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Wokeísmo: o que ele revela sobre a sociedade contemporânea

Em sua essência, o wokeísmo se ancora na ideia de interseccionalidade

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Nas últimas décadas, poucos fenômenos socioculturais provocaram debates tão intensos quanto o chamado wokeísmo. Frequentemente associado à defesa da justiça social, da igualdade e da valorização da diversidade, esse movimento emergiu como uma força significativa na arena pública, influenciando não apenas o discurso político, mas também a cultura, as instituições e o mundo corporativo.

Em sua essência, o wokeísmo se ancora na ideia de interseccionalidade (estrutura analítica cunhada pela jurista norte-americana Kimberlé Williams Crenshaw), isto é, a compreensão de que diferentes formas de desigualdade, como raça, gênero e classe social, não operam de maneira isolada, mas interligada.

Essa perspectiva permitiu ampliar o olhar sobre injustiças estruturais historicamente negligenciadas, promovendo maior sensibilidade coletiva em relação às experiências de grupos marginalizados.

No entanto, à medida que ganhou visibilidade e influência, o movimento também passou a ser alvo de críticas consistentes.

Para seus defensores, trata-se de um avanço moral necessário, capaz de estimular empatia, corrigir desigualdades e dar voz a quem por muito tempo foi silenciado.

Já para seus críticos o wokeísmo pode, paradoxalmente, restringir o próprio diálogo que pretende promover, ao criar ambientes em que opiniões divergentes são desencorajadas ou até mesmo punidas.

Um dos pontos centrais dessa crítica reside na dificuldade crescente de se estabelecer um debate aberto e plural.

Em contextos marcados pelo receio de reprovação social, indivíduos tendem a evitar posicionamentos que possam ser interpretados como inadequados.

O resultado, muitas vezes, é um empobrecimento do debate público, no qual a complexidade das questões sociais cede espaço à polarização e à autocensura.

Outro aspecto frequentemente discutido é o foco acentuado nas experiências individuais. Embora reconhecer vivências pessoais de discriminação seja fundamental, há o risco de que a ênfase excessiva no indivíduo dificulte a construção de soluções coletivas e estruturais.

A transformação social duradoura exige, afinal, não apenas o reconhecimento de injustiças, mas também a articulação de respostas amplas e sistêmicas.

Ainda assim, seria reducionista ignorar os impactos positivos associados ao wokeísmo. Movimentos como o #MeToo e o Black Lives Matter exemplificam como a amplificação de vozes historicamente marginalizadas pode gerar mudanças concretas.

Questões antes invisibilizadas, ou seja, pautas sociais negligenciadas pelo debate público, como assédio sexual, violência policial e desigualdade racial, passaram a ocupar o centro do debate público, pressionando instituições e governos a agir.

Além disso, o movimento contribuiu para avanços em transparência e responsabilidade, como no caso da divulgação de disparidades salariais entre homens e mulheres em diversos países.

Tais iniciativas demonstram que a conscientização social pode, de fato, traduzir-se em políticas e práticas mais equitativas.

Por outro lado, o crescimento do wokeísmo também trouxe à tona um fenômeno peculiar: o chamado “capitalismo woke”.

Nesse contexto, empresas passaram a adotar posicionamentos públicos sobre questões sociais, incorporando pautas como diversidade, inclusão e sustentabilidade em suas estratégias de marca.

Embora, à primeira vista, isso represente um avanço na responsabilidade corporativa, não faltam questionamentos sobre a autenticidade dessas ações.

Campanhas publicitárias e iniciativas empresariais frequentemente oscilam entre o compromisso genuíno e o oportunismo estratégico.

Quando o engajamento social se torna um ativo de marketing, surge a dúvida inevitável: trata-se de transformação real ou apenas de adaptação às expectativas do consumidor contemporâneo?

Diante desse cenário, o wokeísmo revela-se como um fenômeno complexo, repleto de tensões e ambiguidades. Sua capacidade de promover conscientização e mobilização social é inegável, mas seus efeitos colaterais, como a polarização e a limitação do debate, não podem ser ignorados.

Talvez o caminho mais produtivo não seja a adesão irrestrita nem a rejeição absoluta, mas sim uma abordagem crítica e equilibrada. Isso implica reconhecer tanto suas contribuições quanto suas limitações, preservando o espaço para o diálogo aberto, a diversidade de pensamento e a construção coletiva de soluções.

Em última instância, o desafio não está apenas no wokeísmo em si, mas na forma como a sociedade escolhe lidar com ele. Se conduzido com maturidade e espírito crítico, pode servir como instrumento de progresso.

Caso contrário, corre o risco de se tornar mais um elemento de divisão em um mundo já profundamente fragmentado.
 

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A vida nos impõe dureza

Existe uma rigidez necessária, uma carapaça que desenvolvemos para suportar as pressões externas, os silenciamentos

14/05/2026 07h30

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Como observadora atenta da alma humana, percebi que a vida, muitas vezes, nos impõe uma arquitetura de sobrevivência muito similar à de uma noz.

Existe uma rigidez necessária, uma carapaça que desenvolvemos para suportar as pressões externas, os silenciamentos e as intempéries de uma realidade que, historicamente, exige das mulheres uma força desproporcional.

No cenário atual, onde os índices de violência contra a mulher ainda nos estarrecem, essa proteção emocional não é uma escolha estética, é um mecanismo de defesa vital contra o desamparo e a agressão. 

Precisamos falar abertamente sobre esse “endurecimento”. Ele nasce dos enfrentamentos diários, das pequenas e grandes lutas que moldam quem somos.

Em um mundo que ainda tenta ditar nossos passos e limitar nossos desejos, a resiliência torna-se nossa pele mais dura.

Muitas vezes, essa proteção é vista como frieza ou distanciamento, mas, na verdade, é o resultado de uma sensibilidade que precisou se transmutar em coragem para não ser estilhaçada.

O endurecimento é a resposta instintiva ao medo e à necessidade de preservação da própria identidade. 

Entretanto, o que a analogia da noz nos ensina de mais valioso é que a casca, por mais resistente que seja, não define o fruto, ela apenas o guarda.

Existe um perigo real em nos confundirmos com a nossa armadura, esquecendo que o propósito da proteção é permitir que a semente interna permaneça intacta, viva e potente.

A violência e o medo tentam nos esvaziar, mas a nossa natureza é feita de algo muito mais profundo: uma capacidade inesgotável de regeneração e recomeço.

A esperança reside justamente no gesto de compreender quando essa proteção cumpriu seu papel e permitir-se, então, romper as limitações.

Mesmo em tempos áridos, em que as notícias parecem sufocar nossa liberdade, vejo mulheres transformando dor em autonomia e luto em luta.

A beleza da existência feminina está nessa dialética entre a resistência da casca e a delicadeza do miolo.

Somos capazes de endurecer para sobreviver, mas guardamos a doçura e a força necessárias para florescer novamente assim que encontramos solo seguro. 

Não estamos sozinhas nessa jornada de “quebrar cascas”. A união e o reconhecimento mútuo dessas batalhas silenciosas são o que fortalece nossa estrutura.

Que possamos honrar nossa resiliência sem nunca perder de vista a liberdade que existe do outro lado da barreira.

A vida pode ser dura, mas a capacidade de criar formas de existir a partir de cada desafio superado é a prova definitiva de que a luz sempre encontrará uma fresta para atravessar o que quer que tente nos fechar. 

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Editorial

A corrupção que nos coloca no buraco

Em meio a denúncias de corrupção, é curioso lembrar que uma das justificativas dadas pelos gestores para os milhares de buracos em tempos recentes era a falta de dinheiro

14/05/2026 07h15

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Depois de mais de uma década, novamente o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) aponta suspeitas de corrupção envolvendo o trabalho de manutenção de vias, que, em Campo Grande, por causa da grande deformação do pavimento, recebe o nome de tapa-buraco.

É o tipo de trabalho que não cumpre o objetivo a que foi proposto, não é mesmo? Mas vamos além disso.

Reportagem publicada nesta edição mostra que os donos da empreiteira responsável pela manutenção de mais da metade das vias públicas de Campo Grande estão atrás das grades.

Presos. Na cadeia. A suspeita é de que integrem um gigantesco esquema de corrupção que envolvia também servidores públicos, inclusive um ex-secretário.

Por enquanto, o MPMS e a Justiça são os que dão as melhores respostas para o problema. Porque a empresa, mesmo com seus donos na cadeia, segue responsável pela manutenção das vias. Aliás, conforme o leitor também verá com mais detalhes adiante, o trabalho dela deixa muito a desejar.

Para piorar a situação, a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) de Campo Grande não tem titular.

Há mais de 40 dias não há um responsável por coordenar o contrato de manutenção de vias, por zelar para que as ruas da capital de Mato Grosso do Sul tenham um bom pavimento.

É lamentável constatar que, quando se trata de manutenção de vias e de obras públicas, o cidadão de Campo Grande, cidade com quase 1 milhão de habitantes e milhares de quilômetros de ruas para cuidar, esteja à deriva.

Precisamos de respostas. Não é apenas tendo acesso à investigação que a prefeitura da Capital poderá responder.

É, em primeiro lugar, nomeando alguém que chame para si a execução do contrato de manutenção de vias e que, posteriormente, faça uma auditoria, com resultados públicos ao alcance de qualquer cidadão, sobre a execução financeira deste contrato.

E, por falar em execução financeira, é curioso lembrar que, no fim do ano passado, uma das justificativas para o longo período sem equipes trabalhando nas ruas para tapar os milhares de buracos de Campo Grande era justamente a falta de dinheiro.

Pouco mais de seis meses depois, vem o MPMS e mostra que dinheiro parecia existir nesses últimos anos, tanto que foi parar nos bolsos dos envolvidos na execução dos contratos, enquanto os buracos ficaram abertos.

Enquanto os buracos de Campo Grande voltam a virar caso de polícia e de Justiça, quem vai a outras capitais encontra ruas com bons pavimentos, o chamado “asfalto liso”, bem sinalizadas e com um trânsito minimamente organizado.

Parte do caos no trânsito da cidade, é bom lembrar, advém também do descaso com a manutenção das vias, e não apenas da má educação dos condutores. Afinal, as ruas esburacadas e mal sinalizadas ajudam a compor o cenário caótico de algumas vias.

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