Cidades

Carbono Oculto

'Beto Louco' e 'Primo' são denunciados em esquema bilionário que atingiu MS

MPSP acusa empresários foragidos de organização criminosa e lavagem de dinheiro; investigação alcançou distribuidoras e postos de combustíveis em Mato Grosso do Sul.

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Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", e Mohamad Hussein Mourad, o "Primo", foram alvos de uma nova denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) no âmbito da Operação Carbono Oculto, investigação sobre um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis que mantém conexões empresariais com Mato Grosso do Sul.

Os dois estão foragidos e são apontados nas investigações como personagens centrais da organização. Nesta nova frente, Beto Louco e Primo são acusados de organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

O novo capítulo da investigação divulgado nesta sexta-feira (4) ocorre pouco mais de um ano depois da deflagração da Carbono Oculto e chama atenção em Mato Grosso do Sul porque empresas relacionadas à estrutura investigada foram instaladas em Iguatemi, no extremo sul do Estado.

Uma delas é a Alpes Distribuidora de Petróleo Ltda., que aparece nas investigações como parte da engrenagem empresarial relacionada ao grupo.

A companhia está sediada em Iguatemi e acumula dívida de aproximadamente R$ 2,93 bilhões com a União, figurando entre as maiores devedoras do Fisco federal em Mato Grosso do Sul.

A estrutura instalada em Iguatemi reuniu outras empresas que posteriormente apareceram na Operação Carbono Oculto.

Além da Alpes Distribuidora de Petróleo, estão entre elas Império Comércio de Petróleo, Arka Distribuidora de Combustíveis, Orizona Combustíveis, Start Petróleo e Petroriente.

A conexão ultrapassava Mato Grosso do Sul. Start e Petroriente, por exemplo, mantinham filiais no estado de São Paulo, em Jandira e Santos, respectivamente, enquanto as investigações apontaram negócios e movimentações financeiras ligados ao mercado paulista.

Há apenas uma semana, em 28 de agosto, Mato Grosso do Sul voltou a aparecer em um desdobramento da investigação.

Durante a Operação Bomba Oculta, a Receita Federal e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) declararam inaptos os CNPJs de 28 postos de combustíveis no Estado, que ficaram impedidos de operar.

A ação foi deflagrada como um desdobramento da Operação Carbono Oculto e buscou atingir financeiramente a estrutura investigada.

Em todo o País, 1.283 inscrições no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) e 228 inscrições estaduais foram declaradas inaptas. A Receita Federal não revelou a localização dos 28 estabelecimentos de Mato Grosso do Sul em razão do sigilo do processo.

Segundo a Receita Federal, os postos ligados ao grupo investigado funcionariam como uma das portas de entrada de recursos no esquema de lavagem de dinheiro, permitindo que valores de origem ilícita fossem inseridos na economia formal.

A ligação com o Estado vai além de um endereço empresarial. A própria Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, cumpriu medidas em Mato Grosso do Sul e alcançou uma extensa estrutura do setor de combustíveis espalhada por diferentes estados.

Nova denúncia 

A acusação apresentada pelo MPSP nesta semana é mais um desdobramento da Carbono Oculto e concentra parte das suspeitas na expansão dos negócios atribuídos a Beto Louco e Primo para o setor sucroalcooleiro, que reúne atividades ligadas principalmente à produção e comercialização de açúcar e etanol a partir da cana-de-açúcar.

Segundo a investigação, após operações anteriores atingirem empresas do grupo, uma nova estrutura empresarial teria sido organizada em torno do Grupo Itajobi e de outros negócios.

Os promotores sustentam que a organização utilizava empresas, fundos de investimento e estruturas financeiras para movimentar recursos e dificultar a identificação dos verdadeiros beneficiários.

Um dos episódios descritos na nova denúncia envolve a compra de dois terrenos em Catanduva, no interior paulista, avaliados em aproximadamente R$ 3,9 milhões. Os imóveis seriam destinados à construção da sede administrativa do Grupo Itajobi.

De acordo com a acusação, cerca de R$ 4 milhões utilizados na operação passaram por cinco contas diferentes em apenas sete minutos antes de chegar ao vendedor dos terrenos.

Para o Ministério Público, a movimentação teria sido estruturada dessa maneira para afastar os líderes investigados da origem dos recursos e dificultar o rastreamento do dinheiro.

A denúncia também descreve a utilização de pessoas que apareceriam formalmente como responsáveis por empresas, enquanto os beneficiários efetivos permaneceriam ocultos.

Em um dos casos relatados pela investigação, uma mulher do interior de Sergipe teria recebido R$ 1,2 mil mensais para aparecer como proprietária formal de uma empresa que movimentou bilhões de reais.

Conexão com Mato Grosso do Sul

Embora o núcleo da nova denúncia esteja em São Paulo, a investigação que levou até Beto Louco e Primo possui ramificações importantes em Mato Grosso do Sul.

Iguatemi tornou-se um dos pontos de interesse das autoridades por concentrar endereços de diversas distribuidoras de combustíveis relacionadas às investigações.

Uma antiga estrutura destinada à produção de etanol, localizada no quilômetro 18 da Estrada da Balsinha, atual MS-290, passou a concentrar diferentes empresas do setor.

Entre elas aparece a Alpes Distribuidora de Petróleo, investigada na Carbono Oculto e apontada como uma das empresas relacionadas ao ecossistema empresarial atribuído ao grupo.

A empresa chama atenção também pelo tamanho de sua dívida tributária. Levantamento publicado pelo Correio do Estado com base em dados da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) mostrou que a Alpes devia R$ 2,93 bilhões ao Fisco federal.

A companhia chegou a ter uma base em Iguatemi interditada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

A suspeita levantada nas investigações é de que estruturas empresariais instaladas no município tenham sido utilizadas para operações fiscais e comerciais sem que necessariamente houvesse movimentação física de combustível compatível com os negócios declarados.

As investigações apontaram ainda relações empresariais entre companhias instaladas no local e pessoas ligadas ao núcleo investigado na Carbono Oculto.

Com isso, uma pequena cidade de Mato Grosso do Sul passou a aparecer no mapa de uma investigação de alcance nacional sobre o mercado de combustíveis.

Esquema atingiu toda a cadeia 

A Carbono Oculto foi deflagrada em agosto de 2025 por uma força-tarefa formada por órgãos como Ministério Público, Receita Federal e forças policiais.

A investigação alcançou mais de 350 alvos e teve medidas cumpridas em São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Segundo os investigadores, a estrutura suspeita alcançava diferentes etapas da cadeia de combustíveis, desde empresas responsáveis pela produção e distribuição até postos utilizados na comercialização ao consumidor.

Outra frente considerada essencial pelas autoridades era o sistema financeiro. Fintechs e fundos de investimento teriam sido utilizados para movimentar recursos entre empresas e pessoas sem deixar evidente, no sistema financeiro tradicional, quem eram os beneficiários finais.

Os investigadores sustentam que essa estrutura permitia criar sucessivas camadas entre a origem do dinheiro e os responsáveis efetivos pelos negócios.

Beto Louco e Primo são apontados pelo Ministério Público como personagens de destaque nessa engrenagem. Ambos permaneciam foragidos até a divulgação da nova denúncia.

Beto Louca já havia sido denunciado

A acusação divulgada nesta sexta-feira não é a primeira contra Beto Louco decorrente das investigações.

Em 26 de agosto, o Ministério Público paulista denunciou 16 pessoas, entre elas o empresário, em uma frente relacionada ao suposto desvio de metanol, adulteração de combustíveis, falsidades documentais, fraudes contra consumidores e crimes fiscais.

Na nova denúncia, o foco avança sobre a estrutura utilizada para expansão patrimonial e lavagem de dinheiro atribuída aos investigados.

O Ministério Público também pediu à Justiça a manutenção da indisponibilidade de imóveis e recursos bloqueados durante a investigação, além da perda de patrimônio que, segundo os promotores, estaria relacionado aos crimes investigados.

O que dizem as defesas

A defesa de Roberto Augusto Leme da Silva contesta a acusação e afirma que demonstrará, durante o processo, a improcedência da denúncia e questionará a validade do procedimento.

Já a defesa de Mohamad Hussein Mourad também rejeita as acusações e sustenta que a denúncia apresenta uma narrativa baseada em fatos que não teriam sido comprovados.

As acusações ainda serão submetidas ao Poder Judiciário, e a apresentação da denúncia pelo Ministério Público não representa condenação.

Enquanto a nova frente avança em São Paulo, as conexões empresariais identificadas em Mato Grosso do Sul mantêm Iguatemi dentro de uma investigação que alcançou diferentes estados e expôs uma estrutura bilionária suspeita de operar por meio de distribuidoras, empresas de fachada e mecanismos financeiros para ocultação de patrimônio.

requerimento

CPI do Tapa-Buraco avança na Câmara de Campo Grande com sete assinaturas

Dentre os fatos determinados da investigação estão ausência de ações e respostas do Executivo diante das reclamações da população, prejuízos causados, redução dos investimentos, dentre outros

13/10/2026 18h14

Câmara quer CPI para investigar contratos do tapa-buraco

Câmara quer CPI para investigar contratos do tapa-buraco Foto: Marcelo Victor / Correio do Estado

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A articulação para abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) avançou na Câmara Municipal de Campo Grande, com sete vereadores assinando o requerimento. A proposta é investigar possíveis irregularidades nos contratos e na execução dos serviços de tapa-buracos na Capital.

O requerimento para a criação da CPI foi apresentado pela vereadora Luiza Ribeiro (PT), na sessão do dia 13 de agosto deste ano. 

Nesta terça-feira (13), dois meses depois, ela afirmou que o documento já reúne sete assinaturas, dos vereadores Jean Ferreira (PT), Landmark (PT),  Marquinhos Trad (PV), Maicon Nogueira (PP), André Salineiro (PL) e Vererinário Francisco (União Brasil), além dela.

O requerimento estabelece como fatos determinados da investigação a ausência de ações e respostas do Executivo diante das reclamações da população, os prejuízos causados pela falta de manutenção adequada, a redução dos investimentos, os casos de possíveis irregularidades e a ausência de resposta ao requerimento aprovado pelo Plenário.

Um dado apresentado no requerimento é que, das 24.673 indicações encaminhadas pela Câmara ao Executivo no primeiro semestre de 2026, quase 9 mil foram destinadas à realização de serviços de tapa-buraco em diferentes regiões do Município.

Outro ponto destacado no documento é a redução da dotação destinada ao projeto de Modernização e Requalificação das Vias Urbanas, cujos investimentos previstos passaram de mais de R$ 132 milhões em 2025 para pouco mais de R$ 40 milhões em 2026, uma redução de quase 70%.

O requerimento também aponta que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul investiga ações relacionadas ao serviço de tapa-buracos em Campo Grande e cita a Operação “Buraco Sem Fim”, que apurou suspeitas de fraudes em contratos, incluindo possíveis irregularidades em medições de serviços e pagamentos por obras parcialmente executadas ou não realizadas.

Por fim, é mencionado o acompanhamento do tema pelo Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE-MS).

“Não estamos falando apenas de buracos nas ruas. Estamos falando de dinheiro público, de qualidade dos serviços prestados à população e da necessidade de saber por que Campo Grande chegou a essa situação. A Câmara precisa cumprir seu papel de fiscalização e investigar”, defende Luiza Ribeiro.

A proposta solicita a criação da CPI pelo prazo inicial de 120 dias, com a definição dos fatos a serem investigados, composição da comissão e prazo para conclusão dos trabalhos após a adoção das providências regimentais.

Para que a CPI seja aberta, é necessário o apoio de no mínimo um terço dos vereadores. Como a Câmara de Campo Grande tem um total de 29 vereadores, o cálculo resulta na necessidade de, no mínimo, 10 assinaturas.

Para Luiza Ribeiro, a questão central é garantir transparência. “A população de Campo Grande precisa saber quanto está sendo gasto, como os serviços são executados e por que os problemas persistem. Afinal, a manutenção das ruas é um serviço público essencial, e a população tem o direito de saber como seu dinheiro está sendo aplicado ", argumenta. 

O vereador André Salineiro, que assinou o requerimento, defendeu a abertura da CPI e cobrou cobrou transparência e fiscalização sobre os novos contratos anunciados pela Prefeitura, que somam R$ 46,3 milhões, e a promessa de ampliar os serviços para até 3 mil buracos tapados por dia, com várias frentes de trabalho, a partir desta terça-feira (13).

“Sou favorável à abertura de uma CPI do Tapa-Buraco. A população espera uma posição dos vereadores. Nós vamos investigar o que aconteceu ou deixar esse assunto passar sem que esta Casa cumpra o seu papel? Não estou aqui para condenar ninguém antes da conclusão das investigações. Investigar não é condenar”, afirmou Salineiro.

O vereador Veterinário Francisco cobrou, independentemente da abertura da CPI, providências do Executivo municipal para a realização da operação tapa-buracos no bairro  Coophasul e em outras regiões de Campo Grande, cujas solicitações já foram apresentadas várias vezes, mas sem solução do problema.

“Desde o início do meu mandato, tenho cobrado a operação tapa-buracos na nossa Capital.  Foram várias vezes o mesmo pedido para o Coophasul, mas até agora nada foi feito”, afirmou, acrescentando que  a operação tapa-buracos precisa chegar aos bairros que aguardam atendimento.

Ação Policial

Polícia barra festa infantil atribuída ao Comando Vermelho em MS

Duas mulheres foram presas em Pedro Gomes durante operação que impediu evento de Dia das Crianças supostamente financiado pela facção; investigação aponta ações semelhantes em outras cidades do Estado.

13/10/2026 18h01

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.

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Uma festa de Dia das Crianças que, segundo a Polícia Civil, seria utilizada pelo Comando Vermelho para conquistar a simpatia de moradores e ampliar sua influência em comunidades de Mato Grosso do Sul foi impedida pelas forças de segurança na segunda-feira (12), em Pedro Gomes, município da região norte do Estado.

A operação terminou com duas mulheres presas e revelou uma suposta estratégia da organização criminosa para utilizar a distribuição de alimentos, doces e brinquedos como forma de aproximação com a população.

As investigações apontam que a iniciativa não seria isolada. Informações obtidas pelos setores de inteligência das polícias Civil e Militar indicaram que a facção planejava promover eventos semelhantes em pelo menos três municípios sul-mato-grossenses: Pedro Gomes, Sonora e Coxim.

A suspeita é de que as comemorações, apresentadas como iniciativas comunitárias, fossem financiadas por integrantes do Comando Vermelho com o objetivo de fortalecer a presença do grupo nas localidades, estabelecer vínculos com moradores e construir uma imagem de proteção e assistência social, especialmente entre famílias em situação de vulnerabilidade.

Em Pedro Gomes, os policiais identificaram antecipadamente o local e o horário da festa, além de pessoas que estariam envolvidas na organização do evento. O encontro estava previsto para as 15h, no campo de futebol do Bairro São Luís.

Segundo o levantamento policial, também foi identificada uma pessoa apontada como liderança externa da organização criminosa, que mantinha contato direto com as responsáveis locais e com fornecedores contratados para a realização da festa.

Polícia identificou pagamentos e organização da festa

As investigações começaram dias antes da data prevista para as comemorações. A partir do compartilhamento de informações entre os setores de inteligência, as forças de segurança passaram a acompanhar os preparativos dos eventos e os possíveis vínculos dos organizadores com a facção criminosa.

Um dos elementos que chamaram a atenção dos investigadores foi a forma de pagamento dos serviços contratados.

Conforme as informações levantadas, os brinquedos infláveis que seriam disponibilizados às crianças deveriam ser pagos em dinheiro, diretamente no local da festa. Para a polícia, a utilização de valores em espécie poderia dificultar o rastreamento dos recursos empregados na organização do evento.

Além disso, foram identificadas pessoas responsáveis pelos preparativos e contatos que, segundo os investigadores, indicariam a participação de integrantes da organização criminosa no planejamento das atividades.

A partir desses indícios, as equipes intensificaram o acompanhamento da movimentação no Bairro São Luís, com o objetivo de impedir a realização do evento caso fosse confirmada a ligação com a facção.

Duas mulheres foram presas em Pedro Gomes

Durante a intervenção policial, duas mulheres foram encontradas no campo de futebol enquanto montavam uma estrutura destinada à distribuição de alimentos para as crianças da comunidade.

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.Policiais abordaram organizadoras de festa infantil que, segundo a investigação, seria financiada pelo Comando Vermelho em Pedro Gomes. Foto: Divulgação Policia Civil.

Ao serem questionadas pelos agentes, uma delas afirmou que estava organizando uma comemoração infantil, mas não apresentou autorização para a realização do evento.

Segundo a polícia, a jovem já era conhecida das forças de segurança e havia sido mencionada em um registro anterior por supostamente ameaçar moradores da vizinhança em nome de uma organização criminosa.

A investigação apontou ainda que a estrutura preparada para a festa estaria sendo financiada por integrantes do Comando Vermelho, com movimentações financeiras realizadas principalmente por meio de contas bancárias de uma das investigadas.

As duas mulheres foram presas em flagrante, sob suspeita de envolvimento com a organização criminosa e de participação em atividades destinadas a favorecer sua atuação na comunidade.

A polícia também apreendeu aparelhos eletrônicos que, conforme o relatório investigativo, continham informações consideradas relevantes para a identificação dos responsáveis pelo planejamento e financiamento da festa.

Mensagens e transferências via Pix são investigadas

A análise preliminar dos aparelhos apreendidos revelou, segundo a Polícia Civil, conversas que mencionavam diretamente o Comando Vermelho e indicavam a existência de grupos de mensagens utilizados para organizar as atividades.

Entre os registros identificados estaria um grupo destinado especificamente às finanças do chamado "projeto Dia das Crianças", expressão utilizada nas comunicações analisadas pelos investigadores.

Também foram encontradas referências a transferências bancárias realizadas por meio do Pix entre as mulheres investigadas, o que reforçou as suspeitas sobre a existência de uma estrutura financeira por trás da organização dos eventos.

Para os policiais, os elementos reunidos indicam que a comemoração não seria apenas uma iniciativa espontânea das organizadoras, mas parte de uma atividade articulada e financiada por pessoas ligadas à facção.

A investigação busca identificar a origem dos valores movimentados, a participação de outros envolvidos e a extensão da estrutura responsável pelas comemorações planejadas no norte do Estado.

Operação semelhante ocorreu em Sonora

A atuação em Pedro Gomes aconteceu após uma intervenção policial realizada em Sonora, onde as forças de segurança já haviam interrompido um evento semelhante, também relacionado às comemorações do Dia das Crianças.

Na ocasião, duas mulheres foram presas e aproximadamente 200 brinquedos, além de doces, foram apreendidos.

Segundo os investigadores, as características do evento em Sonora apresentavam semelhanças com a iniciativa planejada em Pedro Gomes, o que fortaleceu a suspeita de uma atuação coordenada entre pessoas vinculadas ao Comando Vermelho.

A identificação desse padrão levou os policiais a concentrar esforços na segunda cidade, onde já haviam sido identificados o horário, o local e parte dos responsáveis pelos preparativos.

Coxim também apareceu nas informações de inteligência como um dos municípios onde a facção pretendia promover atividades voltadas ao público infantil. Entretanto, o material divulgado não detalha se houve intervenção policial ou realização de evento semelhante na cidade.

Alimentos foram descartados por falta de garantia sanitária

Além das suspeitas relacionadas ao financiamento da comemoração, a operação levantou questionamentos sobre as condições de preparo e armazenamento dos alimentos que seriam distribuídos às crianças.

A pedido da autoridade policial, a Vigilância Sanitária municipal foi acionada para avaliar os produtos encontrados no local.

Segundo as informações repassadas pelo órgão, não foi possível atestar a segurança dos alimentos, uma vez que as condições de higiene empregadas durante o preparo eram desconhecidas.

Diante da impossibilidade de garantir que os produtos estavam próprios para consumo, o material foi considerado inadequado para distribuição e acabou descartado.

A medida também impediu o reaproveitamento dos alimentos apreendidos, já que não havia garantias suficientes sobre a procedência e as condições sanitárias.

O episódio acrescentou uma preocupação à ocorrência: além da suspeita de utilização da festa para favorecer uma organização criminosa, os produtos seriam destinados a crianças sem que sua segurança sanitária pudesse ser comprovada.

Facção tentaria conquistar apoio da população

Para a Polícia Civil, o caso revela uma estratégia que ultrapassa a atuação tradicional das organizações criminosas no tráfico de drogas e em outros delitos.

Segundo a investigação, as chamadas "ações sociais" funcionariam como instrumentos de aproximação entre integrantes das facções e moradores de comunidades onde esses grupos pretendem ampliar sua influência.

A distribuição de alimentos, brinquedos e outros benefícios permitiria que a organização se apresentasse como uma espécie de protetora da população, criando vínculos e buscando reconhecimento social.

Essa atuação, conforme a avaliação policial, pode contribuir para estabelecer relações de dependência e gratidão, especialmente em localidades marcadas por dificuldades econômicas e acesso limitado a determinados serviços.

Ao mesmo tempo, os investigadores apontam que a estratégia pode prejudicar a relação entre moradores e autoridades, uma vez que a presença das forças de segurança passa a ser apresentada pela organização criminosa como um obstáculo à realização de atividades comunitárias.

De acordo com a Polícia Civil, esse comportamento está associado à chamada narcocultura, fenômeno caracterizado pela normalização e valorização de símbolos, práticas e lideranças de organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas.

Nesse contexto, eventos aparentemente beneficentes poderiam funcionar como ferramentas para fortalecer a imagem das facções, ampliar sua influência territorial e reduzir a disposição de moradores para colaborar com investigações policiais.

Para as autoridades, a utilização de comemorações destinadas a crianças é particularmente preocupante, porque pode aproximar o público infantil de ambientes influenciados por organizações criminosas e contribuir para a naturalização de sua presença na comunidade.

Nova legislação prevê até 20 anos de prisão

As prisões realizadas em Pedro Gomes também estão relacionadas à aplicação da Lei Federal nº 15.358/2026, que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado no Brasil.

A legislação passou a tipificar, entre outras condutas, o crime de favorecimento ao domínio social estruturado, que abrange determinadas formas de apoio e colaboração com organizações criminosas ultraviolentas, grupos paramilitares e milícias privadas.

A pena prevista para esse crime varia de 12 a 20 anos de reclusão, além de multa.

Segundo a Polícia Civil, os elementos identificados durante a investigação fundamentaram a prisão em flagrante das suspeitas e o enquadramento das condutas na nova legislação.

As investigadas também são apontadas como suspeitas de envolvimento com organização criminosa. A responsabilização penal dependerá da análise das provas reunidas e dos desdobramentos do procedimento judicial.

A autoridade policial solicitou ao Poder Judiciário a manutenção das prisões, com a decretação da prisão preventiva, medida que permite manter investigados presos durante o andamento das investigações quando estão presentes os requisitos previstos em lei.

Investigações continuam no norte de MS

Mesmo com a interrupção das comemorações em Pedro Gomes e Sonora, as investigações continuam para identificar outras pessoas que possam ter participado da organização ou do financiamento dos eventos.

Segundo a Polícia Civil, outras pessoas também são investigadas por suspeita de envolvimento na organização e no financiamento dos eventos, incluindo indivíduos que teriam contribuído financeiramente ou mantido contato com as organizadoras locais.

Os investigadores também buscam esclarecer a extensão do planejamento das chamadas ações sociais e identificar eventuais vínculos entre os envolvidos nos diferentes municípios.

O caso chama atenção para uma possível mudança na estratégia de atuação das facções em Mato Grosso do Sul, que, além de disputarem influência por meio de atividades criminosas, também estariam tentando conquistar espaço nas comunidades mediante iniciativas apresentadas como beneficentes.

Para as forças de segurança, impedir a utilização dessas atividades por organizações criminosas é uma forma de enfrentar não apenas os delitos atribuídos às facções, mas também as tentativas de ampliar sua influência sobre a população.

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