em “Interstelar”, de Christopher Nolan, o amor atravessa dimensões para salvar a humanidade, enquanto em “Matrix”, a superação da ilusão depende da fé no propósito individual e na confiança mútua.

Portanto, a ficção científica revela que a busca humana pelo significado do cosmos não deve focar no domínio sobre outras dimensões, mas no fortalecimento dos laços interpessoais. Reconhecer a brevidade da realidade é um convite para valorizar o presente e as decisões diárias.

Cabe à sociedade compreender que, em meio a um universo infinito, o verdadeiro ato de coragem consiste em nutrir afeto, lealdade e esperança, transformando o cotidiano no único refúgio genuíno da experiência humana.

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Governo reeleito, casa por arrumar

Ministérios, estatais e diretorias são redesenhados para o novo mandato

31/10/2026 07h30

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Quando se anuncia uma troca de comando, algo costuma acontecer com a agenda de decisões. E não só quando muda o governo: numa reeleição, ministérios, estatais e diretorias também são redesenhados para o novo mandato.

Projetos entram em espera, mudanças estruturais são adiadas, e a frase que se ouve nos corredores é sempre parecida: melhor esperar o próximo. Soa prudente. Na maioria das vezes é só paralisia com boas maneiras.

O psicólogo Martin Seligman descreveu três leituras distorcidas que transformam um revés em sentença. A primeira trata o episódio como permanente: “aqui vai ser sempre instável”. A segunda deixa uma parte ruim contaminar tudo: “com esse contexto, nenhuma iniciativa se sustenta”.

A terceira converte o fato em identidade: “isso prova que nada aqui vale a pena”. Em ambientes de transição, as três aparecem juntas, e é a combinação delas que faz a incerteza virar justificativa para não fazer nada.

Vivi isso de perto em 2018, no que foi provavelmente o período mais adverso da minha trajetória no BNDES.

O banco estava no auge da pressão da Lava Jato, a imagem institucional havia sido duramente atingida e o ambiente interno era de medo e desconfiança.

Em março, um novo presidente assumiu com a missão de implementar o planejamento estratégico formulado no ano anterior. Eu era o diretor responsável por essa implementação.

A resistência veio imediata e não de todo sem razão. Por que fazer mudanças estruturais no último ano de uma gestão, se o próximo comando poderia chegar com outra agenda e desfazer tudo? O argumento tinha lógica e carregava as três distorções de Seligman embutidas.

Nossa premissa foi outra. Não cabia paralisar o banco por precaução. Cabia preparar a casa para quem chegasse, fosse quem fosse. Essa leitura não era otimismo ingênuo. Era a recusa de deixar que a incerteza decidisse por nós.

O que se seguiu foi extenso e exigente. Reformulamos um processo de crédito que existia havia 40 anos, separando as funções de análise e de acompanhamento das operações para fortalecer o compliance.

Reestruturamos o organograma, com corte de cargos e redefinição de responsabilidades. Lançamos o BNDES Garagem, programa de inovação aberta, e avançamos no mapa de transformação digital. Tudo isso num ambiente em que parte das pessoas ainda esperava, com alguma razão, que o esforço fosse revertido.

Não foi. Neste ano, o processo de crédito reformulado naquele período permaneceu. A segregação de funções permaneceu. O BNDES Garagem permaneceu. O que foi construído sob máxima pressão sobreviveu à troca de comando e ao tempo.

A lição é simples, e por isso incômoda. Uma organização que trata adversidade como sentença perde a capacidade de agir antes mesmo de perder recursos. Já a que mantém viva a pergunta sobre o que ainda é possível, mesmo sem garantia de continuidade, preserva a capacidade de construir.

Para quem está de saída, vale perguntar: o que eu deixo funcionando e o que deixo apenas pendente? Para quem está chegando, a pergunta é outra: o que já existe aqui que merece ser preservado antes de eu impor a minha marca?

E você, na última transição que viveu, esperou o próximo comando ou preparou a casa para ele?

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