Artigos e Opinião

EDITORIAL

Trânsito: mudanças para o coletivo

Medidas da Agetran geram, em um primeiro momento, muita resistência, mas buscam melhorar a fluidez e acompanhar o crescimento de Campo Grande

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As alterações recentes promovidas pela Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) em Campo Grande têm provocado reações negativas por parte de parcela significativa da população. A insatisfação, em muitos casos, é compreensível do ponto de vista individual, especialmente quando mudanças afetam rotinas consolidadas.

No entanto, antes de críticas precipitadas, é necessário compreender as razões que motivam essas intervenções.

Campo Grande não é mais a mesma cidade de anos atrás. O crescimento populacional e o aumento da frota de veículos impuseram novos desafios à mobilidade urbana. Em vias de grande circulação, como a Avenida Afonso Pena, tornou-se inviável manter a lógica de tráfego de um período em que o fluxo era muito menor.

Medidas como a proibição de conversões à direita em determinados cruzamentos – a exemplo do encontro com a Rua Bahia – são respostas técnicas a essa nova realidade.

Ainda que causem desconforto inicial, essas mudanças buscam melhorar a fluidez do trânsito em corredores estratégicos. Ao restringir movimentos que geram retenções e conflitos entre veículos, a tendência é de reduzir congestionamentos e tornar o deslocamento mais eficiente no conjunto da via.

Trata-se de uma lógica amplamente adotada em centros urbanos maiores, onde a organização do tráfego exige decisões que priorizem o coletivo.

É nesse ponto que surge o principal desafio: a diferença entre o interesse individual e o benefício coletivo.

Para o motorista que precisa alterar seu trajeto ou percorrer alguns metros a mais, a medida pode parecer inconveniente. No entanto, quando analisada sob a ótica da mobilidade urbana como um todo, a intervenção tende a trazer ganhos mais amplos, beneficiando um número maior de pessoas.

Cabe também ao condutor assumir seu papel nesse processo. Dirigir em uma cidade que se aproxima de 1 milhão de habitantes exige mais do que conhecimento básico das leis de trânsito. É preciso atenção às mudanças, planejamento de rotas e disposição para se adaptar a uma dinâmica urbana em constante transformação.

Como toda mudança, há um período de adaptação. É natural que, no início, prevaleça a resistência. Contudo, a experiência mostra que, com o tempo, novas regras são assimiladas e passam a fazer parte da rotina.

A expectativa é de que, no futuro, essas intervenções sejam compreendidas não como obstáculos, mas como instrumentos para um trânsito mais organizado e eficiente.

Mais do que agradar individualmente, a gestão do trânsito deve buscar soluções que atendam ao interesse coletivo. E, nesse sentido, ainda que impopulares no curto prazo, as mudanças podem representar um passo necessário para acompanhar o crescimento da cidade.

Artigo

O imposto que não aparece no cardápio, mas muda tudo na operação

O ponto é que esse imposto não funciona como os demais. Ele é monofásico e não gera crédito tributário

17/06/2026 07h45

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Eu tenho a impressão de que a reforma tributária deste ano ainda está sendo lida pelo varejo de alimentos como um tema distante, quase teórico.

Mas, no balcão de um bar ou na cozinha de um restaurante, ela já começou a mudar a lógica do negócio, e não é pela alíquota em si, mas pela forma como o imposto passa a existir dentro da operação.

O chamado Imposto Seletivo, criado com a promessa de desestimular o consumo de produtos associados a impactos negativos à saúde e ao meio ambiente, atinge diretamente itens que fazem parte do dia a dia do food service, como bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas.

Não é um detalhe, é parte relevante do faturamento de bares, restaurantes e casas noturnas em todo o País.

O ponto é que esse imposto não funciona como os demais. Ele é monofásico e não gera crédito tributário.

Traduzindo para a prática, o custo tributário desses produtos não se dilui ao longo da cadeia. Ele se concentra e aparece com mais força na ponta.

E é aí que a operação começa a mudar. Não basta mais vender, será preciso separar, classificar e tratar cada item de forma distinta dentro do sistema fiscal.

Produtos sujeitos ao Imposto Seletivo terão que ser segregados corretamente, com enquadramento preciso. Não é uma escolha operacional, é uma exigência.

Desse modo, isso cria uma nova camada de complexidade dentro de um setor que já opera com margens apertadas e alta sensibilidade a preço.

A forma como cada produto é registrado passa a influenciar diretamente a precificação e, por consequência, o comportamento do consumidor.

“Isso vai impactar a precificação para o consumidor final e também as margens de lucro, já apertadas, do setor”, ponderou uma consultora tributária com quem conversei recentemente. A leitura é objetiva: não se trata apenas de pagar mais imposto, mas de reorganizar a forma como o negócio funciona.

A incerteza ainda é um fator adicional que torna esse cenário mais delicado. Embora a Lei Complementar 
nº 214/2025 já tenha definido quais produtos estarão sujeitos ao Imposto Seletivo, as alíquotas ainda dependem de regulamentação. Ou seja, o setor sabe o que será tributado, mas ainda não sabe quanto.

Isso cria um intervalo perigoso entre obrigação e planejamento. Sem a alíquota definida, não é possível medir com precisão o impacto financeiro. Ainda assim, as empresas já precisam se preparar, porque a estrutura operacional não se ajusta da noite para o dia.

A previsão é de que o imposto entre em vigor em 2027. Pode parecer distante, mas não é. Sistemas de gestão, cadastros de produtos, classificação fiscal, integração com o financeiro, tudo isso precisa estar pronto antes.

Quem deixar para ajustar depois vai operar no improviso em um ambiente que não tolera erros.

O ponto que me chama a atenção é que o discurso de saúde pública e sustentabilidade, que sustenta a criação do imposto, pode produzir efeitos colaterais relevantes no ambiente econômico.

Especialmente para pequenos empreendedores, que têm menos capacidade de absorver custos ou investir em adaptação tecnológica.

Não vai aparecer no cardápio, mas vai estar embutido em cada decisão, do cadastro do produto ao preço final na mesa.

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O Proálcool estava certo antes do mundo perceber

O programa mobilizou pesquisa agrícola e industrial, indústria automotiva, infraestrutura de distribuição e capacidade produtiva em toda a cadeia

17/06/2026 07h30

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Em 1975, em plena crise internacional do petróleo, o Brasil tomou uma decisão que soaria ousada para os padrões da época. Criou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), um programa nacional estruturado para produzir energia a partir da cana-de-açúcar.

Poucos imaginavam, naquele momento, que essa escolha se tornaria uma das iniciativas mais visionárias da história da política energética mundial.

A lógica era clara, embora sua execução exigisse coragem política e visão de longo prazo. Era preciso reduzir a dependência do petróleo importado e construir uma alternativa energética nacional baseada em recursos renováveis e em tecnologia própria.

O programa mobilizou pesquisa agrícola e industrial, indústria automotiva, infraestrutura de distribuição e capacidade produtiva em toda a cadeia.

Durante muitos anos, o Proálcool foi alvo de ceticismo. Críticos questionavam sua viabilidade econômica e apostavam que o etanol seria apenas uma solução temporária, destinada a desaparecer quando os preços do petróleo recuassem. O tempo mostrou o contrário.

Décadas depois, o mundo passou a enfrentar exatamente os problemas que o Brasil tentava antecipar, como insegurança energética crônica, volatilidade brutal nos preços do petróleo e pressão crescente por descarbonização.

Segurança energética e transição para fontes renováveis tornaram-se temas prioritários das agendas globais e o Brasil já chegou a essa discussão com experiência acumulada de meio século.

Enquanto países desenvolvidos buscam reduzir dependência externa, diversificar fontes de energia e construir modelos menos vulneráveis às crises internacionais, o Brasil já dispõe de uma cadeia produtiva consolidada, tecnologia madura e capacidade industrial em larga escala.

Poucos países conseguiram desenvolver um sistema de biocombustíveis com o mesmo nível de integração entre agricultura, indústria, logística e mercado consumidor.

O mais interessante é perceber que a discussão atual não se resume mais apenas à questão ambiental. O debate tornou-se econômico, estratégico e geopolítico.

Produzir energia dentro do próprio território passou a representar estabilidade, competitividade e soberania, exatamente o que o Proálcool começou a construir em 1975.

O programa talvez tenha sido uma das poucas políticas públicas brasileiras capazes de atravessar décadas mantendo relevância crescente.

Mais do que substituir combustíveis fósseis, o Proálcool revelou uma visão de futuro que o mundo demorou décadas para compreender.

Hoje, enquanto diversas nações buscam caminhos para uma nova era energética, o Brasil percebe que parte dessa resposta já começou a ser construída há quase cinquenta anos.

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