Cerca de cem moradores da comunidade Antônio Maria Coelho amanheceram nesta quinta-feira com a água de consumo doméstico totalmente tomada pela lama
Os cerca de cem moradores do povoado Antônio Maria Coelho e praticamente toda a estrutura turística do Balneário Menck, a cerca de 45 quilômetros da área urbana de Corumbá, foram surpreendidos na manhã desta quinta-feira (29) com a água que abastece a comunidade totalmente tomada pela lama procedente das atividades da mineração desenvolvidas pela LHG Mining, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista.
Segundo Edevaldo Santana de Oliveira, a água que abastece a comunidade é captada e canalizada a partir do Córrego Piraputanga, a cerca de 3,5 quilômetros de distância. E, de acordo com ele, próximo ao local de captação existe uma espécie de muro de arrimo para impedir que água barrenta das estradas chegue ao córrego.
Na noite passada, porém, algum funcionário da mineradora, utilizando uma máquina, destruiu esta proteção e direcionou a água da chuva em direção ao local onde ocorre a captação, explica Edevaldo, que há 58 anos mora na comunidade Antônio Maria Coelho.
E, de acordo com ele, a chuva não foi intensa e não existe explicação lógica para fizesse a manobra. “Acho que foi para desviar a água que ficava empossada próximo de uma guarita da mineradora. Isso é um crime ambiental e alguém precisa ser responsabilizado por isso”, opina Edevaldo.
Historicamente a comunidade, instalada às margens da desativada ferrovia (estação Antônio Maria Coelho) captava água de córregos mais próximos. Mas, por conta da mineração, estas nascentes secaram e eles tiveram de improvisar a tubulação para trazer a água de longe.
Na comunidade existe um reservatório de dez mil litros e a partir dele a água é direcionada para as caixas dos moradores. Por volta do meio dia desta quinta-feira a coloração da água procedente do Piraputanga já havia melhorado, mas os reservatórios estão todos tomados pela lama, reclama Edeltrudes Correia Olveira, mais conhecida como Edil.
Por conta da lama, a água dos reservatórios foi despejada nesta quinta-feira. Porém, as escorrer ela invadiu o pátio da escola da comunidade, inviabilizando até mesmo as atividades lúdicas das crianças, reclamaram os vereadores (veja vídeo).
Os moradores da região consomem a água do Corrego Piraputanga sem qualquer tipo de tratamento. Eles chegaram a receber filtros, mas praticamente todos já abandonar os equipamentos, pois a cada semana eram obrigados a substituir os refis, pois ficavam tomadas pela lema e a água simplesmene não passava mais, segundo Edevaldo.
"Antigamente tinhamos água mineral aqui. Prova disso é que vinha gente de tudo que é lado para buscar água, já que que tinha a fama se ser medicinal. Hoje, não temos água mineral, mas temos água com minério de ferro", lamenta a senhora Edil antes de enviar uma série de vídeos mostrando a água avermelhada.
O Correio do Estado procurou a LGH Mining e a informação que obteve é de que uma equipe que fica na área urbana de Corumbá foi enviada à comunidade para tentar entender o que ocorreu
Mas, a água barrenta não é o único problema da comunidade. Mais grave que isso, reclamam, é a poeira procedente da atividade de mineração. Na região circulam diariamente em torno de 300 carretas que levam minério de ferro até o Porto Esperança, localizado a cerca de 45 quilômetros de distância, às marges do Rio Paraguai.
Além da poeira procedente da extração de minérios, eles convivem com a fuligem da siderúrgica da empresa Vetorial, que utiliza dezenas de toneladas de carvão carvão diariamente para produzir ferro gusa.
Por conta das reclamações, a LHG Mining assumiu o compromisso de umidificar as estradas, o que ameniza, mas não acaba com o problema da poeira. E a tendência é de que a situação se agrave, pois a mineradora conseguiu autorização para aumentar a extração anual de 12 para 25 milhões de toneladas de minério.
Neste projeto, porém, existe a previsão de que boa parte dos caminhões seja retirada das estradas. O projeto prevê a construção de uma correia de 12 quilômetros para levar o minério até a estação ferroviária. Esta correia, conforme o projeto, será coberta e praticamente elimina a poeira que existe atualmente.
Depois, tudo será carregado em vagões e levado pela ferrovia até o Porto Gregório Curvo, em Porto Esperança, onde estão previstos investimentos de R$ 1,9 bilhão para ampliar a modernizar o sistema de carregamento do minério nas barcaças que descem pelo Rio Paraguai. A meta da LHG é despachar até 15 milhões de toneladas de minério por ano a partir deste porto.
Os investimentos bilionários previstos na mineração da região se explicam pela qualidade do material. O minério extraído no Maciço do Urucumpossui alto teor de pureza e qualidade excepcional, sendo uma das principais províncias minerais do Brasil. Como a região é rica tanto em ferro quanto em manganês, os níveis de pureza variam de acordo com o mineral, entre 62% e 67%. Em outras minas, este teor é da ordem de 40%.
Nos primeiros oito meses deste ano foram ocorreu aumento de 11% nas exportações de minério feitas a partir de Corumbá, passando de 6,349 milhões de toneladas para 7,080 milhões de toneladas, tudo sendo escoado pela hidrovia do Rio Paraguai. É o maior volume da já exportado neste período e praticamente tudo isso passou pela comunidade Antônio Maria Coelho.