A Capital vive um processo de profunda modernização de seus serviços públicos, impulsionado pela Agência Municipal de Tecnologia da Informação e Inovação de Campo Grande (Agetec). Abandonando o modelo tradicional de digitalização isolada, a capital sul-mato-grossense avança rumo ao conceito de cidade inteligente.
O diretor-presidente da Agetec, Leandro Basmage, resume a nova filosofia de trabalho da agência: “A gente não está informatizando a prefeitura. A gente não está informatizando, isso daí é coisa que era do passado”. Segundo o gestor, o objetivo principal é a construção de uma estrutura integrada: “Hoje a gente está construindo uma prefeitura que é baseada em dados e tem interconexão entre as secretarias”.
Sob essa diretriz, a Agetec experimentou um salto de produtividade expressivo, passando de um histórico de 20 projetos desenvolvidos em quatro anos para a marca de 54 projetos entregues em apenas um ano. Essa aceleração reflete o foco em resultados que beneficiem diretamente a população.
Saúde Pública Conectada
Uma das frentes mais sensíveis e bem-sucedidas desse processo de transformação ocorre na Saúde. O portal Cuida+ consolidou-se como uma plataforma que permite aos cidadãos realizarem o agendamento on-line de consultas para a assistência básica e de exames preventivos, tanto para homens quanto para mulheres.
A inovação elimina barreiras físicas e burocráticas ao possibilitar que os resultados de exames laboratoriais sejam acessados diretamente pela internet. Integrado com geoprocessamento, o sistema identifica automaticamente a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência mais próxima com base no endereço do usuário, facilitando inclusive o traçado de rotas.
Para otimizar o fluxo de atendimento nas urgências, a Agetec desenvolveu o mecanismo de contrarreferência, que redireciona pacientes de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) para UBSs. Estima-se que praticamente 85% das pessoas que buscam atendimento nas UPAs poderiam receber assistência nas Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSFs).
Com o novo sistema, o paciente recebe o atendimento de urgência e sai da UPA com uma consulta pré-agendada na sua UBS de referência. No horizonte próximo de melhorias, está a integração de um sistema de mensageria via WhatsApp para o envio de lembretes aos pacientes, com o intuito de diminuir as taxas de faltas nas consultas marcadas.
Paralelamente, Campo Grande obteve destaque nacional ao se tornar a primeira capital do País a ter todas as suas modalidades de atenção à saúde – englobando especialidades, UBSs, pronto atendimento e Centros de Atenção Psicossocial (Caps) – registradas de forma integrada no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) do governo federal. Essa transição substituiu o antigo sistema pago por uma alternativa gratuita oferecida pelo Ministério da Saúde, gerando expressiva economia financeira para os cofres municipais.
A Capital também se destaca como a única cidade brasileira com instalação municipal própria do sistema de Assistência Farmacêutica (e-SUS AF), permitindo o monitoramento de indicadores desse setor em tempo real.
Como relata William Yugo, diretor do Escritório de Projetos na Prefeitura Municipal de Campo Grande, as equipes federais visitaram o município para conhecer de perto as iniciativas de prontuário e de painéis digitais de chamada de pacientes, que otimizam o tempo dos atendimentos médicos.
Educação Digital
A modernização também reestruturou o ambiente pedagógico da Rede Municipal de Ensino (Reme) por meio do aplicativo +Escola e do sistema Avalia+.
O +Escola atua como uma ponte de comunicação direta com os pais, disponibilizando informações em tempo real sobre a frequência escolar do estudante, notas de avaliações, calendário letivo, avisos de reuniões e até mesmo o cardápio da merenda escolar. O sistema também prevê espaço para o compartilhamento dos planos de aula e materiais didáticos lecionados pelos professores.
Na outra ponta dessa infraestrutura digital está o Avalia+, uma ferramenta que funciona como o diário de classe digital dos professores. Substituindo o antigo método de anotações em papel que posteriormente precisavam ser digitadas em sistemas de computadores fixos das escolas, o Avalia+ possibilita que os docentes façam registros de faltas e notas diretamente de seus aparelhos celulares, mitigando o retrabalho.
O sistema, que iniciou sua fase de testes como projeto-piloto em 15 unidades de ensino em março deste ano, passa por um processo de expansão progressiva que engloba o cadastramento de mais de 8.000 professores da Reme para que a obrigatoriedade de uso seja implementada em definitivo.
“A ideia é o pai conseguir entender como que está a performance do aluno”, detalha Leandro Basmage.
Segundo o presidente da autarquia, a geração desses dados servirá de norteador para a gestão pedagógica: “Ao mesmo tempo, esse é um indicador que o diretor do colégio vai gostar muito, porque ele vai entender onde que está a dificuldade, qual é o professor, e acompanhar de perto o ensino. A gente vai começar a ter indicadores que vão nos nortear para ter uma melhor performance dentro daquela unidade”, explica Basmage.
Agetec desenvolveu aplicativo para o setor da Educação (Foto: Paulo Ribas)Segurança para Mulheres
Em termos de utilidade pública e proteção social, o aplicativo Proteja+ destaca-se como um recurso voltado a mulheres sob medidas protetivas decorrentes de violência doméstica.
O aplicativo possui um botão de pânico integrado que aciona instantaneamente a central de monitoramento da Guarda Civil Metropolitana. Como diferencial de usabilidade e segurança para momentos de extrema vulnerabilidade, a ferramenta permite o envio do alerta silencioso mediante o acionamento repetido dos botões físicos do aparelho celular, mesmo com o visor bloqueado. A tecnologia já foi testada com resultados práticos na redução de ocorrências e foi expandida para equipes de saúde, educação e conselheiros tutelares da Secretaria de Assistência Social.
+CG
Outro pilar da atuação digital é o aplicativo +CG, concebido para funcionar como uma “prefeitura no bolso” do cidadão. A plataforma unifica uma ampla gama de demandas, como a emissão de guias de IPTU, denúncias de terrenos baldios, problemas na iluminação pública e, inclusive, a campanha Infância sem Corrente, voltada a denúncias de trabalho infantil.
No âmbito dos serviços urbanos, a plataforma aprimorou o fluxo de solicitações para o tapa-buraco. Ao identificar um buraco na via pública, o cidadão pode registrar uma foto por meio do celular; o sistema realiza o geoprocessamento automático da localização pelo GPS e gera o CEP e o endereço exato, encaminhando a demanda para a equipe operacional correspondente. A digitalização visa otimizar os investimentos públicos e tornar mais eficiente a operação tapa-buraco.
Autonomia Tecnológica
Com previsão de lançamento oficial neste aniversário de Campo Grande, o portal Smart CG trará um mapa dinâmico interativo para a população acompanhar em tempo real o andamento de serviços públicos diversos, como limpeza de bocas de lobo e retirada de galhos de árvores.
Os cidadãos poderão verificar as ordens de serviço por meio de um mapa de cores, em que marcações em vermelho sinalizam as solicitações em aberto e marcações em verde confirmam os trabalhos concluídos pelas equipes da prefeitura.
De acordo com a diretora de Desenvolvimento e Gestão de Sistemas, Cristiane Pilger, essa aceleração das entregas se tornou viável a partir de uma reformulação técnica interna. A Agetec migrou seus sistemas para uma arquitetura de serviços em vez de plataformas monolíticas, o que simplifica drasticamente a manutenção e as atualizações. Além disso, a agência reduziu a dependência de fábricas de software terceirizadas, realizando a maior parte dos desenvolvimentos com sua própria força de trabalho.
Complementando esse ecossistema, o município mantém total controle de suas operações por meio de um data center próprio de alta disponibilidade. O centro de dados conta com infraestrutura física robusta, incluindo geradores de energia redundantes, transformadores e sistemas de climatização adequados para garantir a estabilidade 24 horas por dia das aplicações municipais, operando de forma independente de serviços de nuvem externa.
A infraestrutura é acompanhada pelo programa Acessa+, que fornece conectividade gratuita à internet em postos de saúde, escolas, praças e no Mercadão Municipal. A velocidade da conexão foi ampliada recentemente de 200 MB para 600 MB para melhorar a experiência de navegação dos usuários.
O foco central da agência, como define Leandro Basmage, orienta cada nova criação técnica: “Quando a gente começa o projeto, primeiro a gente avalia: vai melhorar a eficiência da máquina? Vai. Vai melhorar pro serviço para o cidadão? Vai. Então é meio caminho andado”.
Foto: Evento começou com chuva, na Praça do Rádio Clube


