Artigos e Opinião

OPINIÃO

Venildo Trevizan: "Ovelha amada"

Frei

Redação

14/09/2019 - 01h00
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Somos peregrinos nos caminhos da vida. Cada qual com seus sonhos, seus projetos e suas esperanças. Alguns, porém, sofrem por serem portadores de algumas limitações de cunho intelectual e acabam desistindo, ou se acomodando naquilo que conseguiram realizar.

De fato, a coisa mais fácil é desistir: desistir do emprego, desistir da família, desistir dos estudos, desistir de uma amizade e até desistir da confiança em Deus. Essas são atitudes que revelam fraqueza de espírito e pobreza de sentimentos.

Existem outras pessoas que encaram a realidade com muitas reservas e alguns medos. Apesar de tão generosas propostas, se sentem inseguras em tomar uma decisão. Perambulam pelos caminhos da vida duvidando de suas capacidades e do seu potencial. Estão em permanente indecisão. Vivem sobrecarregadas de indefinições.

Outras pessoas, ao se depararem com alguma dificuldade mais séria, decidem contentar-se com o tanto que conquistaram e se acomodam. Não têm maiores ambições nem melhores projetos. Falta-lhes apostar em algum projeto mais arrojado e em algum plano mais desafiador. Falta-lhes acreditar em si e em suas capacidades.

Na Bíblia Sagrada,  mais precisamente no Evangelho escrito por Lucas, no capítulo quinze, versículos três e seguintes, encontramos uma parábola muito preciosa em ensinamentos e em orientações de como entender certos mistérios envolvendo sentimentos e atitudes.

Diz  o autor sagrado: “Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdera, até encontrá-la? E quando a encontra, com muita alegria a acolhe em seus ombros. Chegando em casa reúne amigos e vizinhos e celebra a grande conquista?”.

Essa alegria não acontecerá apenas entre amigos e vizinhos, mas atingirá toda a comunidade. Todos se alegrarão. Todos celebrarão e farão festa. Nessa hora se esquecem as noites mal dormidas, os sacrifícios de percorrer caminhos perigosos, mata fechada, a estafante procura. Esquece-se tudo para celebrar alegremente o reencontro.

Nossa vida é assim. Ao faltar algo, não podemos ficar na lamentação. Precisamos acreditar em nossas capacidades. Precisamos confiar em nossas forças. Precisamos fortalecer nossa esperança. Por faltar algo, nem tudo está perdido. Sempre haverá uma luz a iluminar nossas mentes e recuperar algo de valor .

Jamais desanimar. O pastor das ovelhas, ao ver que uma fugira, poderia simplesmente se conformar e voltar sua atenção às noventa e nove que permaneceram no rebanho. Mas para ele cada ovelha era importante. Queria todas salvas. Queria todas junto a si.

Deus é assim. Ama apaixonadamente cada um e cada uma. Seja quem for, é pertença de Deus, é do rebanho do Senhor. E ele cuida de cada ovelha com zelo pessoal, com carinho maternal. Cada qual constitui algo de valor e de grandeza para o Bom Pastor.

Mesmo que alguém não dê o devido valor a esse carinho de Deus, sempre terá o devido respeito e o indelével amor.

EDITORIAL

Saúde e a falta de atendimento digno

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, falha com seus pacientes e toda a sociedade

24/06/2026 07h15

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Há algo profundamente errado quando um paciente consegue ser esquecido dentro de um hospital. Não se trata apenas de uma falha administrativa, de um problema de gestão ou de uma dificuldade financeira. Trata-se de uma afronta à dignidade humana.

E é exatamente isso que reportagem publicada nesta edição do Correio do Estado revela ao apresentar o conteúdo de um relatório da Defensoria Pública sobre a situação da Santa Casa de Campo Grande.

O documento descreve um cenário que deveria causar indignação em qualquer cidadão. Pacientes aguardam vagas e procedimentos por períodos incompatíveis com a urgência de seus quadros clínicos.

Há relatos de tratamentos inadequados, falhas no acompanhamento médico e situações em que pessoas permanecem à espera de cuidados básicos. O que se vê é um sistema que, em muitos casos, parece incapaz de oferecer aquilo que deveria ser sua missão principal: cuidar.

É preciso dizer com clareza que não estamos falando apenas de números, estatísticas ou relatórios. Estamos falando de pessoas. Homens, mulheres, idosos e crianças que chegam ao hospital em busca de ajuda e encontram uma estrutura que, frequentemente, não consegue responder às suas necessidades.

São cidadãos que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) e que, justamente por isso, tornam-se ainda mais vulneráveis.

A situação se torna mais grave porque o paciente que depende do SUS não tem alternativa. Quem tem recursos financeiros pode recorrer a hospitais particulares, buscar uma segunda opinião ou contratar um plano de saúde.

Já o cidadão pobre, quando entra em uma unidade pública ou conveniada ao SUS, entrega seu destino à capacidade do sistema de funcionar. E, conforme demonstram os relatos reunidos pela Defensoria Pública, essa confiança nem sempre é correspondida.

Existe uma ironia difícil de ignorar. Boa parte dos profissionais que atuam no sistema público de saúde e dos gestores responsáveis por hospitais conveniados ao SUS não utiliza a rede pública quando precisa de atendimento médico, recorre aos planos de saúde e aos hospitais privados.

Não há ilegalidade nisso, mas o fato expõe uma realidade desconfortável: muitos conhecem de perto as limitações do serviço que administram ou ajudam a prestar.

Outro argumento frequentemente utilizado para justificar os problemas da saúde pública é a falta de recursos. No caso de Campo Grande, porém, essa explicação não parece suficiente.

Todos os anos, mais de R$ 1 bilhão são transferidos pela União ao Município para custear ações e serviços do SUS. Trata-se de um volume expressivo de dinheiro público.

O que os fatos indicam é a necessidade urgente de melhorar a gestão dos recursos já disponíveis. Cada paciente esquecido, cada tratamento inadequado e cada demora injustificável representa não apenas sofrimento humano, mas também o fracasso na aplicação eficiente de recursos que pertencem à sociedade.

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos, independentemente da renda. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, não falha apenas com seus pacientes, falha com toda a sociedade.

Artigo

Crise de realidade e o novo papel da ficção

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si

23/06/2026 07h45

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Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano.

Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que atravessado pelo fantástico.

Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria realidade?

Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro.

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e emoções.

Nesse cenário, criar histórias fantásticas deixa de ser apenas um exercício de imaginação ou uma fuga baseada no “e se?” A ficção passa a funcionar também como um espaço de investigação. Um convite para recuperar o espanto, a dúvida e a curiosidade diante do mundo.

Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, imaginar talvez seja uma das últimas formas de observar com profundidade.

Para mentes bombardeadas por versões conflitantes da verdade, a ficção precisa assumir um novo papel social.

Se já não conseguimos concordar sobre o que acontece no noticiário, se a desconfiança atravessa instituições, discursos e imagens, talvez sejam as histórias que nos ajudam a reconstruir alguma experiência de identificação coletiva.

Afinal, ainda conseguimos reconhecer a injustiça, a perda, o medo e a esperança quando eles aparecem diante de nós em forma de narrativa. Contar histórias, hoje, talvez seja menos sobre escapar da realidade e mais sobre reaprender a enxergá-la.

Num mundo em que cada pessoa parece confinada à própria versão dos fatos, a ficção ainda pode abrir janelas, criar pontes e provocar perguntas difíceis.

A fantasia, quando nasce da observação honesta do mundo, não nos afasta do real. Pelo contrário: ela funciona como um espelho. E nos enxergar talvez seja exatamente o que precisamos nestes tempos.
 

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