Artigos e Opinião

EDITORIAL

Transporte público e a coragem necessária

Diante de tanta inércia, a pergunta que se impõe é inevitável: a quem interessa que tudo permaneça exatamente como está? Certamente não interessa à população

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Engana-se quem acredita que a gestão fiscal e os investimentos em infraestrutura resumem os grandes desafios da Prefeitura de Campo Grande neste ano. Esses temas são, sem dúvida, relevantes e exigem atenção permanente.

Mas não são os únicos. Há problemas antigos, estruturais e cada vez mais urgentes que continuam à espera de enfrentamento político. Entre eles, o sistema de transporte coletivo ocupa lugar central e inadiável.

Trata-se de um serviço essencial, que afeta diariamente milhares de trabalhadores, estudantes e usuários que dependem do ônibus para se deslocar pela cidade. Ainda assim, o que se vê é um cenário de imobilismo difícil de justificar.

O transporte coletivo de Campo Grande já foi alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, teve falhas amplamente expostas, enfrenta uma decisão judicial que determina a intervenção do poder público e, mesmo assim, nada muda de forma concreta.

É inadmissível que, diante de um diagnóstico tão claro e de instrumentos legais disponíveis, não haja nenhuma iniciativa efetiva para alterar os rumos do sistema. A sensação é de que existe uma falta de coragem generalizada. Falta coragem do poder concedente, que parece hesitar em assumir o protagonismo que lhe cabe.

Falta coragem também do concessionário, que se mostra resistente a mudanças profundas que poderiam, de fato, melhorar a qualidade do serviço prestado.

Enquanto isso, os problemas se acumulam. Houve greve, como a registrada em dezembro do ano passado, houve crise de financiamento, houve CPI, houve decisão judicial.

Ainda assim, permanece a letargia. O usuário segue pagando caro por um serviço deficiente, com frota envelhecida, horários irregulares e perda constante de confiabilidade. Nada disso é novidade. O que surpreende é a naturalização desse quadro.

Diante de tanta inércia, a pergunta que se impõe é inevitável: a quem interessa que tudo permaneça exatamente como está? Certamente não à população, que sofre diariamente com um transporte ineficiente. Tampouco à cidade, que precisa de um sistema moderno, integrado e capaz de estimular a mobilidade urbana sustentável.

Quando o assunto é transporte público, o que falta é coragem para mudar. E mudar para melhor, é preciso frisar. Coragem para enfrentar interesses, rever contratos, cumprir decisões judiciais e colocar o interesse coletivo acima de conveniências políticas ou econômicas.

No entanto, até aqui, não há qualquer sinal concreto de que esse caminho será seguido. E isso, lamentavelmente, diz muito sobre as prioridades que estão sendo deixadas para depois.

ARTIGOS

O custo humano do endurecimento migratório

Aumento expressivo das deportações de brasileiros, acompanhado de relatos de violações de direitos e procedimentos sumários de remoção, revela uma realidade que exige reflexão jurídica e humanitária

09/02/2026 07h45

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O recrudescimento da política migratória dos Estados Unidos, especialmente após o retorno de Donald Trump ao comando da Casa Branca, reacendeu um debate global que vai muito além da soberania das nações sobre suas fronteiras.

O aumento expressivo das deportações de brasileiros, acompanhado de relatos de violações de direitos e procedimentos sumários de remoção, revela uma realidade que exige reflexão jurídica e humanitária.

Os números falam por si. Em 2025, mais de 3,5 mil brasileiros foram deportados dos Estados Unidos, número que representa mais que o dobro do registrado no ano anterior.

Apenas nas primeiras semanas deste ano, novas deportações já foram registradas, demonstrando que a política de endurecimento migratório deixou de ser um discurso político e se consolidou como prática institucional.

O ponto mais sensível desse cenário reside na ampliação do mecanismo conhecido como “remoção acelerada”.

Trata-se de um procedimento que permite a deportação de imigrantes sem audiência judicial formal, especialmente quando não conseguem comprovar residência contínua nos Estados Unidos por período mínimo estabelecido pelas autoridades.

Embora previsto no ordenamento migratório norte-americano, o uso ampliado desse instrumento tem levantado questionamentos sobre o respeito ao devido processo legal e às garantias fundamentais.

O governo americano, sob o comando de Donald Trump, expandiu o uso da remoção acelerada para quem entrou ilegalmente e não consegue provar que vive nos EUA há, pelo menos, dois anos. A medida, segundo ele, produz efeitos que ultrapassam o campo administrativo e atingem diretamente a esfera dos direitos humanos.

Outro aspecto preocupante é o relato recorrente de apresentação, por agentes migratórios, de documentos que implicam renúncia ao direito de defesa. O ICE tem apresentado documentos onde o imigrante “concorda” em ser deportado sem audiência judicial, não sendo recomendado assinar nada sem orientação jurídica.

Em contextos de detenção, muitas vezes marcados por vulnerabilidade emocional e desconhecimento da legislação, a assinatura desses termos pode significar a perda definitiva de qualquer possibilidade de contestação.

A preocupação não se restringe aos imigrantes em situação irregular. O ambiente de intensificação das ações migratórias tem gerado insegurança generalizada entre estrangeiros, inclusive aqueles que ingressam nos Estados Unidos de forma regular, como turistas e estudantes.

Neste contexto de velocidade hiperacelerada de detenção, expulsão e deportação de imigrantes ilegais, há uma insegurança muito grande aos estrangeiros, diante de ações truculentas e potencialmente violadoras dos direitos humanos e princípios fundamentais.

É legítimo que Estados estabeleçam políticas migratórias e fiscalizem suas fronteiras. Trata-se de prerrogativa inerente à soberania nacional.

No entanto, a adoção de mecanismos que relativizem garantias processuais básicas ou que permitam tratamentos degradantes compromete não apenas a imagem internacional de um país, mas também os pilares do Estado de Direito.

Historicamente, os Estados Unidos consolidaram-se como referência global na defesa de liberdades individuais e garantias fundamentais. O endurecimento das políticas migratórias, quando dissociado desses valores, cria uma contradição institucional que fragiliza o discurso democrático que o país tradicionalmente projeta ao mundo.

Para o Brasil, o fenômeno das deportações em massa também produz reflexos sociais relevantes. O retorno forçado de cidadãos, muitas vezes após anos de residência no exterior, implica desafios de reinserção profissional, impacto psicológico e reestruturação familiar.

Trata-se de uma questão que exige políticas públicas de acolhimento e reintegração social, sob pena de perpetuar ciclos de vulnerabilidade.

O debate migratório contemporâneo exige equilíbrio entre controle estatal e respeito aos direitos humanos. A busca por segurança e organização migratória não pode justificar a supressão de garantias fundamentais. Fronteiras existem, mas não podem servir como barreiras para a dignidade humana.

ARTIGOS

O Brasil que trabalha e vota: o eleitor invisível que vai decidir neste ano

Aquele que não se reconhece em nenhum dos polos e que, neste ano, terá o poder real de inclinar a balança

09/02/2026 07h30

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A obsessão nacional com a polarização transformou a política brasileira numa caricatura: dois times em guerra permanente, como se o País estivesse dividido entre Fla e Flu, vermelho e azul.

Essa narrativa simplificadora, confortável para a mídia e funcional para lideranças extremistas, esconde o eleitor mais decisivo do próximo pleito: aquele que não se reconhece em nenhum dos polos e que, neste ano, terá o poder real de inclinar a balança.

O cenário é conhecido. De um lado, Lula busca a continuidade, pressionado pelo desgaste natural do poder e por expectativas sociais difíceis de atender. Do outro, a direita tenta se reorganizar após a ausência de Jair Bolsonaro, dividida entre o pragmatismo tecnocrático de Tarcísio de Freitas e a herança política de Flávio Bolsonaro.

A disputa será acirrada, mas o resultado não será definido nos palanques barulhentos das capitais. Ele será decidido longe dos holofotes, na rotina silenciosa de um eleitor que os analistas insistem em chamar genericamente de “moderado” ou “de centro”.

A pesquisa Mapa das Ideologias Brasileiras (Meio/Instituto Ideia) dá nome a esse grupo: o conservador societário. Ele representa 20,1% da população e 16% da base atual de Lula. Mais do que revelar sua existência, o estudo expõe um fracasso grave da comunicação política brasileira.

Apenas 21% dos eleitores de direita sentem-se respeitados pela esquerda progressista. Esse número não expressa divergência ideológica, mas uma sensação profunda de desprezo. Muitos não votaram em Bolsonaro por convicção, mas como reação a uma esquerda que, em vez de dialogar, preferiu rotular e moralizar.

A direita radical soube transformar esse ressentimento em voto defensivo.

A esquerda, presa à sua autossuficiência intelectual, tratou o fenômeno como desvio a ser combatido, não como alerta de falha de representação.

Quem é esse eleitor decisivo? Longe dos estereótipos, o conservador societário não é golpista nem fanático religioso. É o brasileiro comum que acorda cedo, trabalha, paga contas e tenta proteger a família num país instável.

Seu conservadorismo não é ideológico; é instintivo. Ele busca segurança, previsibilidade, respeito à fé e à rotina. Diante de mudanças aceleradas nos costumes, na economia e na geopolítica, sente-se ameaçado – e encontra na política mais ruído do que proteção.

Esse grupo concentra o maior contingente de indecisos. Não é cego, é órfão. Lula ainda tem uma janela de oportunidade, mas isso exige enfrentar resistências internas e validar medos reais.

Para esse eleitor, soberania nacional não é retórica dos anos 1970: é segurança pública, renda preservada, fronteiras protegidas e símbolos nacionais que não pertençam a um só campo político.

Paradoxalmente, a esquerda que se diz representante dos trabalhadores perdeu a linguagem para falar com o trabalhador conservador. A direita bolsonarista, mesmo oferecendo ódio e nostalgia, ainda é vista como quem “não olha de cima”. Trata-se de um fracasso retórico monumental.

A lição é dura: o radicalismo é minoritário, mas pauta o debate. O conservador societário é maioria silenciosa – e vota. Neste ano, vencerá quem abandonar a guerra cultural do passado e falar do futuro concreto de quem só quer viver em paz.

O risco é que, ignorado mais uma vez, esse eleitor opte novamente pelo voto de protesto. E o Brasil já conhece bem o custo dessa escolha.

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