Em apenas quatro horas, durante a manhã de ontem, Campo Grande registrou precipitação acima dos 100 milímetros, volume que superou em quase três vezes o esperado para todo o mês, resultando em estragos e enchentes que fizeram veículos encalhar e atrapalharam a população que tentava se deslocar.
De acordo com dados do Laboratório de Ciências Atmosféricas do Instituto de Física (LCA/Infi) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a Capital viveu um episódio de chuva volumosa entre a madrugada e a manhã de ontem. O painel QualiAR registrava 102,6 mm às 16h21min, enquanto o Observatório Meteorológico da UFMS (Obmet) indicava 110,99 mm às 12h.
Considerando a média histórica de 35,7 mm observada em julho em Campo Grande, medida pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a chuva superou em aproximadamente três vezes esse volume só ontem, no penúltimo dia do mês. No ano passado, foram apenas 9,6 mm de chuva no mês todo.
Segundo o meteorologista do LCA/Infi, Diego Silva, a condição de temporal já vinha sendo observada desde a segunda-feira, com a umidade e os ventos vindos de diferentes direções e se encontrando justamente em região próxima de Campo Grande, favorecendo a ocorrência de tempestades.
“Esse episódio ocorreu dentro de uma configuração atmosférica mais ampla. A carta sinótica [um mapa meteorológico que mostra as condições da atmosfera] mostrava a presença de sistemas transientes, frente fria no Sul e Sudeste, cavados e influência da baixa do Chaco, que ajudaram a reorganizar o transporte de umidade e a instabilidade sobre parte do Brasil. Então, não foi um fenômeno isolado de Campo Grande”, explica.
“A cidade vinha de tempo quente e a atmosfera ganhou umidade, o que contribuiu para a formação de cumulo-nimbos [nuvem de grande desenvolvimento vertical associada a temporais], chuva forte com trovoadas, rajadas e queda acentuada da temperatura. Os acumulados nos sistemas de monitoramento mostram que foi um evento de alto impacto”, completa o especialista.
Nas medições do Inmet, os registros da manhã de ontem foram menores do que as observados pela UFMS: 75,4 mm na Unidade de Pronto Atendimento Aparecida Gonçalves (UPA Universitário); 62,6 mm no Córrego Anhanduizinho(região do Bairro Aero Rancho); e 55,4 mm no Jardim Panamá. Mesmo assim, foram suficientes para ultrapassar a média histórica do mês.

ESTRAGOS
Conforme nota enviada pelo governo do Estado, “o Corpo de Bombeiros não registrou nenhuma situação de destelhamento até o momento em Campo Grande. Os únicos registros são 7 quedas de árvore e dois alagamentos.
Já a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil não recebeu até o momento nenhum registro especial das defesas civis municipais”.
Porém, matéria veiculada pelo Correio do Estado mostrou que alguns pontos de Campo Grande foram fortemente afetados pelo temporal, como o fornecimento de energia elétrica nos Bairros Parati, Lageado, Centenário, Vila Piratininga, Rita Vieira, Los Angeles e Silvia Regina.
A região do Parque dos Poderes, onde se concentram as secretarias de Estado, ficou totalmente alagada na Rua Presidente Manoel Ferraz de Campos Sales, em frente a uma escola.
Motorista tentou passar no meio de alagamento e precisou empurrar o veículo para continuar no caminho, no Parque dos Poderes - Foto: Marcelo Victor/Correio do EstadoJá na Rua Antônio Maria Coelho, em frente ao Parque das Nações, formou-se um rio. Vários carros chegavam perto e tinham de subir na calçada para fazer a travessia, mas alguns desistiram e fizeram o retorno.
Outra área da Capital que ficou totalmente alagada foi o pontilhão da Avenida Ministro João Arinos, no cruzamento com o Anel Viário (BR-163), que dá acesso a BR-262.
No Bairro Pioneiros também costuma haver alagamentos quando ocorrem chuvas fortes, e não foi diferente desta vez, já que o Lago do Amor transbordou em função do mau tempo.
A Prefeitura de Campo Grande informou que, até as 14h, 50 ocorrências tinham sido registradas em função do temporal, a maioria relacionada à queda de árvores. Até o início da tarde, a Agência Municipal de
Transporte e Trânsito (Agetran) havia feito 15 atendimentos de manutenção semafórica em diferentes pontos da cidade.
Pelo menos dois voos precisaram alterar a rota por causa das condições meteorológicas e um outro foi cancelado.
PRÓXIMOS DIAS
O Boletim Meteorológico do LCA/Infi para os próximos dias mostra que o tempo deve voltar a ficar estável, sem previsão de chuva, com exceção da região sudeste do Estado, onde pode acontecer precipitação amanhã.
* Saiba
Segundo a prefeita Adriane Lopes, a Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários (Emha) distribuiu lonas para proteger residências danificadas pelas chuvas.
Uma das localidades atendidas foi o Jardim Noroeste. A Emha orienta moradores que tiveram outros prejuízos causados pelas chuvas a procurar o atendimento emergencial.


